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1/27/2020

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Preconceito


Lucia Moyses*

Preconceito é ignorância. Ignorância vem de ignorar, que significa não saber, não conhecer. Quando não conhecemos, formamos opiniões e estas opiniões são provenientes de nossa história, de conhecimentos prévios (ou a falta destes), de opiniões alheias e de vários outros fatores. Dona Chica, viúva, mãe de três filhos, era avessa aos nordestinos. Tinha uma ideia pré-concebida de que nordestinos eram vagabundos, preguiçosos, bagunceiros. Então, um dia se encontrou vizinha de uma família de nordestinos. Eles, provenientes do Ceará, compraram a casa ao lado da sua, para desgosto da senhora. 

No começo, dona Chica evitava sair de casa e se preparava para se aborrecer a qualquer momento. Um dia, Jucélia veio à sua porta e lhe ofereceu um bolo de fubá.
— É receita de minha avó – disse Jucélia, bem vestida com uma roupa rendada que lhe valorizava as formas.
Dona Chica não teve como recusar o bolo que, por sinal, estava delicioso. 
Aos poucos, com o passar do tempo, dona Chica foi se aproximando dos vizinhos e descobriu que não só eram trabalhadores sérios, como também pessoas amáveis e solícitas, amigos verdadeiros, amáveis e prontos para ajudar em qualquer situação. Pronto. Acabou o preconceito. Não se fala mal de nordestinos em frente de dona Chica ou ela vira um bicho.

Preconceito? Onde?

Há diversos tipos de preconceitos. Contra raças, contra preferências sexuais, contra religiões, contra tudo. Pessoas brigam no Facebook e desfazem amizades se alguém tiver uma preferência política, religiosa ou sexual contrária à delas. 
Mas o preconceito é uma ignorância. 
O que nos define não é nossa religião. Não é nossa tendência sexual. Não é nosso partido político. Não é nossa cor ou raça. Não é nosso sexo. Aqui, podemos ser brancos, mas nos Estados Unidos somos latinos. Podemos exercer nosso preconceito contra os negros ou asiáticos, mas quando viajamos para outro país, sofremos na pele o preconceito também. 
O preconceito, repito, é uma ignorância.

Achar-se superior ao outro é egocentrismo. Crianças são egocêntricas. Adultos deveriam ter ultrapassado a fase pré-operatória de Piaget e agir como seres inteligentes e lógicos. 

Alguém realmente acha que a cor da pele ou a preferência sexual interfere em nossas funções primordiais, como a cognição, a personalidade, a capacidade de julgamento, a inteligência ou o caráter?
Algumas raças têm predisposição para determinados distúrbios. Isto é fato. Mas somos muito mais do que incapacidades físicas. Somos capazes de tomar decisão, de controlar nossos impulsos, de julgar situações, de resolver problemas, de analisar fatos. Nossa capacidade mental independe de raça, credo ou sexo. 

Crianças malnutridas, brancas, negras ou amarelas, correm o risco de ter algumas funções cognitivas alteradas. A genética, em católicos, protestantes, espíritas ou budistas pode ser igualmente benéfica ou maléfica. No final das contas, quem realmente decide é a sociedade com suas injustiças e seus padrões diferenciados. 

Crianças que tiram notas ruins em provas são vítimas de preconceitos. São burras, dizem. No entanto, podem ser ótimas dançarinas, músicas, artistas, escritoras, enxadristas. No entanto, basta ir mal em uma prova de matemática que ficam estigmatizadas pelo resto da vida como burras.

Nordestinos sofrem preconceitos diários, principalmente na metrópole de São Paulo. Negros são vistos como malfeitores. Asiáticos roubam suas vagas na faculdade. Não importa o quanto estudem ou se esforcem. É a raça. Homossexuais são, até hoje, vítimas de maus tratos e violências. 

Podemos ser diferentes?

Todos nós queremos nos destacar, ser diferentes. Mas podemos, realmente, ser diferentes?
O adolescente precisa pertencer a um grupo. Precisa ser aceito. Então, viramos adultos e nada muda. Queremos ser diferentes, mas abominamos o diferente.

Mulher bêbada é um horror. Homem que chora é afeminado. As mensagens são claras. Não se destaque. Não seja diferente. Siga a boiada. Seja igual a todo mundo. Ninguém quer pagar o preço de se destacar. E há, sim, um preço muito alto a se pagar.
Cecília gosta de beber. Gosta de cantar. Gosta de se divertir. Em uma festa, prefere ficar com os homens falando de futebol do que com as mulheres falando sobre filhos e trabalhos de casa. Cecília é mal vista. Uma mulher não deveria se comportar assim. Mulher não deveria beber. Mulher não deveria se misturar aos homens. Mulher tem que ser mãe e esposa. 

Rafael é delicado e amoroso. Não tem namorada e gosta de se relacionar com mulheres. Rafael foi taxado de homossexual e passou a ser evitado por seus colegas. 

Enrico é um médico cubano. De cara foi tabelado como incompetente e oportunista e sofreu tratamentos horríveis em um país conhecido por ser hospitaleiro.

Se quisermos escapar às críticas, basta ficarmos na sombra e não nos destacarmos em absolutamente nada. Quanto mais você se levanta, maior a chance de se tornar um alvo. Ninguém chuta um cachorro morto.

Lutando contra o preconceito

Qual é o caminho, então, para acabar com o preconceito? Acabar com a ignorância. Conheça. Conheça o seu vizinho. Conheça o seu colega de trabalho. Converse, saia de seu casulo. Conheça, evite a ignorância.Julgar é fácil. Olhar as aparências é fácil. Olhe além. Observe com profundidade. Conheça, conheça, conheça. 

Ninguém é melhor do que ninguém. Os diferentes também são iguais. E os iguais também são diferentes. Não tenha medo. Aprofunde-se. Não se conforte em crenças construídas há muito tempo e que não são suas. Seja melhor. Conheça.Todos nós somos maravilhosamente iguais e diferentes. Aceitemos as diferenças, pois são elas que nos fazem crescer. E, no fundo, somos todos iguais. Carentes de amor, de saúde, de afeto e de aceitação.

Preconceito é ignorância.

Lucia Moyses é psicóloga, neuropsicóloga e escritora (www.luciamoyses.com.br
Natural de São Paulo, Lucia teve sua primeira formação em análise de sistemas pela FATEC (Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo), complementando os seus estudos com curso de pós-graduação na UNICAMP (Universidade de Campinas). Atuou nessa área por mais de 20 anos e foi convidada para ser coautora em uma obra da IBM, em sua sede nos Estados Unidos. Administrou cursos e palestras, inclusive para pessoas com necessidades especiais.
A partir desta experiência, a escritora se interessou pela área de humanas. Foi então que decidiu seguir a carreira de Psicóloga, concluindo o bacharelado na FMU (Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas) e, logo depois, se especializando em Neuropsicologia e Reabilitação Cognitiva pelo (INESP) - Instituto Nacional de Ensino Superior e Pesquisa.
Em 2013, a autora lançou seu primeiro livro “Você Me Conhece?” e dois anos depois o livro “E Viveram Felizes Para Sempre”, ambos com um enfoque em relacionamentos humanos e psicologia.
Três anos após a especialização em Neuropsicologia, Lucia lançou os três primeiros livros: “Por Todo Infinito”, “Só por Cima do Meu Cadáver” e “Uma Dose Fatal”, da coleção DeZequilíbrios. Composta por dez livros independentes entre si, a coleção explora a mente humana e os relacionamentos pessoais. Cada volume conta um drama diferente, envolvendo um distúrbio psiquiátrico, tendo como elo o entrelaçamento da vida da personagem principal.
Agora em 2018, a psicóloga lança mais três livros: “A Mulher do Vestido Azul”, “Não Me Toque” e “Um Copo de Veneno”, totalizando seis livros da coleção.

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