Pequenas mãos para grandes misérias a bordo das naus portuguesas
Antes de aprenderem a viver, aprenderam a sobreviver
"O mar não distinguia idades — apenas corpos úteis." Vímara Porto
Por: Armindo Guimarães
Não escolheram partir. Foram levadas. Pequenas demais para decidir, grandes o suficiente para trabalhar. Eram crianças — grumetes, pajens, ajudantes — embarcadas nas naus portuguesas com tarefas consideradas menores, mas que pesavam mais do que os seus próprios corpos.
Varriam o convés e o porão. Esfregavam o chão encharcado de água, vinho e sangue. Despejavam os baldes das necessidades humanas acumuladas nos fundos da nau, respirando um ar que nem os adultos aguentavam. Levavam recados, transportavam cargas, limpavam os aposentos dos oficiais. Sempre disponíveis. Sempre invisíveis.
Dormiam onde calhava. Comiam o que sobrava. Cresciam depressa — não por virtude, mas por necessidade. O mar roubava-lhes a infância a cada balanço da nau.
Nos dias de tempestade, eram os primeiros a cair. Nos naufrágios, os primeiros a desaparecer. Poucos sabiam nadar. Menos ainda eram lembrados. Quando morriam, não havia registo nem lamento oficial. Uma criança perdida era apenas menos uma boca para alimentar.
"estes grumetes são a gente mais rasteira do navio (...) e só servem para lançar os cabos acima, mas não sobem aos mastros, nem passam do convés. Fazem todo o serviço pesado do navio, ajudam como criados aos marinheiros, que lhes batem e os repreendem muito; não podem tampouco menear o leme e não há trabalho algum, quer fora, quer dentro do navio, que êles não sejam obrigados a fazer, como baldear o navio e dar à bomba; e este ultimo serviço só a eles pertence, salvo se por algum caso fortuito o navio fizer mais água do que é costume" (Laval, vol. II, 1944, pág. 144).
Algumas sobreviveram. Tornaram-se marinheiros endurecidos antes de serem homens. Outras regressaram mudas, com olhos que já tinham visto demais. Muitas ficaram pelo caminho, dissolvidas no sal e no esquecimento.
A História fala de capitães, pilotos e heróis. Raramente fala destas crianças que mantinham a nau funcional enquanto o mundo adulto decidia rumos, lucros e glórias.
Não levaram mapas nem espadas. Levaram baldes, vassouras e silêncio.
Nota do Editor – Portal Splish Splash As crianças a bordo das naus portuguesas foram uma presença constante e pouco estudada. O seu trabalho era essencial para o funcionamento diário das embarcações, mas a sua condição permanece quase ausente da narrativa histórica tradicional.
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As obras que sustentam esta investigação podem ser consultadas na página Referências e Fontes.
Pequenas mãos para grandes misérias a bordo das naus portuguesas
Antes de aprenderem a viver, aprenderam a sobreviver
Vímara Porto
Por: Armindo Guimarães
Varriam o convés e o porão. Esfregavam o chão encharcado de água, vinho e sangue. Despejavam os baldes das necessidades humanas acumuladas nos fundos da nau, respirando um ar que nem os adultos aguentavam. Levavam recados, transportavam cargas, limpavam os aposentos dos oficiais. Sempre disponíveis. Sempre invisíveis.
Dormiam onde calhava. Comiam o que sobrava. Cresciam depressa — não por virtude, mas por necessidade. O mar roubava-lhes a infância a cada balanço da nau.
Nos dias de tempestade, eram os primeiros a cair. Nos naufrágios, os primeiros a desaparecer. Poucos sabiam nadar. Menos ainda eram lembrados. Quando morriam, não havia registo nem lamento oficial. Uma criança perdida era apenas menos uma boca para alimentar.
"estes grumetes são a gente mais rasteira do navio (...) e só servem para lançar os cabos acima, mas não sobem aos mastros, nem passam do convés. Fazem todo o serviço pesado do navio, ajudam como criados aos marinheiros, que lhes batem e os repreendem muito; não podem tampouco menear o leme e não há trabalho algum, quer fora, quer dentro do navio, que êles não sejam obrigados a fazer, como baldear o navio e dar à bomba; e este ultimo serviço só a eles pertence, salvo se por algum caso fortuito o navio fizer mais água do que é costume" (Laval, vol. II, 1944, pág. 144).
Algumas sobreviveram. Tornaram-se marinheiros endurecidos antes de serem homens. Outras regressaram mudas, com olhos que já tinham visto demais. Muitas ficaram pelo caminho, dissolvidas no sal e no esquecimento.
A História fala de capitães, pilotos e heróis. Raramente fala destas crianças que mantinham a nau funcional enquanto o mundo adulto decidia rumos, lucros e glórias.
Não levaram mapas nem espadas. Levaram baldes, vassouras e silêncio.
Nota do Editor – Portal Splish Splash
As crianças a bordo das naus portuguesas foram uma presença constante e pouco estudada. O seu trabalho era essencial para o funcionamento diário das embarcações, mas a sua condição permanece quase ausente da narrativa histórica tradicional.
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As obras que sustentam esta investigação podem ser consultadas na página Referências e Fontes.
Escriba das coisas da vida e da alma. Admin., Editor e Redator do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Máxima favorita: "Andamos sempre a aprender e morremos sem saber". VER PERFIL
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