TV Brasil aposta em ficção e documentários dirigidos por mulheres
O jogo agora também se decide nos bastidores
A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) anunciou a seleção de quatro projetos audiovisuais dedicados ao futebol feminino, no âmbito da chamada pública Seleção TV Brasil. As produções escolhidas vão contar com um investimento global de 13 milhões de reais, através do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA/Ancine), e deverão integrar a grelha da TV Brasil, com distribuição adicional pelas emissoras parceiras da Rede Nacional de Comunicação Pública (RNCP), alcançando potencialmente uma audiência estimada em 120 milhões de espectadores.
Todos os conteúdos agora em desenvolvimento têm um ponto em comum: serão dirigidos por mulheres. A decisão, mais do que simbólica, procura garantir coerência entre o objeto narrativo e o olhar criativo que o traduz para o ecrã. Entre os projetos selecionados, destaca-se a série de ficção “A Taça das Favelas”, da produtora Preta Portê Filmes, empresa com maioria de pessoas negras, indígenas ou com deficiência no seu quadro societário.
Classificada como série premium no âmbito deste concurso, “A Taça das Favelas” receberá o maior montante individual de financiamento — cerca de 6 milhões de reais — não por critérios de representatividade, mas pela consistência e maturidade do projeto apresentado. A diretora de Conteúdos e Programação da EBC, Antonia Pellegrino, sublinhou que a iniciativa representa um passo importante na consolidação do futebol feminino como matéria narrativa e imaginário coletivo no audiovisual brasileiro.
A diretora artística e produtora Juliana Vicente descreve a obra como uma narrativa que parte do futebol praticado nas periferias urbanas, mas que rapidamente se expande para temas mais amplos, como identidade, pertença e afirmação social. Segundo a realizadora, o desporto funciona aqui como motor dramático de histórias centradas em jovens mulheres que lutam por visibilidade e protagonismo num espaço tradicionalmente dominado por homens.
A opção pelo formato de ficção seriada visa aprofundar o desenvolvimento das personagens e criar uma ligação mais duradoura com o público, permitindo que experiências frequentemente confinadas a contextos locais ganhem ressonância nacional e até internacional. Juliana Vicente considera ainda que a presença de produtoras vocacionadas neste tipo de chamadas públicas reflete um amadurecimento do setor audiovisual e evidencia a importância de políticas públicas eficazes na estruturação de empresas capazes de produzir conteúdos com padrão competitivo.
Este impulso surge num momento particularmente relevante para o futebol feminino, cuja projeção internacional se encontra em crescimento, sobretudo com o Brasil confirmado como país anfitrião do Campeonato Mundial de Futebol Feminino de 2027, evento que deverá mobilizar atenções em várias geografias.
Além de “A Taça das Favelas”, foram igualmente selecionados os projetos “O Maior Festival Feminino de Várzea do Mundo”, da Big Bonsai Brasilis Produções; “Toda a Menina Futebol Clube”, da Truque Produtora; e “A Nossa Michael Jackson”, da Pindorama Filmes.
A iniciativa reforça o posicionamento da TV Brasil enquanto plataforma de promoção do futebol feminino. Nos últimos três anos, a emissora pública tem assegurado a transmissão das principais competições nacionais da modalidade, envolvendo clubes de todo o país.
Para 2026, a programação desportiva do canal inclui jogos das Séries A1, A2 e A3, bem como partidas decisivas das categorias de base. Estão previstos mais de 50 encontros ao longo da época, numa estratégia da EBC que procura valorizar o desporto feminino, democratizar o acesso às competições e aproximar o público das novas protagonistas do futebol brasileiro.
As transmissões ganham ainda maior amplitude através da parceria com as estações integrantes da RNCP, que retransmitem a programação nos respetivos estados. A TV Brasil detém atualmente os direitos de transmissão das competições organizadas pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), ampliando assim a visibilidade da modalidade no território nacional.
Nota do Editor - Portal Splish Splash
Num país onde o futebol sempre foi religião e espetáculo, ver o feminino finalmente tratado como narrativa — e não como rodapé — pode ser o verdadeiro pontapé de saída para mudar o jogo dentro e fora do ecrã.
TV Brasil aposta em ficção e documentários dirigidos por mulheres
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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