China: progresso económico a que preço?

A China reduziu drasticamente a pobreza, mas com forte controlo político. Um olhar crítico sobre crescimento económico e liberdade de expressão.
China: progresso económico, redução da pobreza e restrições à liberdade política

O crescimento económico pode encher pratos, mas não garante vozes livres

"Há conquistas que se pagam em dinheiro — e outras que se pagam em silêncio."
Vímara Porto

Por: Armindo Guimarães


Ontem, vagueando pelo Facebook — coisa que cada vez mais vai rareando por já pouco interessar — deparei-me com o post abaixo.

“A China conseguiu algo que poucas nações conseguiram em tão pouco tempo: tirar da pobreza extrema cerca de 800 milhões de pessoas entre o início da década de 1980 e 2020, segundo estimativas do Banco Mundial.
Esta mudança profunda começou após as reformas económicas iniciadas em 1978, quando o país abriu gradualmente a sua economia ao mundo e lançou políticas destinadas a modernizar a agricultura, impulsionar a indústria e melhorar as oportunidades de emprego para milhões de famílias rurais.
Durante os anos 80 e 90, a expansão da indústria transformadora, a criação de zonas económicas especiais e a melhoria do acesso às infra-estruturas básicas transformaram regiões inteiras. Mais tarde, já nos anos 2000 e até ao final de 2010, a China implementou programas específicos para reduzir a pobreza rural, levando estradas, electricidade, água potável, educação e serviços médicos para comunidades historicamente isoladas. Esta combinação de crescimento económico e políticas focalizadas permitiu que gerações completas mudassem o seu destino.
Embora ainda existam desigualdades e desafios a serem resolvidos, a magnitude da conquista é extraordinária. Esses 800 milhões de pessoas representam mais do dobro da população dos EUA, quase seis vezes a população do México, ou mais do que a soma do Brasil e do Japão juntos. Para colocar em perspectiva, a China tem hoje cerca de 1,4 biliões de habitantes, o que torna esta transformação, alcançada entre 1980 e 2020, uma das maiores e mais rápidas reduções de pobreza da história moderna.

Fonte:
– "Four decades of poverty reduction in China", Documentos Públicos do Banco Mundial
– "Levantando 800 milhões de pessoas da pobreza – Novo relatório analisa as lições da experiência da China", Grupo do Banco Mundial"
 
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Desconfio sempre quando textos como este circulam isolados nas redes sociais, sem contexto nem contraponto, acabando por soar mais a propaganda — involuntária ou não — do que a análise completa. Ainda assim, neste caso concreto, as fontes citadas são credíveis. O Banco Mundial e o Grupo do Banco Mundial são instituições respeitadas, com dados sólidos e metodologias reconhecidas. Isso não significa, porém, neutralidade narrativa. Estes relatórios têm um foco bem definido: a medição da pobreza e das políticas económicas, não a avaliação de direitos humanos ou liberdades civis.

É inegável que a China protagonizou uma das maiores reduções de pobreza da história moderna. Retirar cerca de 800 milhões de pessoas da pobreza extrema, em pouco mais de quatro décadas, é um feito colossal. Infra-estruturas onde antes havia terra batida, acesso a eletricidade, água potável, escolarização básica e cuidados de saúde mínimos transformaram, de facto, a vida de milhões. Esse mérito existe e não desaparece apenas porque incomoda algumas narrativas ideológicas ocidentais. Fingir o contrário seria intelectualmente desonesto.

Mas, como se costuma dizer, não há bela sem senão. Essa prosperidade teve — e tem — um preço elevado: o controlo apertado do Estado sobre a sociedade. Na China contemporânea, o crescimento económico não caminhou lado a lado com liberdade política. Pelo contrário. Liberdade de expressão, de opinião, de imprensa, de associação e até de circulação digital são severamente condicionadas. O cidadão comum pode hoje ter um apartamento, um carro e acesso a tecnologia de ponta, mas não pode criticar abertamente o Partido Comunista, organizar oposição política ou consumir informação fora dos filtros do regime. Progresso material, sim. Liberdade cívica, não.

O modelo chinês trocou direitos individuais por estabilidade e crescimento. Funcionou para reduzir a pobreza? Funcionou. Produziu uma sociedade livre? Não. A vigilância em massa, o crédito social, a censura na Internet, a repressão a minorias étnicas e religiosas e o silenciamento de dissidentes mostram que, no fim de contas, o Estado continua acima do indivíduo. É uma escolha política clara: primeiro come-se melhor; pensar livremente fica para depois — se algum dia vier.

Em resumo, a China mostrou que é possível reduzir pobreza em massa sem democracia liberal. O verdadeiro debate começa na pergunta seguinte: a que custo humano e por quanto tempo esse equilíbrio se aguenta? É que o crescimento compra silêncio durante um período; não compra liberdade nem consciência. E essas, mais cedo ou mais tarde, batem à porta. 

Porta que, para quem publicou o post e o partilha no Facebook, está obviamente aberta — o mesmo não acontecendo para milhões de cidadãos chineses que gostariam de responder, discordar ou simplesmente questionar.

Constato ainda com alguma perplexidade que textos deste género sejam frequentemente escritos e partilhados por quem se afirma politicamente de esquerda, quando esquerda, para mim, é sinónimo de liberdade de expressão e de opinião — valores que Portugal apenas alcançou plenamente com a Revolução de Abril. Como diria o meu amigo Odorico Paraguaçu, da célebre novela brasileira O Bem-Amado, apoiar regimes fundamentalistas ou ditatoriais, marcados pela centralização extrema do poder, controlo mediático e um nacionalismo económico descrito por alguns como "capitalismo de camaradas", é o mesmo que andar "pratrasmente" em vez de seguir "prafrentemente".
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