Reflexão sobre o valor real dos sonhos num mundo que insiste em vendê-los
O prazer da compra é curto, o do sonho é duradouro
Por: Eduardo Armelin*
Sonhar com a casa própria. Com o carro. Com o emprego dos sonhos. Com uma família. Todos esses sonhos são fáceis de reconhecermos. Aprendemos desde pequenos que temos papéis a cumprir no mundo que adentramos, achando que aquele é o manual de sobrevivência ou o mapa do que deve ser feito durante nossa estadia.
Mas como pode algo tão ordinário passar despercebido? Quando foi que trocamos o sonho de vivenciar pela vontade de adquirir? Hoje em dia não se fala mais em viver, mas sim em comprar. Meu sonho era comprar uma casa. Meu sonho era uma viagem para a Europa. Desde quando monetizamos os sonhos e fizemos eles se tornarem tão insignificantes?
Talvez você esteja se perguntando: o que tem de errado nisso? É algo tão comum que nossas células se acostumaram com essa postura e ficou difícil observar a questão a olho nu.
O maior problema é que comprar libera endorfina e dopamina, gerando uma sensação temporária de prazer, euforia e alívio do estresse. Desta forma, sabemos que um sonho não é algo que se conquista fazendo uma visita ao supermercado, mas que é construído e trabalhado. Isso leva tempo e não acaba quando o Pix é enviado. Associamos o sonho a subir uma montanha, nos projetamos hasteando a bandeira como se estivéssemos na lua para dizer: aqui cheguei. Olhem para mim.
É bem possível que tudo isso seja uma farsa mesmo. Não a lua, mas como operamos. Como vemos os sonhos, que se tornaram um fardo de estresse, sacrifício e dificuldade, que só a “conquista” dele pode comprar sua paz e alegria. Quando, na verdade, os sonhos são coisas pessoais e que envolvem aquilo que você faz por paixão.
Algo que se torna libertador quando descobrimos que a busca pelos sonhos é feita de ciclos individuais, que se cruzam com os caminhos de nossas vidas. Tudo isso porque o sonho não nos abandona, ele é aquela voz que nos impulsiona a experimentar a existência com a leveza que deveria ser.
Sonhar não é ficar de olhos abertos, contemplando o céu, rindo à toa. Muito menos é uma caça a medalhas e tapinhas nas costas, para ter sua injeção semanal de endorfina ou dopamina.
Os sonhos, na verdade, são atemporais. Quando internalizamos isso, passamos a senti-los e experienciá-los, cercando-nos de uma sensação de prazer indescritível em que não existe distinção entre antes, durante ou depois. Tudo é uma grande experiência, um sentimento de gratidão e reconhecimento interno que é duradouro e que levamos até o fim de nossa viagem.
*Eduardo Armelin é autor do livro Na Estação que Paramos, uma ficção que levanta debates sobre a imprevisibilidade do futuro, a importância da esperança e o poder dos sonhos.
Nota do Editor - Portal Splish Splash
Num tempo em que tudo parece ter preço, este texto de Eduardo Armelin resgata o valor essencial dos sonhos como experiências vividas e não como bens adquiridos, convidando-nos a repensar prioridades.
Reflexão sobre o valor real dos sonhos num mundo que insiste em vendê-los
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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