Um Inimigo do Povo no CCB

Espetáculo Um Inimigo do Povo de Marco Martins chega ao CCB com reflexão sobre imigração, poder e sociedade a partir do clássico de Ibsen.
Espetáculo Um Inimigo do Povo de Marco Martins no CCB

Marco Martins revisita Ibsen num espetáculo sobre imigração e poder


Quando a arte encara a realidade, o palco torna-se um espelho incómodo da sociedade


O Centro Cultural de Belém apresenta, de 12 a 15 de março, no Grande Auditório, o espetáculo Um Inimigo do Povo, nova criação de Marco Martins a partir da célebre obra de Henrik Ibsen. A encenação propõe uma releitura contemporânea do clássico norueguês, deslocando o foco do conflito entre indivíduo e coletivo para questões muito atuais relacionadas com imigração, poder e manipulação do discurso público.

Interpretado em português, inglês, bengali e nepali — com legendas em português — o espetáculo reúne em palco um elenco diverso que inclui Amin Nurul, Dil Bahadur Ale, Janit Fernandes, Kamal Chowdhury, Kamal Sarder, Niraj Khadka, Rajib Al Mamun, Sabera Parvin, Sharker Nasrin, Shohel Rana, Rita Cabaço e Rodrigo Tomás. A sessão de 15 de março contará ainda com interpretação em Língua Gestual Portuguesa, reforçando a acessibilidade da produção.

A nova criação surge no âmbito da rede europeia Prospero NEW, sendo o CCB o coprodutor principal do projeto, em colaboração com o Théâtre de Liège. O espetáculo integra ainda coproduções com o Teatro Municipal do Porto, o Theatro Circo (Braga 25 – Capital Portuguesa da Cultura) e a Schaubühne.

A dramaturgia, assinada por Marco Martins, resulta de um processo coletivo que reúne testemunhos do próprio elenco, investigação jornalística de Joana Pereira Bastos e Raquel Moleiro e referências a autores como Thomas Ostermeier, Elias Canetti, Hannah Arendt, Marguerite Duras ou Pier Paolo Pasolini. Esta abordagem procura ampliar a dimensão política e social da obra original de Ibsen.

A inspiração direta para esta adaptação surgiu em dezembro de 2024, quando uma operação policial na Rua do Benformoso, em Lisboa, colocou cerca de 60 imigrantes — na sua maioria do Bangladesh — encostados a uma parede durante duas horas. As imagens, gravadas por moradores, tornaram-se virais e desencadearam um intenso debate público sobre imigração, segurança e direitos humanos.

Esse episódio passou a simbolizar, para muitos observadores, a forma como a imigração tem sido tratada em várias sociedades europeias, frequentemente transformada em instrumento de discursos políticos polarizados e amplificada por narrativas mediáticas simplificadoras.

É precisamente nesse território de tensão que o espetáculo se constrói. Em vez de falar sobre os imigrantes, o projeto procura dar-lhes voz direta em palco. As suas biografias, experiências e testemunhos tornam-se matéria dramática, cruzando-se com o texto clássico para revelar as fraturas sociais e políticas do presente.

A criação conta ainda com composição vocal e direção musical de Rabih Beaini, música original de João Pimenta Gomes, cenografia de Isabel Cordovil e João Romão (xxxi.studio), desenho de luz de Nuno Meira e movimento de Lua Carreira e Maria Fonseca. A produção executiva é de Hugo Alves Caroça e a gestão e direção de produção de Sérgio Azevedo.

O espetáculo tem classificação etária M/16, duração aproximada de duas horas e inclui a utilização de luzes estroboscópicas.

Mais do que uma simples adaptação teatral, Um Inimigo do Povo afirma-se como um projeto artístico e político que confronta o público com uma pergunta inevitável: quem decide quem é o “inimigo” da sociedade?


Nota do Editor - Portal Splish Splash
A nova criação de Marco Martins demonstra como os clássicos podem dialogar com o presente de forma incisiva. Ao cruzar o texto de Ibsen com testemunhos reais de imigrantes, o espetáculo transforma o palco num espaço de reflexão sobre poder, identidade e cidadania, num momento em que o debate sobre imigração continua a marcar a agenda europeia. 
Enviar um comentário

Comentários