Mostra reúne seis décadas de arte de Gilberto Salvador no Rio
Uma geometria que não se limita à régua: pulsa, corta e provoca
Termina no próximo domingo, 1º de março de 2026, a exposição “Geometria Visceral”, que apresenta ao público um amplo panorama da produção recente do artista paulistano Gilberto Salvador, em exibição no Paço Imperial, no centro histórico do Rio de Janeiro. Com curadoria da crítica de arte Denise Mattar, a mostra reúne cerca de 40 obras entre pinturas, esculturas e vídeos, ocupando integralmente os três salões do segundo pavimento do edifício.
Há 17 anos sem expor na cidade, Salvador mantém uma ligação estética e afetiva com o Rio, que já inspirou diversas criações ao longo da sua carreira. Nesta nova apresentação, esse vínculo ressurge também sob a forma de acessibilidade: o artista, que enfrenta limitações de mobilidade decorrentes de uma paralisia infantil contraída aos nove meses de idade, desenvolveu duas esculturas táteis que podem — e devem — ser tocadas pelos visitantes. A proposta rompe com o modelo tradicional de contemplação distante e aproxima o público da experiência sensorial da arte.
Com mais de seis décadas de trajetória, Gilberto Salvador permanece ativo e produtivo, superando obstáculos físicos sem nunca abdicar da sua pesquisa estética. Apesar de ser figura fundamental na cena artística paulista, sua obra ainda é pouco conhecida no circuito carioca, em parte devido às dificuldades logísticas que limitaram sua presença ao longo dos anos. Nesse contexto, a exposição assume também um caráter revelador, permitindo ao público redescobrir — ou descobrir pela primeira vez — um artista em plena maturidade criativa.
Embora centrada na produção recente, a mostra estabelece um diálogo com obras emblemáticas das décadas de 1960 e 1970, como “Viu...!” (1968), criada em confronto direto com o período da ditadura militar brasileira. Desde os seus primeiros trabalhos, Salvador demonstra a capacidade de fundir racionalidade construtiva com impulso orgânico, transformando a cor em discurso e o traço em comentário político.
Inicialmente figurativa, sua produção evoluiu gradualmente em direção à abstração, incorporando uma diversidade de materiais como acrílico, metal, tinta e elementos oriundos da construção civil — uma referência direta à sua formação em arquitetura. Recortes estruturais, volumes fragmentados e cromatismos vibrantes tornaram-se marcas distintivas do seu estilo, evocando não apenas a geometria formal, mas também a intensidade da paisagem tropical brasileira.
Ao longo da exposição, as obras mais recentes são organizadas em conjuntos temáticos que exploram linguagens distintas. Entre eles, destacam-se paisagens recortadas inspiradas no Rio de Janeiro, com referências visuais ao perfil do Morro Dois Irmãos, ao Pão de Açúcar e ao Saco do Mamanguá, em Paraty. Em algumas dessas composições, Salvador dialoga com os registros do pintor austríaco Thomas Ender, que retratou o Brasil no século XIX durante a visita da princesa Leopoldina.
Outras séries exploram memórias gráficas, como os quadriculados que remetem aos azulejos de piscinas — uma textura que o artista absorveu durante as horas passadas a nadar — e composições em caixas de acrílico contendo objetos diversos, como prumos, bolas de ténis pintadas e placas de chumbo marteladas e costuradas à madeira, conferindo às obras um caráter quase orgânico.
O uso de acrílico polarizador em determinados trabalhos cria efeitos luminosos que parecem emergir da própria superfície, especialmente quando apresentados em ambientes escurecidos. Na última sala da exposição, uma seleção de vídeos sobre o processo criativo de Salvador amplia o entendimento da sua prática artística, incluindo obras que não integram a mostra física, como aquarelas feitas com café e gravuras em metal.
Nota do Editor - Portal Splish Splash
Num tempo em que tanto se fala de inclusão, esta exposição prova que acessibilidade também se constrói com sensibilidade artística. “Geometria Visceral” não é apenas uma retrospetiva — é um convite para tocar, ver e sentir a arte para além dos limites convencionais.
Mostra reúne seis décadas de arte de Gilberto Salvador no Rio
Redatora Permanente do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Uma sonhadora que acredita no verdadeiro amor, no romantismo e na felicidade, que carrega a fé em cada detalhe da vida. VER PERFIL
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