Biópsia líquida pode salvar vidas no câncer intestinal

Biópsia líquida detecta precocemente o câncer colorretal e aumenta as chances de cura. Saiba como funciona e quem deve fazer.
Três médicos segurando modelo anatómico do intestino grosso, rodeados por elementos relacionados à biópsia líquida, como frascos de amostras, vírus, comprimidos, sangue e equipamentos médicos.

Novo exame de sangue detecta câncer colorretal antes dos sintomas surgirem


Câncer colorretal que vitimou a cantora figura entre os mais frequentes no Brasil; chance de cura aumenta quando diagnóstico é precoce. Novo exame de sangue disponível no país faz uma biópsia para identificar fragmentos de DNA tumoral ou células tumorais circulantes (CTCs) na corrente sanguínea


São Paulo – 21/07/2025 - A morte de Preta Gil em decorrência de um câncer de intestino chocou o país. A cantora enfrentava a doença há mais de dois anos e só descobriu a doença, um adenocarcinoma, após ser internada com desconforto intestinal. Com exceção dos tumores de pele não melanoma, o câncer colorretal é o terceiro tipo de câncer mais frequente no Brasil. E, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), a previsão é que mais de 45 mil novos casos sejam registrados anualmente no país até 2025. “O câncer colorretal é uma doença maligna do aparelho digestivo que acomete o intestino grosso. Mas, na verdade, o termo ‘câncer colorretal’ refere-se ao agrupamento de dois tipos de neoplasias do intestino grosso: o câncer de cólon e o câncer de reto. Quando esse tumor está localizado em até 10 centímetros da margem anal, dizemos que é um câncer de reto. Já entre 10 a 12 centímetros dessa margem, é a transição sigmoide. E, acima de 12 centímetros, um câncer de cólon”, detalha o Dr. Ramon Andrade de Mello*, Médico oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo), vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia. “A doença é curável, principalmente nos estágios mais precoces. A doença mais localizada tem chances de cura bem maiores, enquanto na doença avançada as chances diminuem”, diz o oncologista. Uma das estratégias para melhorar o rastreio da doença é a biópsia líquida, recém-chegada ao Brasil. Trata-se de um exame minimamente invasivo que, a partir de uma simples coleta de sangue, identifica fragmentos de DNA tumoral ou células tumorais circulantes (CTCs) na corrente sanguínea. “Esse método pode oferecer respostas em situações em que exames de imagem não detectam alterações suspeitas e em casos nos quais a biópsia tradicional representa alto risco para o paciente”, explica o oncologista. “Felizmente, a técnica tem ajudado muito no diagnóstico. Esse exame dá a possibilidade de ter um resultado precoce antes que o tumor seja clinicamente visível. Para o câncer, tempo é vida. Quanto mais tempo você atrasa o tratamento oncológico, mais tempo você perde em questão de sobrevivência”, explica o médico, que tem utilizado amplamente a técnica.

Segundo o especialista, os principais fatores de risco das neoplasias colorretais são obesidade, consumo de alimentos processados e um estilo de vida sedentário. “A idade também é um fator de risco importante, sendo que há uma maior suscetibilidade para o desenvolvimento desse tipo de neoplasia após os 50 anos”, destaca o oncologista, que ressalta a importância da realização anual de exames para o rastreio da doença. “O principal exame que está determinado pelos guidelines é a pesquisa de sangue oculto nas fezes e fazer colonoscopia a cada período, dependendo da idade e da presença ou não de sangue oculto nas fezes. Mais recentemente, a biópsia líquida surge como um exame inovador, não invasivo, que pode ser feito através do sangue e detectar em tempo real se a pessoa tem no sangue o câncer através da pesquisa de células tumorais. Então, antes mesmo de aparecer nos testes tradicionais, testes de sangue oculto nas fezes ou colonoscopia, a biópsia líquida do sangue, ou seja, o exame biópsia líquida, pode detectar o câncer de forma muito mais precoce. E aí, nesse caso, as chances de cura são bem maiores”, diz o Dr. Ramon. “Quando um tumor está em desenvolvimento, fragmentos do material genético ou células se desprendem da lesão primária e entram na corrente sanguínea. O exame é capaz de identificar essas partículas antes mesmo que lesões sejam detectadas por exames de imagem, como tomografia ou mamografia”, comenta o Dr. Ramon. “Além da detecção precoce, essa tecnologia também ajuda a monitorar a evolução da doença, identificar mutações genéticas e orientar ajustes no tratamento, especialmente em terapias-alvo e imunoterapia. Com taxa de eficácia em torno de 92%, a técnica vem sendo considerada uma aliada importante no arsenal diagnóstico e prognóstico contra o câncer”, diz o especialista.

Uma vez diagnosticado, o tratamento dependerá do tipo específico do câncer e do grau de acometimento. “O tratamento do câncer de reto pode envolver radioterapia, quimioterapia e também cirurgia. Normalmente, iniciamos com quimioterapia, cuja resposta é avaliada com exames de imagem, como a ressonância. Em seguida, podemos indicar um protocolo de radioterapia e, posteriormente, a cirurgia. Quando realizada após esse tratamento, a cirurgia tem menor risco de complicações e maiores chances de sucesso”, diz o Dr. Ramon. “Já o câncer de cólon geralmente é tratado logo de início com a cirurgia. E depois, dependendo do resultado anatomopatológico, ou seja, da avaliação da peça da biópsia cirúrgica, o médico avalia a indicação ou não de quimioterapia complementar”, detalha.

Já na doença avançada metastática, tanto o câncer de cólon quanto o de reto têm uma modalidade de tratamento muito semelhante. “Normalmente, o tratamento é por terapia sistêmica antineoplásica, que inclui quimioterapia, terapias-alvo e também a imunoterapia em alguns casos selecionados”, diz o oncologista, que explica que a escolha dependerá se a doença metastática é ressecável ou irressecável. “Ressecável refere-se a uma metástase que pode ser retirada com cirurgia, o que não é possível na doença irressecável. Dependendo do tipo de doença metastática e da maneira que está espalhada, podemos combinar tratamentos. Então é uma doença bem complexa, mas que atualmente já tem diretrizes importantes que permitem o tratamento com bons resultados”, pontua.

O Dr. Ramon Andrade de Mello explica que, na fase inicial, o tratamento do câncer colorretal pode levar algum tempo para ser completado por envolver uma combinação de protocolos, geralmente entre quatro a seis meses. “Já na doença avançada, o tratamento pode levar mais de cinco anos, dependendo de cada paciente”, ressalta o especialista. “Mas podemos dizer que a doença é sim curável, principalmente nos estágios mais precoces. A doença mais localizada tem chances de cura bem maiores, enquanto na doença avançada as chances diminuem”, diz o oncologista. Por fim, o médico acrescenta que, quando se trata do câncer colorretal, uma questão importante na hora da escolha dos tratamentos é a biologia molecular desses tumores. “Por isso, solicitamos testes genéticos que vão nos ajudar a direcionar o melhor tratamento para cada caso. Os testes genéticos de RAS e de BRAF são preconizados pelas diretrizes brasileiras e americanas de cancerologia. Além disso, cada vez mais a biópsia líquida também tem nos ajudado a identificar os melhores resultados para cada paciente”, finaliza o médico.

*DR. RAMON ANDRADE DE MELLO: Médico oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo), vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, Pós-Doutor clínico no Royal Marsden NHS Foundation Trust (Inglaterra), pesquisador honorário da Universidade de Oxford (Inglaterra), pesquisador sênior do CNPQ (Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico), Brasil, vice-líder do programa de Mestrado em Oncologia da Universidade de Buckingham (Inglaterra), Doutor (PhD) em Oncologia Molecular pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (Portugal). Tem MBA em gestão de clínicas, hospitais e indústrias da saúde pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), São Paulo. É pesquisador e professor do Doutorado da Universidade Nove de Julho (UNINOVE), de São Paulo. Membro do Conselho Consultivo da European School of Oncology (ESO). O oncologista tem mais de 122 artigos científicos publicados, é editor de 4 livros de Oncologia, entre eles o Medical Oncology Compendium, Elsevier, de 2024. É membro do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, e do Centro de Diagnóstico da Unimed, em Bauru, SP. Instagram: @dr.ramondemello
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