Odorico Paraguaçu: O Humor que Não Envelhece

Frases humorísticas de Odorico Paraguaçu na novela O Bem-Amado com destaque para o cemitério de Sucupira e o inesquecível odoriquês que marcou geraçõe
Cartaz criativo com a entrada do Cemitério de Sucupira e o título Odorico Paraguaçu: O Humor que Não Envelhece

Os ditos do prefeito de Sucupira que transformaram erros em arte

Há personagens que passam. Outros ficam. E há os que ficam… dizendo disparates geniais.

"Certos discursos são tão vazios que, se fossem malas no aeroporto,
passavam no raio-X sem levantar suspeitas."
Vímara Porto

Por: Armindo Guimarães


Nem todos viam telenovelas por gosto. Em muitas casas portuguesas, elas entravam pela sala adentro à hora do jantar com a naturalidade de quem já fazia parte da família. Foi assim que muitos — eu incluído — acabaram por assistir, mesmo sem querer, a algumas das mais marcantes interpretações da televisão brasileira.

Foi também assim que nasceu o contacto com uma das personagens mais extraordinárias alguma vez criadas para a televisão: Odorico Paraguaçu, o prefeito de Sucupira, interpretado de forma magistral por Paulo Gracindo, na novela O Bem-Amado, exibida no início da década de 1970.

Mais do que o enredo, o que verdadeiramente prendia a atenção era a forma. A dicção. O gesto. O exagero calculado. O uso criativo — e absolutamente delirante — da língua portuguesa. Odorico falava como quem queria parecer erudito… mas acabava por se afundar no próprio palavreado.

Ao longo dos anos, ficaram na memória expressões que, de tão absurdas, se tornaram brilhantes. Não se tratava apenas de humor. Havia ali um trabalho de construção linguística que exigia precisão, ritmo e uma notável capacidade de manter a seriedade no meio do disparate.

Através de um vocabulário inventado, cheio de sufixos pomposos e neologismos desastrosos, Odorico tornava-se o retrato perfeito do político que quer soar culto… e acaba por revelar o vazio do discurso. Era uma sátira fina, mas contundente, que atravessou gerações e continua atual num mundo onde a retórica política tantas vezes se enreda em floreados inúteis.

A novela, escrita por Dias Gomes, foi também pioneira: O Bem-Amado foi a primeira telenovela brasileira gravada a cores, e a personagem de Odorico tornou-se imediatamente um ícone cultural. Em Portugal, onde a televisão brasileira marcou profundamente o imaginário popular, o prefeito de Sucupira ganhou estatuto de figura mítica — meio político, meio bufão, totalmente inesquecível.

Abaixo, algumas das suas frases mais célebres, que — parafraseando o próprio — "ficaram para os anais e menstruais do humor e da arte de representar".

Campanha Eleitoral

"Vai ter uma confabulância político-sigilista sobre as nossas candidaturas."
"Quem é que pode morrer em paz mormentemente sabendo que, depois de morto, defunto, vai ter que defuntar três léguas para ser enterrado?"
"Vexame para o nosso prefeito, agora em estado de defuntice compulsória, ter que andar três léguas para ser enterrado."
"Se eleito nas próximas eleições, meu primeiro ato como prefeito será o de cumprir com o funéreo dever de mandar fazer o construimento do cemitério municipal."

Discurso de Posse - Construimento do Cemitério

"Tomo posse como prefeito desta cidade com as mãos limpas e o coração despido estripitisicamente de qualquer ambição de glória. Nesta hora exorbitante, neste momento extrapolante eu alço os olhos para o meu destino e, vendo no céu a cruz de estrelas que nos protege, peço a Deus que olhe para nossa terra e abençoe a brava gente de Sucupira."
"É com a alma lavada enxaguada que lhe recebo nesta humilde cidade."
"Como dizia o poeta Castro Alves: ‘Bendito aquele que derrama água, água encanada, e manda o povo tomar banho.’"
"Como é sabido de Vossas Senhoricências, infelizmentemente, temos que aguardar que algum evento malditoloso leve do seio da terra secupirana um dos seus amadorosos filhos."
"O senhor não vai matar, vais suicidar o homem apenasmente..."

Providenciamentos Administrativos e Inauguratícios do Cemitério

"Seu Dirceu, não fique aí com essa cara de seu-Malaquias-cadê-minha-farofa! Tome os providenciamentos necessários!"
"Pare com esse perguntório e essa cara de desenteria. Temos é que tratar dos providenciamentos inauguratícios do cemitério."
"Vamos botar de lado os entretantos e partir para os finalmente."
"Meu caro jornalista, isso me deixa bastantemente entristecido, com o coração afogado na daceptude e no desgosto. Numa hora em que eu procuro arrancar o azeite-de-dendê do estágio retaguardista do manufaturamento (…), me vêm com esse acusatório destabocado somentemente porque meia dúzia de baiacus apareceram mortos na praia."

Cemitério Municipal Municipal de Secupira - Discurso Inauguratício

"É uma alegria poder anunciar que prafrentemente vocês já poderão morrer descansados, tranquilos e desconstrangidos, na certeza de que vão ser sepultados aqui mesmo, nesta terra morna e cheirosa de Sucupira."
"Vamos dar uma salva de palmas a esta figura trepidante e dinamitosa que foi o Seu Nono."
"Esta obra entrará para os anais e mentruais de Sucupira e do país.."
"Como diria o rei dos persas, Dario Peito de Aço, pra cada problemática tem uma solucionática. Se não disse, perdeu a oportunidade de ser citado por mim."

 

Nota do Editor - Portal Splish Splash 
A personagem de Odorico Paraguaçu permanece como um dos mais eficazes exemplos de sátira política na ficção televisiva de língua portuguesa. Através do exagero verbal e da caricatura discursiva, expõe com humor as fragilidades de uma oratória que privilegia a forma em detrimento do conteúdo. Revisitar os seus ditos é, mais do que recordar uma novela marcante, reconhecer o poder da representação enquanto instrumento crítico e intemporal.


1 Comentários

Comentários

🌟Copie um emoji e cole no comentário: Clique aqui para ver os emojis

  1. Eheheheheheheheh...Odorico Paraguaçu deixou saudades!
    Muito legal e ainda tem os vídeos que me fizeram rir muito.
    Obrigada por nos trazeres essas recordações, querido menino Armindo!
    Beijinhos. 🙂 🙏

    ResponderEliminar