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quarta-feira, junho 30, 2021

Brasil enlutado: precisamos falar sobre o silêncio perante a morte

O momento que estamos vivendo com a pandemia do coronavírus, com tantos enlutados, impõe uma nova necessidade: olhar para a morte. O que sempre foi um tabu, agora busca caminho para escoar… e transborda!


Por: Claudia Petlik Fischer


O momento que estamos vivendo com a pandemia do coronavírus, com tantos enlutados, impõe uma nova necessidade: olhar para a morte. O que sempre foi um tabu, agora busca caminho para escoar… e transborda! O meu livro – e de outras sete mães, escrito pela querida Marina Miranda Fiuza, A Lua e o Girassol, publicado pela Primavera Editorial – traz à tona este tema, mais especificamente o tão temido luto materno. Coincidência ou não, foi recém-lançado em meio a cerca de 450 mil mortes no Brasil. Se considerarmos 10 enlutados por morte, então, são 4.500.000 enlutados no país. E, se pensarmos que as mortes por outros motivos seguem acontecendo, são muitos mais.


Desafio cada um a pensar na própria história e a tentar encontrar ao menos um luto que não tenha sido validado. De que forma o luto pode ser não validado? O silêncio é uma das respostas. Sabemos que para ajudar a elaboração do luto é preciso o reconhecimento social deste processo. São inúmeros os lutos não reconhecidos socialmente. Sem suporte social, as pessoas são isoladas diante de um silêncio em resposta à sua dor. Resultado do fracasso da empatia.


Por mais desafiadoras que sejam, as perdas tendem a ser elaboradas naturalmente se há apoio na sociedade. No entanto, vivemos em uma sociedade na qual nossas dores muitas vezes são silenciosas e silenciadas e, como consequência, o enlutado sente-se desamparado quando não sente validação de sua dor, como relata Gabriela Casellato, na obra O Resgate da Empatia. Interessante notar o movimento que tem acompanhado a divulgação do livro A Lua e o Girassol. O silêncio ronda até mesmo (que ironia!) os grupos nos quais mais se deveria falar sobre o tema: aqueles com a temática do luto.


Basta um post com a divulgação do livro, alguns minutos ou algumas horas de silêncio e logo alguém chega para mudar de assunto – o que é compreensível se pensarmos que estes mesmos profissionais estão justamente inseridos nessa mesma sociedade que teme falar sobre a morte. Grupos de família, em sua maioria, não são diferentes. É compreensível. O tema é temido, e muitos de nós temos como defesa a esquiva.


O silêncio, no entanto, é uma contribuição para a não legitimação de um assunto tão importante na sociedade hoje – e sempre! E é preciso ser dito que nosso silêncio pode contribuir para a não validação do luto alheio. Felizmente, nem sempre é assim. Reconhecemos que é preciso coragem para ler palavras dolorosas, que nomeiam um grande medo universal. Quem ultrapassa esse medo, seja por curiosidade, seja por necessidade de compaixão ou empatia, já consegue dar o seu depoimento. E temos recebido muito mais do que esperávamos diante de uma sociedade ainda engatinhando para falar de assuntos difíceis. Sinal de que nosso objetivo – contribuir para a validação do luto materno – tem sido alcançado.


SOBRE A AUTORA| Formada em Psicologia pela PUC-SP, Claudia Petlik Fischer cursou Aprimoramento em Luto (Instituto 4 estações) e possui especialização em Neurociências e Comportamento pela PUC-RS; e formação em Eye Movement Desensitization and Reprocessing (EMDR). Claudia é idealizadora da Associação Anna Laura e conselheira da Falcons University (Gerando Falcões). Trabalhou na área de Recursos Humanos e atualmente atua como psicóloga clínica.


 SOBRE O LIVRO | A mulher que perde o marido é viúva; a que perde os pais é órfã. A mulher que perde o filho é algo que não cabe em palavras. Essa experiência – a maior dor do mundo – não é passível de nomeação. Vivenciar o inominável é voltar à condição alheia de criança recém-nascida, incapaz de concretizar qualquer estímulo que não venha das próprias vísceras. O mundo de fora fica mudo; o de dentro, grita a cada toque. Como se sente a mulher diante da morte de um filho? Esse questionamento é, de certa forma, o start para o livro A Lua e o Girassol: um dia mães em luto, outro dia mães em luz”, da autoria de Marina Miranda Fiuza, a partir de depoimentos de sete mães (Carla Scheidt Lund. Claudia Petlik Fischer, Gabriela L. C. S. Oliveira, Maria Cecilia C. Nigro Capuano, Mariana Azeredo Laurini Yoshida, Marilia Rocha Furquim, Marlise de Andrade Corsato) cujos filhos, de diferentes idades, faleceram em circunstâncias diversas. Lançada pela Primavera Editorial, a obra conta com o prefácio do escritor português, Valter Hugo Mãe.


SOBRE A EDITORA | A Primavera Editorial é uma editora que busca apresentar obras inteligentes, instigantes e acalentadoras para a mulher que busca emancipação social e poder sobre suas escolhas. www.primaveraeditorial.com

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