Flauta de Bambu: fantasia entre dois mundos

Novo livro de Giu Yukari Murakami une Amazónia e Japão numa fantasia sobre identidade, família e pertencimento.
 Foto promocional da escritora Giu Yukari Murakami autora de Flauta de Bambu

Romance une Amazônia e Japão numa jornada de identidade e pertencimento


Entre rios e memórias, nasce uma história de descoberta


"Nem sempre herdamos o nosso lugar — às vezes, construímo-lo."
Carmen Augusta

O fenómeno da pororoca — o encontro turbulento entre o rio amazónico e o mar — ganha uma dimensão simbólica em Flauta de Bambu, novo livro de Giu Yukari Murakami, publicado pela Rocco. É a partir dessa imagem poderosa que a autora constrói um romance infantojuvenil de fantasia onde se cruzam culturas, memórias e identidades, ligando a Amazónia ao Japão numa narrativa sensível e envolvente.

A história acompanha Aiko, uma jovem de treze anos que vive em Belém do Pará e enfrenta desafios comuns da adolescência: o bullying na escola, as inseguranças pessoais e as constantes discussões entre os pais. Ao lado do amigo Nilo, tenta navegar esse mundo instável, ao mesmo tempo que se afasta das crenças que marcaram a sua infância.

Tudo muda quando a sua avó, Masumi — a querida batchan — lhe pede ajuda para encontrar uma amiga desaparecida há décadas. Antiga contadora de histórias e figura central na infância de Aiko, Masumi carrega um passado marcado pela guerra e pela separação. Em criança, fugiu com Kimiko num navio rumo ao desconhecido. Mas enquanto Masumi chegou ao Brasil, Kimiko perdeu-se nos mistérios do mar.

Agora, já fragilizada pela idade, Masumi volta a sentir a presença da amiga através da melodia de uma flauta de bambu — o instrumento que ambas tocavam. Movida pelo amor e pela memória, Aiko aceita a missão, mesmo sem compreender totalmente o que está em jogo.

A partir daí, a narrativa mergulha numa jornada onde o real e o fantástico se entrelaçam. Entre tradições japonesas herdadas da família e o quotidiano amazónico, Aiko descobre que a magia pode estar inscrita nas suas próprias origens. O conceito de Akai Ito — o fio vermelho do destino — surge como elemento central, simbolizando os laços invisíveis que unem pessoas para além do tempo e da distância.

Mais do que uma história de aventura, Flauta de Bambu é uma reflexão sobre identidade, pertença e raízes. Para Giu Yukari Murakami, a proximidade com a família é também uma forma de reencontro com a ancestralidade. Aiko, ao longo da narrativa, começa a compreender quem é, de onde vem e qual o seu lugar no mundo — mesmo que esse lugar ainda esteja em construção.

A fantasia, neste contexto, não é apenas um género literário, mas um refúgio e uma ferramenta criativa. A autora assume que foi através dela que encontrou espaço para explorar emoções e dar forma a mundos extraordinários, onde as relações humanas ganham um toque de magia.

Inspirada por sagas como Percy Jackson, Desventuras em Série e Como Treinar o Seu Dragão, bem como por animações e o imaginário japonês, Giu constrói uma ponte entre universos culturais distintos. No livro, convivem youkais — criaturas sobrenaturais japonesas — e elementos da mitologia amazónica, criando uma dualidade rica e original.

Natural de Belém, a autora transporta para a obra a sua vivência enquanto mulher nipo-brasileira. Embora Aiko não seja um reflexo direto de si, carrega traços emocionais e experiências que dialogam com a realidade de muitos jovens que vivem entre culturas. A sensação de não pertencimento, o peso da responsabilidade e a procura por identidade são temas tratados com autenticidade.

A mensagem central do livro é clara: o nosso lugar no mundo nem sempre está definido — mas pode ser construído. Através de relações familiares, amizades, fé e elementos mágicos, a narrativa reforça a importância da representatividade e da diversidade na literatura, especialmente no universo infantojuvenil.

Giu Yukari Murakami estreou-se na literatura em 2017 com Guardiões do Império – O Selo do Sétimo. Desde então, tem colaborado com publicações internacionais, participado em eventos literários e acumulado distinções, como o Prémio Fox-Empíreo de Literatura. A autora destaca ainda a resiliência como elemento essencial no processo criativo: escrever é, para ela, um exercício constante de reconstrução, erro e reinvenção.

Num dos trechos da obra, a narrativa mergulha no imaginário japonês:

“— Urashima Taro salvou a tartaruguinha dos rapazes e levou-a para o mar. Dias depois, ele foi surpreendido por uma outra tartaruga de tamanho gigante. — Batchan gesticulou com os braços, arregalando os olhos para dar maior dramaticidade à narração. — Era um mensageiro do Dragão Imperador do Mar, o grande e temível Ryūjin.

Aquele nome me despertou uma sensação estranha, como se tivesse sido picada por um carapanã no centro do peito. Endireitei-me no sofá para prestar mais atenção à história.”

Com 328 páginas, Flauta de Bambu afirma-se como uma obra que mistura fantasia, memória e identidade, propondo ao leitor uma viagem entre mundos — e, sobretudo, para dentro de si mesmo.

Ficha Técnica
Título: Flauta de Bambu
Autora: Giu Yukari Murakami
Editora: Rocco
Gênero: fantasia, fantasia infantojuvenil
ISBN: 978-65-5532-542-3 (livro físico) e 978-65-5595-351-0 (livro digital)
Páginas: 328
"Flauta de Bambu" no site da editora

Nota do Editor - Portal Splish Splash
Entre o rio e o mar, entre o Japão e a Amazónia, Flauta de Bambu revela que as maiores viagens são interiores. Um livro que fala aos jovens — e aos adultos que ainda procuram o seu lugar.

Enviar um comentário

Comentários