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10/28/2020

Desenvolvimento comunitário local faz diferença na periferia sul de São Paulo

Creche Caminhar com Amor é a Solução II atende a 240 crianças.



Creche Caminhar com Amor é a Solução II atende a 240 crianças.


No distrito de Campo Limpo, na Zona Sul da cidade de São Paulo, uma OSC - Organização da Sociedade Civil está fazendo a diferença na vida de crianças, pais, professores e comunidade em geral. Em uma região com alta vulnerabilidade social, atacar a violência por meio de práticas integrativas na educação foi a alternativa encontrada pela Caminhar com Amor é a Solução, que implementou aulas de yoga, meditação, shantala e comunicação não violenta em uma das unidades de sua creche, no bairro do Parque Santo Antônio. O projeto começou em 2019.


A intenção era reduzir os níveis de violência nas relações familiares, entre professores e alunos e entre professores e pais. Mais de 240 crianças e 36 funcionários sentem as transformações causadas pelas novas práticas. E se em 2019 a comunidade escolar foi beneficiada, em 2020 o projeto tende à expansão.


Visto com bons olhos pelo poder público municipal - que arca com diversos custos da creche, mas não pôde dispensar recursos para as atividades integrativas - o projeto passou a servir de referência para a cidade. Seus líderes foram convidados a apresentar os resultados alcançados para a Prefeitura de São Paulo que, diante dos dados, estuda a possibilidade de transformar a iniciativa em uma política pública.


"Participamos de uma Parada Pedagógica da Prefeitura, em que recebemos grupos de professoras que circulavam pelo CEU Casablanca, das 8h às 17h, falando sobre nosso trabalho na creche. Levamos instrutores de ioga e fizemos slides, mostrando fotos do projeto. As professoras ficaram encantadas com o trabalho e nos pediram para levar as atividades para as escolas delas", conta a presidente da Caminhar com Amor é a Solução, Samanta Bassalo dos Santos. A intenção é continuar desenvolvendo o projeto on-line.


Desenvolvimento comunitário local foi a resposta


A notável evolução de um projeto que era financeiramente inviável em 2018 foi possível graças à adoção de uma metodologia de abordagem de territórios socialmente vulneráveis: o desenvolvimento comunitário local. A técnica é utilizada pela Fundação ABH, que aprovou a iniciativa da ONG Caminhar com Amor é a Solução em dois de seus editais de apoio nos últimos anos. 


De acordo com a metodologia, a comunidade identifica e diz o que precisa para promover mudanças em sua localidade. Os recursos que já estão disponíveis nos locais - dinheiro, habilidades, conhecimento, relacionamentos, pessoas, materiais e tempo - são levantados e conectados para melhor aproveitamento. A partir das parcerias entre os diversos atores, a comunidade passa a protagonizar seu próprio processo de mudança e, com a ajuda de agentes externos - que proporcionam mais investimentos e ferramentas - cria-se um ciclo de fortalecimento conjunto.


"É uma metodologia que tem grande potencial de transformação. Um modelo que dá muito certo e que ainda é pouco explorado no Brasil, mas com muitas chances de sucesso. Quando se escolhe um território específico, começa-se a desenvolver laços e, ao passo em que essas redes se desenvolvem, vai sendo gerada confiança e forma-se ali um círculo virtuoso de gente querendo ajudar a causa. São pessoas que, de alguma maneira, têm um ponto de convergência de ideais e, por isso, estão mais abertas para contribuir e fazer junto. Esse objetivo comum, aliado à confiança, é o modelo ideal", explica a diretora executiva da Fundação ABH, Marina Fay.


Os resultados obtidos pela Caminhar com Amor é a Solução provam que o método do desenvolvimento comunitário local traz, de fato, transformação. Segundo levantamento da OSC, 90% dos pais aprovaram o projeto, por sentirem melhoras nos comportamentos dos filhos. "As crianças ficaram menos agitadas, se alimentavam melhor, souberam trabalhar melhor a raiva, sem bater, sem morder. Mesmo pequenas, as crianças aprenderam a ficar menos tempo com a raiva", relata Samanta Bassalo. 


Entre as educadoras assistidas, 80% relataram melhora na vida pessoal e profissional. "Através da comunicação não violenta, com técnicas de abordagem e de escuta empática, elas ficaram mais tranquilas e souberam lidar melhor com situações em que pais de alunos e alunas chegavam de forma violenta", conta Samanta.


Olhar para as comunidades locais


A Fundação começou a utilizar a metodologia do desenvolvimento comunitário em 2018, mas ainda tinha um foco mais amplo, com a intenção de abarcar vários espaços pelo Brasil. Após visitas a outras iniciativas brasileiras que usavam a técnica e a realização de um curso na City University of New York (CUNY), Marina percebeu que olhar para territórios específicos poderia trazer efeitos mais sensíveis em comunidades locais. 


Este novo olhar permitiu perceber que os problemas das comunidades são interrelacionados, de forma que saúde depende de infraestrutura e educação depende de alimentação, por exemplo. "Compreendemos que se nós focássemos em um local específico, conseguiríamos atacar todas as temáticas de acordo com as necessidades das iniciativas, das organizações locais e da comunidade, e acompanhar a evolução do trabalho ao longo do tempo. Então pensamos: vamos selecionar um território em que possamos atuar, estar junto, desenvolver relacionamentos, redes e acompanhar", argumenta Marina.


Flexibilidade e adaptação


A Fundação trabalha guiando os atores locais no intuito de criar pontes entre as iniciativas nas comunidade e os atores externos capazes de somar recursos para o desenvolvimento das ações. A entidade também lança editais de apoio próprios e/ou em parceria com outras organizações, com regras mais flexíveis, que disponibilizam verbas a serem usadas em custos estruturais das iniciativas, como recursos humanos, aluguel, energia e água, por exemplo. 


"O balanço é muito positivo. De todas as iniciativas da periferia sul de São Paulo que estão trabalhando conosco, só recebemos elogios. Eles nunca viram uma organização que trabalha em parceria, fomenta o trabalho em rede, mostra que há recursos materiais e humanos para transformar a própria realidade e que aquilo que vem de fora é para alavancar o projeto e não o recurso de ignição. É importante estarmos juntos, não só no aporte financeiro. Estamos presentes no dia a dia, trocamos ideias, construímos juntos, nos adaptamos. O mais elogiado é o foco que damos para que as iniciativas expandam suas redes, se fortaleçam e não dependam exclusivamente de recursos externos", explica Marina.

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