O intérprete invisível de quem dependiam a paz, a guerra e a sobrevivência
"Quem dominava as palavras decidia destinos sem nunca aparecer nos livros" Vímara Porto
Por: Armindo Guimarães
Nos grandes encontros entre portugueses e povos desconhecidos, havia sempre um homem colocado entre dois mundos. Não empunhava espada, não comandava navios, não assinava tratados. Falava. E isso bastava para mudar tudo. Era o língua.
Chamavam-lhes línguas porque eram, literalmente, o órgão que permitia comunicar. Sem eles, não havia comércio, nem alianças, nem evangelização, nem simples entendimento. Um gesto mal explicado podia ser afronta. Uma palavra mal traduzida podia ser guerra. Um silêncio bem escolhido podia salvar uma tripulação inteira.
O língua conhecia mais do que idiomas. Conhecia intenções, medos, códigos culturais, insultos disfarçados de cortesia. Sabia quando uma oferta era armadilha, quando um sorriso escondia ameaça, quando uma recusa precisava de ser dita como honra para evitar sangue. Traduzia palavras, mas também emoções — e, muitas vezes, mentia por sobrevivência.
O língua era também guardião de fronteiras que não apareciam nos mapas: as fronteiras do possível. Sabia até onde podia esticar uma metáfora sem ofender, até onde podia suavizar uma ameaça sem parecer fraco, até onde podia inventar uma explicação que permitisse aos dois lados salvar a face. Era um equilibrista moral, caminhando sobre um fio estendido entre mundos que raramente se compreendiam. E, nesse fio, cada palavra era um passo que podia ser o último.
Havia ainda um outro perigo: o de saber demasiado. O língua era testemunha de segredos, de intenções ocultas, de pactos feitos na sombra. Sabia o que cada lado dizia quando pensava que o outro não podia ouvir. Carregava verdades que não podia repetir e mentiras que tinha de sustentar. Vivia num território onde a confiança era sempre provisória e a lealdade, uma corda bamba. Talvez por isso tantos desapareceram sem deixar rasto — não por falharem, mas por terem sido indispensáveis demais.
Não era neutro. Nunca foi.
Torcia frases para ganhar tempo. Suavizava ameaças. Omitia insultos. Adaptava conceitos que não existiam de um lado nem do outro. Fazia diplomacia improvisada com o corpo em risco. Se tudo corresse bem, ninguém reparava nele. Se algo falhasse, era o primeiro a pagar.
Muitos eram luso-asiáticos, mestiços, degredados, náufragos antigos, homens deixados em terra que aprenderam a viver entre culturas. Não pertenciam totalmente a lado nenhum. Por isso mesmo, pertenciam a ambos o suficiente para serem úteis — e descartáveis.
Sem o língua, não haveria relatos como os de Pêro Vaz de Caminha nem páginas como as de Fernão Mendes Pinto. Porque antes de serem escritas, essas histórias tiveram de ser ditas, explicadas, negociadas, traduzidas. A epopeia começou na boca de homens anónimos que nunca entraram nos mapas.
Quando o língua desaparecia — morto, abandonado ou esquecido — a História encolhia os ombros e seguia adiante. Os capitães mantinham os nomes. Os tratados ficavam assinados. As palavras que evitaram massacres dissolviam-se no tempo.
O poder passou sempre por quem falava melhor. Mas a glória ficou para quem mandava calar.
Nota do Editor – Portal Splish Splash Este texto integra uma série dedicada às figuras invisíveis das viagens portuguesas, aquelas sem as quais os encontros entre civilizações nunca teriam acontecido.
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O intérprete invisível de quem dependiam a paz, a guerra e a sobrevivência
Vímara Porto
Por: Armindo Guimarães
Chamavam-lhes línguas porque eram, literalmente, o órgão que permitia comunicar. Sem eles, não havia comércio, nem alianças, nem evangelização, nem simples entendimento. Um gesto mal explicado podia ser afronta. Uma palavra mal traduzida podia ser guerra. Um silêncio bem escolhido podia salvar uma tripulação inteira.
O língua conhecia mais do que idiomas. Conhecia intenções, medos, códigos culturais, insultos disfarçados de cortesia. Sabia quando uma oferta era armadilha, quando um sorriso escondia ameaça, quando uma recusa precisava de ser dita como honra para evitar sangue. Traduzia palavras, mas também emoções — e, muitas vezes, mentia por sobrevivência.
O língua era também guardião de fronteiras que não apareciam nos mapas: as fronteiras do possível. Sabia até onde podia esticar uma metáfora sem ofender, até onde podia suavizar uma ameaça sem parecer fraco, até onde podia inventar uma explicação que permitisse aos dois lados salvar a face. Era um equilibrista moral, caminhando sobre um fio estendido entre mundos que raramente se compreendiam. E, nesse fio, cada palavra era um passo que podia ser o último.
Havia ainda um outro perigo: o de saber demasiado. O língua era testemunha de segredos, de intenções ocultas, de pactos feitos na sombra. Sabia o que cada lado dizia quando pensava que o outro não podia ouvir. Carregava verdades que não podia repetir e mentiras que tinha de sustentar. Vivia num território onde a confiança era sempre provisória e a lealdade, uma corda bamba. Talvez por isso tantos desapareceram sem deixar rasto — não por falharem, mas por terem sido indispensáveis demais.
Não era neutro. Nunca foi.
Torcia frases para ganhar tempo. Suavizava ameaças. Omitia insultos. Adaptava conceitos que não existiam de um lado nem do outro. Fazia diplomacia improvisada com o corpo em risco. Se tudo corresse bem, ninguém reparava nele. Se algo falhasse, era o primeiro a pagar.
Muitos eram luso-asiáticos, mestiços, degredados, náufragos antigos, homens deixados em terra que aprenderam a viver entre culturas. Não pertenciam totalmente a lado nenhum. Por isso mesmo, pertenciam a ambos o suficiente para serem úteis — e descartáveis.
Sem o língua, não haveria relatos como os de Pêro Vaz de Caminha nem páginas como as de Fernão Mendes Pinto. Porque antes de serem escritas, essas histórias tiveram de ser ditas, explicadas, negociadas, traduzidas. A epopeia começou na boca de homens anónimos que nunca entraram nos mapas.
Quando o língua desaparecia — morto, abandonado ou esquecido — a História encolhia os ombros e seguia adiante. Os capitães mantinham os nomes. Os tratados ficavam assinados. As palavras que evitaram massacres dissolviam-se no tempo.
O poder passou sempre por quem falava melhor. Mas a glória ficou para quem mandava calar.
Nota do Editor – Portal Splish Splash
Este texto integra uma série dedicada às figuras invisíveis das viagens portuguesas, aquelas sem as quais os encontros entre civilizações nunca teriam acontecido.
Escriba das coisas da vida e da alma. Admin., Editor e Redator do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Máxima favorita: "Andamos sempre a aprender e morremos sem saber". VER PERFIL
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