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9/25/2020

Artista visual e multimídia Brunner luta para fortalecer o papel da arte na política

Artista visual Brunner tem um trabalho extremamente político com a arte
Brunner-Foto: Bia Ferrer

Autor de projetos provocadores e pesquisador devotado, tem sido constantemente convocado para potencializar o impacto de manifestações sociais por meio de sua arte e, este ano, fundou o Fórum Artelux com o objetivo de reunir artistas em reflexões sobre cidadania, democracia e direitos humanos


Brunner é um artista jovem, contudo, por traz de seu rosto de menino há um currículo e um histórico de pesquisador celebrado internacionalmente. De uma caixa de fósforos a projeções em arranha-céus, é impossível ficar indiferente à sua arte sempre provocadora de reflexões sobre cidadania, democracia e direitos humanos. Este ano, com o intuito de convocar outros artistas a agregar esse propósito em seus trabalhos e redefinir o papel da arte na política, em quaisquer formas da manifestação artística, e buscar propostas coletivas ao debate, fundou o Fórum Artelux.


“Mais do que nunca, a população precisa ser um personagem questionador da sociedade em que está inserida. É indispensável compreender e ter a liberdade para debater a forma como a comunidade é organizada e como convive com a democracia. E a arte é uma das ferramentas mais poderosas para conectar as pessoas e despertar sua reflexão. A arte deve assumir efetivamente o seu papel político com reflexo em nosso cotidiano”, explica Brunner.


Artista visual e multimídia, performer, produtor e agitador cultural, nenhum de seus projetos sai do papel sem uma densa dedicação à pesquisa. Uma característica que o acompanha ainda antes de se dedicar ao mestrado em arte contemporânea na USP – Universidade de São Paulo.


Uma consequência do projeto Artelux


O projeto Artelux de Brunner foi a faísca que acendeu a necessidade de se tomar a atitude da criação do fórum. Um trabalho que nasceu como símbolo de uma insubordinação incendiária ao momento em que vivemos e caminha apropriado do fogo como símbolo de iluminação em diversos desdobramentos. Exatamente por esse propósito poderosamente contestador, o artista foi convocado a revisitar esse trabalho na manifestação popular “Grito dos Excluídos” da Sefras – Associação Franciscana de Solidariedade, no último dia 7 de setembro.


Inspirado na pop art, o projeto nasceu em 2019 sendo apresentado ao público pela primeira vez como parte da exposição “Distopias” da Galeria Apis (Rio de Janeiro/ RJ). Artelux foi criada como uma marca aplicada a caixas de fósforo produzidas em série, expostas e vendidas pelo preço real do produto, exatos R$ 1,49. A partir do momento em que o público retirava a peça de seu lugar de contemplação para levá-las para casa, a arte se transformava em um objeto comum para atender a necessidades simples do cotidiano, assumindo o propósito real de uma caixa de fósforos.


“A arte precisa estar presente no dia-a-dia das pessoas de forma simples, acessível, mas não menos provocadora. Ao mesmo tempo que propõe uma reflexão política sobre o sistema e seu funcionamento, o projeto Artelux é um disparador para insurgências e transformações internamente ao próprio sistema”, destaca o artista de fala afável, mas de mente sempre inquieta.


O predicado de artista provocador não é algo figurativo, e este projeto mostra claramente como Brunner está constantemente desafiando nosso entendimento. Prova disso é a performance “Coquetel Artelux”. Um manifesto incendiário impactante e com forte cunho político que, em meio a uma galeria de arte, cria uma espécie de workshop de produção de coquetéis molotov, convocando o trabalho de voluntários entre os visitantes na construção dos artefatos. “O poder, no fim, está nas mãos do público. O coquetel molotov e, mais uma vez, o fogo é um disparador de reflexões para nossas urgências”, diz.


Experimentando novas linguagens


 O início do segundo semestre deste ano foi marcado pela convocação de Brunner em projetos de inclusão social que o estimularam a experimentar novas linguagens e, mais uma vez, surpreendeu o público. Foi convidado para ser autor e curador do conteúdo artístico do Sefras para a manifestação durante o “Grito dos Excluídos”, no dia 7 de setembro, no Rio de Janeiro. No mesmo mês, em São Paulo, foi curador, roteirista e locutor do projeto “Ouvir para Ver a Cidade: Deriva da Luz Vermelha”, do Instituto Tomie Ohtake.


No Rio de Janeiro, apresentou pela primeira vez um desdobramento de seu projeto Artelux. As pequenas caixas de fósforo ganharam a dimensão gigante da causa defendida pela Sefras em uma grande projeção em um prédio do Largo da Carioca, no centro histórico e abandonado da cidade. O local escolhido para a manifestação é intencional, pois ali, ao lado das paredes urbanas, é onde funciona a Tenda Franciscana que distribui refeições duas vezes ao dia para a população em situação de rua.


Em São Paulo, sua pesquisa sobre a região da Luz foi convocada pela Instituto Tomie Ohtake para o projeto “Ouvir para Ver a Cidade: Deriva da Luz Vermelha”. O objetivo é estímulo a descobertas poéticas partindo de lugares específicos de São Paulo por meio de guias em áudio, exercitando o uso comum de espaços públicos por pessoas interessadas na história da cidade, com ou sem deficiência visual.


Nascimento da democracia


A história de vida de Brunner, que hoje tem 30 anos de idade, teve início junto com a nova democracia brasileira. Ele sempre conta, com orgulho, que sua mãe seguiu para o hospital logo após votar para presidente, em 1989. E, por isso, o tema seja algo tão presente em sua arte.


Outro exemplo claro de seu trabalho provocador aconteceu em 2017, como um dos desdobramentos de seu projeto “Estudo Sobre Bananas”. Brunner flertava com o trabalho de Rodolfo Vani, no cartaz da Bienal de São Paulo de 1989, como referência à redemocratização. Sua colaboração para a sala coletiva de uma exposição na galeria Funarte SP traz uma banana cortada e grampeada ao contrário representando nossa democracia atual.


“O processo de apodrecimento da banana fazia parte da arte, mostrando o que acontecia com a nossa democracia naquele momento. Contudo, conseguir convencer que ela fosse mantida ali, seguindo seu processo natural atraindo larvas e moscas foi um desafio, tive que brigar muito para que ela continuasse exposta e intocada. Este era realmente o resultado que eu buscava”, conta.


Biografia

Brunner graduou-se em Comunicação Social pela Universidade Federal de Uberlândia/Universidade do Porto, em 2014. Um ano antes, iniciou sua atuação artística entre as cidades do Porto (Portugal) e Uberlândia (MG) na qual desenvolveu o projeto WC*. Também em 2014, aprofundou-se no campo da fotografia, com pesquisa no Instituto Multimedia do Porto.

Entre 2014 e 2015, atuou artisticamente no Rio de Janeiro em espaços como a casa de livre criação Catete92. Em 2016 iniciou estudos em arte contemporânea em nível de mestrado na Universidade de São Paulo (USP) e entrou para a companhia de teatro Pessoal do Faroeste, em São Paulo, na qual assumiu a direção de produção e o desenvolvimento artístico de projetos performáticos. Neste período produziu os espetáculos como "Curare" e"Solo Que Luzia" e “O Assassinato do Presidente”, com direção de Paulo Faria, também produziu cineclubes na Boca do Lixo (região histórica do cinema paulistano) e o bloco de carnaval Cordão do Triunfo (2017, 2018 e 2019).

Em 2017 foi artista residente na Funarte SP/ Ministério da Cultura Regional São Paulo, desenvolveu os projetos "As Éguas" e "Estudo Sobre Bananas", com exposição entre outubro e novembro do mesmo ano nas galerias da Funarte São Paulo. No mesmo ano apresentou no festival Satyrianas (São Paulo) as performances "Deriva da Luz Vermelha" e "Estudo Sobre Bananas #4.

Em 2018 circulou o estado de Santa Catarina pelo edital Elisabete Anderle pelo projeto “Jovem Artista Catarinense” com oficinas de financiamento para arte contemporânea e iniciou o projeto Laboratórios de Iniciação Performática nos espaços Funarte São Paulo e teatro Pessoal do Faroeste. Também iniciou neste ano o projeto de videoinstalação/cinema expandido "CineParayso". Em outubro, participou pela segunda vez do festival Satyrianas com os projetos performáticos "Cheburashka", "Corpo Arte Artista Nulo" e "Território Ético", dentro do projeto coletivo "Museu de Imagens", com sua direção.

Em 2019, em Buenos Aires (Argentina) expandiu o projeto performático "As Éguas" para "Las Yeguas" e, em São Paulo, retomou temporada do projeto “Deriva da Luz Vermelha” nos meses de fevereiro e março, com trabalho de pesquisa e curadoria de dados junto ao Memorial da Resistência. Em abril deste ano apresentou a performance "Coquetel Artelux", no espaço Apis no Rio de Janeiro, e participou da exposição "Distopias" no mesmo espaço durante o mês de agosto também com o projeto Artelux.

Em agosto de 2019 integrou a programação da Jornada do Patrimônio com os projetos "Deriva da Luz Vermelha" e "Rolê" e em novembro compôs pela terceira vez a programação do festival Satyrianas com a performance "Chedurashka 2".

Em janeiro de 2020 realizou no espaço Presidenta, em São Paulo, a intervenção/festa “CineParayso” e em abril participou do festival SPUrban com projeções do videoarte "CineParayso" em prédios de São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro.

Brunner - https://www.brunner.press/

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