Novo álbum de Penny Arcade troca guitarras por lo-fi e psicadelia crua
Menos cordas, mais nervo. Um disco que prefere capturar o momento a polir a memória.
Double Exposure, o novo álbum de Penny Arcade, com edição marcada para 17 de abril, não representa uma rutura absoluta com o passado, mas aprofunda um caminho mais cru, instintivo e desconstruído no percurso de James Hoare, conhecido pelo trabalho em Veronica Falls, Ultimate Painting e The Proper Ornaments. Aqui, as guitarras deixam de dominar o centro da narrativa sonora. Não por manifesto, mas por consequência natural do próprio processo criativo. Ainda assim, seria exagerado dizer que desapareceram: o solo duplo que atravessa “Regrets”, o tema de abertura, mostra que as seis cordas continuam a marcar presença — ainda que longe de qualquer território à Lynyrd Skynyrd.
Penny Arcade - Rear View Mirror
Depois do LP de estreia Backwater Collage, lançado em 2024 sob o pseudónimo Penny Arcade, este novo trabalho assume-se como uma experiência psicadélica sustentada por caixas de ritmos que moldam a arquitetura das canções. O resultado oscila entre contrastes: da obscuridade inquietante de “Worst Trip” à luminosidade intrincada de “You’ve Got the Key”, que parece resgatar uma interpretação muito britânica da psicadelia gravada em fita há meio século. “Everything’s Easy” acrescenta uma tonalidade blue-eyed soul, ideal para viagens de carro melancólicas sob sol baixo, enquanto o restante alinhamento se afirma como um manifesto de experimentalismo solitário, onde ideias surgem no espectro estéreo apenas para se dissiparem logo depois. Nada soa excessivamente pensado. Este é, acima de tudo, um álbum de ideias.
“Rear View Mirror”, single de apresentação, coloca as caixas de ritmos no centro da ação, evocando ecos de Radiohead na era In Rainbows, filtrados por uma sensibilidade próxima de Silver Apples. A gravação, rápida e quase imediata, privilegia a simplicidade e a crueza que sobreposições densas dificilmente conseguiriam replicar. Segundo Hoare, a iminente mudança para o sul de França influenciou diretamente a estética lo-fi do disco, impondo urgência ao processo e conferindo a algumas faixas uma qualidade de demo assumida. Quando um dos destaques é um corte nebuloso de dois minutos intitulado “Instrumental No. 1”, percebe-se que o objetivo foi deixar a fita correr e captar o instante.
Ao longo do álbum, caixas de ritmos rítmicas e órgãos viscerais entrelaçam-se com diferentes abordagens à guitarra, desde as ragas de “Early Morning”, evocativas de George Harrison, até à atmosfera densa de “We Used to Be Good Friends”. O tema final, “Riverside Drive”, resume bem o espírito do disco: surge, ganha forma e desvanece-se sem se prolongar além do necessário, como um sonho acordado. O título Double Exposure — inspirado na técnica fotográfica da dupla exposição — reflete esse empilhamento espontâneo de melodias que se organizam num quadro abstrato. O resultado situa-se algures entre a inquietação experimental de Syd Barrett e as inovações analógicas de Tim Presley, mente por trás de White Fence.
Novo álbum de Penny Arcade troca guitarras por lo-fi e psicadelia crua
Penny Arcade - Rear View Mirror
Redatora Permanente do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Uma sonhadora que acredita no verdadeiro amor, no romantismo e na felicidade, que carrega a fé em cada detalhe da vida. VER PERFIL
Comentários
Enviar um comentário
🌟Copie um emoji e cole no comentário: Clique aqui para ver os emojis