ROBERTOLOGIA EM DESTAQUE

10/29/2019

As cicatrizes de Roberto Carlos


Por: Carlos Marley

As cicatrizes surgem em nossa vida de várias formas. Vamos discorrer essa temática tendo como referência as canções de Roberto Carlos. O nosso enfoque será apenas o sentido figurado da palavra, ou seja, um sentimento duradouro deixado por um grande sofrimento moral, por um abalo psíquico ou uma impressão deixada por uma ofensa, ingratidão, infelicidade etc.

Sabemos que Roberto Carlos ao longo da vida sofreu dores, que viraram feridas e se transformou em cicatriz, que deixaram marcas indeléveis.

A expressão cicatrizes está presente ipsis litteris em algumas canções, enquanto em outras, encontramos subentendidas nos temas explorados.

As cicatrizes mencionadas literalmente nas canções fazem parte dos discos lançados entre os anos de 1977 a 1992. Cada uma das cicatrizes citadas traz uma acepção diferente, conforme demonstramos a seguir:

“Mas é que tenho as cicatrizes que a vida fez” em “Falando Sério” (1977);

“Eu sei que as cicatrizes falam” em “Fera Ferida” (1982);

“Olhando as cicatrizes desse amor” em “Do fundo do meu coração” (1986);

“E até esqueço as cicatrizes do passado” em “Você mexeu com minha vida” (1982);

Foi na canção “As flores do jardim da nossa casa” (1969), que Roberto Carlos expressou todo o seu sofrimento, angústia e desespero: “Eu já não posso mais olhar nosso jardim/ Lá não existem flores tudo morreu pra mim”. Questiona o sentido da vida: “Tristeza e solidão é o que restou”.   Buscou na metáfora outra forma para descrever a sua dor: “E em nós a tempestade desabou”, mas consciente dos desígnios de Deus reflete: “Mas não faz mal depois que a chuva cair/Outro jardim um dia/ Há de reflorir”.

A canção acima foi composta no quarto de um hotel em Amsterdã, enquanto seu primogênito Dudu Braga era submetido a uma intervenção cirúrgica na vista, ocasionada por um glaucoma congênito, diagnosticado pouco tempo depois do seu nascimento. Anos mais tarde em entrevista Roberto Carlos disse: “Foi o maior sentimento de impotência e solidão que senti na vida”.

Tempos depois Roberto Carlos sofreu um novo revés envolvendo Dudu Braga.  Aos 22 anos, o filho do rei sofreu um deslocamento de retina. Em 1992, RC levou o filho para ser operado nos Estados Unidos. Outras operações foram realizadas, como ocorreu em 1969, porém pouca coisa pôde ser feita e Dudu Braga praticamente perdeu sua visão.

Cinquenta anos depois do primeiro acontecimento, Roberto Carlos estava em turnê pelos Estados Unidos, quando recebeu mais uma triste notícia relacionada a Dudu Braga. O fato ocorreu em março deste ano, mas somente agora em outubro foi divulgada. A notícia dada foi que, Dudu Braga foi diagnosticado com câncer no pâncreas; que o tumor estava no estágio inicial; que já tinha sido removido; que já passou por todas as seções de quimioterapia; que estava curado e que terá que fazer os exames de avaliação nos próximos cinco anos. Dessa vez, Dudu Braga foi o suporte para aliviar o sofrimento do pai e os dois juntos devem ter pedido a intercessão de “Nossa Senhora” (1993) dizendo: “ Cura-me as feridas e a dor/ me faz suportar/ que as pedras do meu caminho/meus pés suportem pisar/ mesmo ferido de espinhos/ me ajude a passar”.  Enquanto isso, todos nós ficaremos numa corrente de oração “Com o terço na mão/ peço a vós minha Virgem Maria/ Minha prece levai a Jesus/ Santa mãe que nos guia” como diz em “O terço” (1996), que Ele atenda ao pedido: “Cura Senhor, onde dói/ Cura Senhor, bem aqui/ Cura Senhor, onde eu não posso ir” como cantada em “Cura Senhor” (1999).

Sentindo-se encorajado Roberto Carlos desabafou as confusões da sua mente em duas canções autobiográficas:

“O Divã” (1972), onde ele recorda as experiências vividas no passado e lamenta: “Essas recordações me matam”. Diz ainda que esse sofrimento persiste e traz consequências: “Mas o meu passado vive em tudo que faço agora/ Ele está no meu presente”. Buscando amenizar o sofrimento o seu olhar se fixa nas alturas em busca de ajuda: “De um dia tão distante, pelo menos por instante/ encontrar a paz sonhada”. Após refletir um pouco encontrou a resposta esperada: “Afinal de que me queixo, são problemas superados”;

“Traumas” (1971), onde ele descreve mais algumas experiências pessoais e faz uma reflexão sobre os seus efeitos emocionais e psicológicos: “Durante o dia a gente tenta/Com sorrisos disfarçar/ Alguma coisa que na alma/ Conseguimos sufocar”.

Os amores mal sucedidos é o estopim para muitas dores e sofrimentos. Alguns desses sintomas já foram citados nas canções acima. Entre as muitas outras canções que descrevem as dores desse amor, vou acrescentar mais duas que descreve o quanto é dolorido esse tipo de amor e porque isso acontece. Os títulos das canções já diz tudo: “De tanto amor” (1971) diz: “Me perdi de tanto amor/ ah, eu enlouqueci/ Ninguém podia amar assim e eu amei/ E devo confessar/ aí foi que eu errei”. Já em “Por amor” (1972) fala como fica o estado emocional: “Minha vida se modificou/ Do que eu era nada mais eu sou/ Eu me perdi/ E no submundo onde estou/Sobrevivo sem saber se vou/ Ainda crer no amor”. Caso esse amor tenha uma nova chance afirma: “Mas se não for por amor/ Me deixe aqui no chão”.

Não poderia deixar de comentar a dor pelas perdas de pessoas muito queridas e que deixaram um vazio imenso. Houve momentos que o branco dos cabelos sobressaiu, mas como diz a canção “O velho caminhoneiro” (1973), ao amenizar todas as coisas que machucam: “Mas o tempo cicatriza”. Ainda mais para quem tem Jesus como combustível na sua longa caminhada. Encerro com a palavra Divina proclamadas na canção “Jesus Salvador” (1994): “Quem segue os meus passos não sente a ferida”.

Roberto Carlos - Traumas

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