Arte e território em diálogo no Galpão Bela Maré

Exposição “onde a língua goteja pedra”, de Carla Santana e Gilson Plano, apresenta obras inspiradas na paisagem geológica e abre nova fase do Galpão B
Cartaz da exposição “onde a língua goteja pedra” no Galpão Bela Maré

Exposição reúne obras criadas em imersão no quadrilátero mineiro


A paisagem também fala — às vezes em silêncio, às vezes em pedra


O Galpão Bela Maré apresenta a exposição “onde a língua goteja pedra”, dos artistas Carla Santana e Gilson Plano, com curadoria de Anna Luísa Oliveira e Ana V. Lopes. A mostra abre ao público no dia 14 de março e reúne esculturas, pinturas e experimentações materiais desenvolvidas a partir de uma imersão artística no quadrilátero mineiro, região de grande relevância geológica e histórica no Brasil.

O projeto nasce de uma relação direta com a paisagem e com os vestígios do tempo inscritos na matéria. Minerais, pigmentos e superfícies deixam de ocupar apenas o papel de suporte e passam a integrar ativamente a construção das obras. Nesse processo, o gesto artístico aproxima-se de dinâmicas naturais como sedimentação, erosão e acumulação, revelando uma investigação sensível sobre a origem e a transformação das formas.

Instalada no contexto da Maré, território marcado por sucessivos processos de ocupação e transformação urbana, a exposição estabelece um diálogo entre diferentes camadas de tempo. A paisagem local — marcada por aterros, memórias disputadas e transformações sociais — encontra eco nas temporalidades geológicas exploradas pelos artistas, aproximando passado profundo e experiência contemporânea.

A imersão realizada pelos artistas incluiu percursos por territórios de relevância geológica e cultural, como o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, a Serra da Saudade e o Cerrado do Quilombo Raízes. Durante esse percurso, Santana e Plano também estabeleceram encontros com artistas, mestres e agentes culturais locais. O desenvolvimento das obras surgiu desse processo de escuta, observação e convivência com o território.

O texto curatorial destaca que a paisagem observada pelos artistas revela marcas deixadas pela ação da água ao longo de temporalidades incomensuráveis. Crostas calcárias, superfícies ferruginosas e vestígios de sedimentação marinha tornam-se inscrições naturais da passagem do tempo. Nesse cenário, a chamada “memória aquosa” permanece viva tanto nos saberes ligados à pesca quanto nas materialidades que emergem nos ciclos climáticos e no cotidiano das comunidades.

Mais do que uma exposição, “onde a língua goteja pedra” também marca um novo momento para o Galpão Bela Maré. O espaço expositivo passa por um processo de requalificação que inclui melhorias nas estruturas elétrica, hidráulica e de climatização, além de um novo sistema de iluminação e ampliação das condições de acessibilidade.

Criado em 2011 pelo Observatório de Favelas em parceria com a produtora Automatica, o Galpão Bela Maré já realizou 78 exposições ao longo de 15 anos de programação gratuita. A atualização de suas infraestruturas reforça a capacidade do espaço para receber exposições, atividades formativas e encontros públicos, mantendo o compromisso com o acesso democrático à cultura.

A intervenção foi realizada em 2026 com apoio do edital Nossos Museus RJ. O programa é apresentado pelo Governo Federal, pelo Ministério da Cultura, pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro e pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, por meio da Política Nacional Aldir Blanc no estado. Conta ainda com patrocínio da Vale, Itaú Unibanco e White Martins, apoio institucional do Itaú Cultural, IJCA e Quadra Galeria, além da parceria da Automatica e TradInterlab.

SERVIÇO:
Exposição: Onde a língua goteja pedra
Artistas: Carla Santana e Gilson Plano
Curadoria: Anna Luísa Oliveira e Ana V. Lopes
Abertura: 14/03, às 13h
Período expositivo: 14/03 a 11/04
Encontro com os artistas: 28/03, às 16h
Visitação: terça a sábado, das 10h às 18h
Local: Galpão Bela Maré
Endereço: Rua Bittencourt Sampaio, 169, Maré
Classificação: livre
Visitas mediadas: terças e quintas, às 14h, mediante agendamento
Agendamento: educativo.belamare@observatoriodefavelas.org.br

Sobre o Galpão Bela Maré
O Galpão Bela Maré, projeto do Observatório de Favelas realizado em parceria com a Automática, é um espaço voltado à difusão, produção, mobilização, formação e fruição das artes e das expressões culturais através de suas mais variadas manifestações, visando, sobretudo, articular a produção artística periférica com o circuito da arte contemporânea no Rio de Janeiro. Inaugurado em 2011, consolidou-se como um espaço de referência na cidade para o debate do papel político da arte, especialmente no contexto das periferias.Sobre o Observatório de Favelas
Sobre o Observatório de Favelas
O Observatório de Favelas, criado em 2001, é uma organização da sociedade civil sediada no Conjunto de Favelas da Maré, com atuação nacional. A organização busca promover o direito à cidade e incidir sobre políticas públicas, valorizando as favelas e periferias como territórios de potência e direitos.

Nota do Editor - Portal Splish Splash
A exposição “onde a língua goteja pedra” reafirma a capacidade da arte contemporânea de dialogar com território, memória e matéria. Ao aproximar paisagem geológica e experiência social, a mostra revela como diferentes camadas de tempo continuam a moldar a vida e os espaços que habitamos. 
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