Entre o Instinto e a Coleira

Livro Tendências Caninas de Gabriela Chrispim explora lealdade e obsessão numa poesia intensa sobre a natureza humana e instinto.
 Gabriela Chrispim autora do livro Tendências Caninas com capa da obra

Poesia visceral explora a fronteira entre lealdade e obsessão humana


Há instintos que sobrevivem à domesticação. E há feras que aprendem a falar em silêncio.


A escritora e poeta carioca Gabriela Chrispim apresenta ao público o seu terceiro livro, Tendências Caninas, numa proposta literária que se afasta do conforto e mergulha numa zona de tensão entre instinto e contenção. Em pré-venda pela editora Mondru até 5 de abril, a obra consolida uma voz autoral que se constrói a partir da inquietação — e não da acomodação.

Mais do que um conjunto de poemas, Tendências Caninas funciona como um campo de investigação sensível sobre a condição humana. A metáfora central — a dicotomia entre o cão e o lobo — não é apenas estética: é estrutural. Nela, a autora estabelece paralelos entre comportamentos animais e relações humanas, questionando até que ponto a lealdade é escolha ou imposição, e onde começa a obsessão.

A escrita de Chrispim é assumidamente visceral. A autora convoca imagens intensas, por vezes desconfortáveis, onde o corpo e o instinto assumem protagonismo. A domesticação surge como dor, como amputação simbólica de uma natureza primária que insiste em sobreviver. Nesse cenário, o cão representa a submissão moldada, enquanto o lobo encarna a ruptura — o retorno à essência indomada.

Ao longo dos poemas, a tensão cresce até atingir um ponto de rutura: a criatura que antes obedecia passa a reagir. Já não se limita a mostrar garras e presas — usa-as. Há, aqui, uma dimensão quase catártica, onde a libertação não é suave nem conciliadora, mas afirmativa e, por vezes, violenta. A identidade reprimida deixa de pedir espaço: toma-o.

Segundo a autora, o ponto de partida foi uma inquietação simples, mas poderosa: “Quis trabalhar com a dualidade entre ser leal e ser obsessivo.” Essa linha ténue, explorada ao longo da obra, revela-se surpreendentemente elástica, mostrando como sentimentos aparentemente nobres podem deslizar para territórios de dependência e perda de autonomia.

O livro nasce também de um processo formativo — uma oficina promovida pela própria editora Mondru — e foi desenvolvido ao longo de cerca de oito meses. Curiosamente, Gabriela Chrispim procurou afastar-se de influências literárias diretas, numa tentativa consciente de preservar uma voz própria. Ainda assim, reconhece no filme Dog's Dinner, de Sofia Isella, uma inspiração indireta, sobretudo na atmosfera e no tratamento simbólico da animalidade.

Nascida e criada em Belford Roxo, no Rio de Janeiro, Chrispim começou a escrever ainda na infância. Nos últimos anos, tem vindo a afirmar-se como autora independente, tratando a escrita não apenas como expressão artística, mas como instrumento de investigação íntima. Após a estreia literária em 2023 e o lançamento da plaquete bruno em 2025, Tendências Caninas surge como um passo mais maduro — e mais ousado — na sua trajetória.

A sua poesia atravessa o corpo, a memória e a linguagem com uma intensidade que recusa superficialidades. Há, no seu trabalho, uma busca constante por autenticidade — mesmo quando essa autenticidade implica confrontar zonas desconfortáveis da experiência humana.


Nota do Editor - Portal Splish Splash
Num tempo em que a superficialidade tende a dominar o discurso cultural, obras como Tendências Caninas reafirmam a importância de uma literatura que incomoda, questiona e expõe. Gabriela Chrispim surge como uma voz a acompanhar com atenção no panorama contemporâneo da poesia em língua portuguesa.
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