SOBREVIVENTES: arte, escuta e reconstrução após a violência

Exposição SOBREVIVENTES transforma relatos de mulheres que romperam o ciclo da violência doméstica em experiência artística imersiva no Brasil
Exposição SOBREVIVENTES no Centro de Artes UFF aborda a vida após a violência doméstica por meio de arte imersiva e relatos de superação feminina

Exposição imersiva propõe nova narrativa sobre violência doméstica no Brasil


Sobreviver é um ato político, íntimo e profundamente transformador


Num país onde uma mulher sofre violência a cada quatro minutos, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o debate sobre violência doméstica deixou de ser uma urgência pontual para se tornar uma necessidade contínua. É neste cenário que surge SOBREVIVENTES – Exposição Multiplataforma sobre a vida após a violência doméstica, em cartaz no Centro de Artes UFF, em Niterói (RJ), entre 4 de março e 12 de abril de 2026.

A proposta da exposição afasta-se deliberadamente da espetacularização da dor. Aqui, a violência não é o ponto final, mas o ponto de partida para falar de ruptura, reconstrução e liberdade. O foco desloca-se da vitimização para os caminhos possíveis após o rompimento do ciclo da violência. “Precisamos falar das sobreviventes não apenas como exceções diante das estatísticas do feminicídio, mas como mulheres que seguem existindo e que encontram na liberdade um horizonte de possibilidades”, sublinha Maria da Penha, fundadora e presidente de honra do Instituto Maria da Penha e referência maior na luta pelos direitos das mulheres no Brasil.

Idealizada por Juliana Gouveia, cineasta com atuação desde 2009 e dedicada a narrativas femininas, SOBREVIVENTES nasce da inquietação em compreender como se rompe um ciclo de violência e o que vem depois dele. “A exposição extrapola o cinema e afirma-se como uma experiência multiplataforma. É sobre como essas mulheres reconstruíram sonhos, fortaleceram o autoamor e encontraram novos projetos de vida após saírem de relações violentas. É sobre futuros possíveis e sobre a descoberta de viver em liberdade”, explica a curadora.

Apesar dos avanços legais proporcionados pela Lei Maria da Penha (2006) e pela Lei do Feminicídio (2015), o Brasil ainda apresenta índices alarmantes de violência contra a mulher, com a maioria dos casos ocorrendo dentro do ambiente doméstico. Nesse contexto, a exposição assume também um papel pedagógico e social, funcionando como ferramenta de conscientização, acesso à informação e estímulo à denúncia.

O percurso expositivo articula diferentes linguagens artísticas, reunindo fotografias, áudio-histórias, ilustrações, obras têxteis e videodança. A experiência é pensada para conduzir o visitante da escuta atenta à expansão do corpo livre. Nas Áudio-Histórias, relatos reais são interpretados por atrizes convidadas, reforçando que cada trajetória é única e que não existe um único modelo de sobrevivência.

Com apoio do Instituto Maria da Penha e do Ministério Público do Rio de Janeiro, o projeto ultrapassa o espaço físico da galeria e incorpora ações de impacto social, oferecendo orientações práticas sobre como identificar, nomear e interromper o ciclo da violência doméstica.

A exposição organiza-se em dois percursos simbólicos. O primeiro é um labirinto, onde o público escuta histórias de sete mulheres de forma entrelaçada. A escolha do labirinto não é aleatória: a violência doméstica cria a sensação de aprisionamento e ausência de saída. Ainda assim, essas narrativas mostram que há caminhos possíveis. Ao longo do trajeto, surgem obras que remetem ao espaço doméstico e ao tempo necessário para reconhecer, compreender e verbalizar a violência vivida. No segundo percurso, após a saída do labirinto, uma videodança aponta para a liberdade, a reconstrução e a retomada do corpo como território de autonomia.

SOBREVIVENTES não oferece respostas fáceis nem soluções simplistas. O que afirma é algo mais poderoso: sair é possível, reconstruir é possível e nomear corretamente a violência é parte essencial do processo. Ao final da visita, o público recebe materiais informativos do Ministério Público com orientações sobre como pedir ajuda. No site oficial da exposição, estão disponíveis instruções detalhadas sobre denúncia, solicitação de medida protetiva e registo de boletim de ocorrência online, entre outros recursos fundamentais.

Nota do Editor – Portal Splish Splash
Falar de violência doméstica sem explorar a dor é um gesto ético e necessário. SOBREVIVENTES mostra que a arte também pode ser espaço de escuta, consciência e reconstrução, lembrando que sobrevivência não é exceção: é possibilidade concreta.
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