Thriller psicológico expõe o lado oculto da maternidade
Nem toda a maternidade começa com um sorriso. Às vezes, começa com uma dúvida que corrói por dentro
Há filmes que embalam. Outros inquietam. “O Bebé da Mamã” pertence claramente à segunda categoria. O novo thriller psicológico da realizadora austríaca Johanna Moder mergulha no território delicado — e pouco romantizado — da maternidade, revelando o que acontece quando o sonho idealizado se transforma num labirinto emocional.
Na história, Júlia, uma maestra de sucesso de 40 anos, parece ter tudo sob controlo. Profissionalmente realizada, falta-lhe apenas concretizar o desejo de formar família com o companheiro Georg. Após um tratamento experimental numa clínica de fertilidade, conduzido pelo misterioso Dr. Vilfort, a gravidez acontece rapidamente. Mas o parto foge ao planejado. O bebé é retirado de imediato dos braços da mãe, sem explicações claras. Quando finalmente o reencontra, instala-se uma inquietação devastadora: será mesmo aquele o seu filho?
A partir desse momento, a narrativa entra numa espiral psicológica intensa. Depressão pós-parto, paranoia e a sensação de que algo está profundamente errado conduzem a protagonista por um território onde a linha entre realidade e perceção se torna difusa. Moder opta deliberadamente pelo suspense psicológico em vez do drama tradicional, explorando contrastes visuais entre beleza e dor, luz e sombra, estabilidade e colapso emocional.
Coproduzido pela Áustria, Alemanha e Suíça, o filme estreia comercialmente nos cinemas brasileiros a 5 de março de 2026, com distribuição da Autoral Filmes. Antes disso, teve antestreia no 75º Festival Internacional de Cinema de Berlim, onde competiu pelo Urso de Ouro, além de marcar presença em festivais como Talinn Black Nights (Estónia), Festival de Cinema da Índia e Sitges (Espanha).
No elenco destacam-se Marie Leuenberger no papel de Júlia, Hans Löw como Georg e Claes Bang como o enigmático Dr. Vilfort. A crítica internacional não ficou indiferente: o Hollywood Reporter descreveu o filme como envolvente e perturbador, com uma inesperada camada de humor negro; o Deadline evocou “Eraserhead”, de David Lynch, na abordagem visceral à maternidade; já o Hollywood News sublinhou a força da realização e das interpretações, apontando elementos de terror sugeridos ao longo da narrativa.
Segundo Johanna Moder, trata-se de um projeto profundamente pessoal. A realizadora assume que o nascimento, frequentemente vendido como o auge da felicidade, pode também representar o início de um pesadelo íntimo. A fachada da família perfeita é desmontada, revelando expectativas esmagadoras e conflitos identitários raramente retratados no grande ecrã.
Com 108 minutos de duração, “O Bebé da Mamã” insere-se numa tendência recente de obras realizadas por mulheres que abordam a maternidade sob prismas desconcertantes, recusando o cliché da perfeição e explorando as zonas cinzentas da experiência feminina.
Ficha Técnica
Realização: Johanna Moder
Argumento: Johanna Moder e Arne Kohlweyer
Direção de Fotografia: Robert Oberrainer
Direção de Arte: Hannes Salat
Figurinos: Stefanie Bieker e Carola Pizzini
Maquilhagem: Martine Felber
Som: Patrick Storck, Nils Kirchhoff, Gina Keller e Guido Keller
Edição: Karin Hammer
Música: Diego Ramos Rodriguez
Produção: Sabine Moser e Oliver Neumann (FreibeuterFilm AT)
Coprodução: Katrin Renz, Viola Fügen e Michael Weber
Elenco: Marie Leuenberger, Hans Löw, Claes Bang e Julia Franz Richter
Sobre Johanna Moder
Argumentista e realizadora austríaca, Johanna Moder destacou-se com “Alto Desempenho” (2014), vencedor do Prémio do Público no Festival Max Ophüls. “Once Were Rebels” consolidou o seu reconhecimento internacional, arrecadando distinções como o Prémio do Júri Ecuménico em Zurique e Melhor Realização no Festival Max Ophüls. Mais recentemente, dirigiu projetos televisivos como “School of Champions” e o telefilme “Para Sempre Teu”. “O Bebé da Mamã” marca mais um passo na sua trajetória autoral, agora em coprodução internacional.
Sobre a Autoral Filmes
Fundada no início de 2025 por Felipe Didoné e Marize Didoné, a Autoral Filmes nasce da experiência do Paradigma Cine Arte, sala de referência em Florianópolis desde 2010. A distribuidora aposta no cinema de autor e em documentários de arte, privilegiando curadoria criteriosa e qualidade artística. Para Felipe Didoné, o projeto representa a expansão de um sonho: levar ao circuito de distribuição a mesma identidade sofisticada que sempre marcou a exibição.
Nota do Editor - Portal Splish Splash
Num tempo em que a maternidade continua a ser retratada como território exclusivamente luminoso, “O Bebé da Mamã” ousa abrir a porta ao desconforto. E ainda bem. O cinema também serve para questionar mitos, desmontar ilusões e lembrar que a experiência humana raramente cabe num postal cor-de-rosa.
Thriller psicológico expõe o lado oculto da maternidade
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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