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10 de abril de 2018

Dupla improvável, Bethânia e Zeca se completam cantando samba

Maria Bethânia e Zeca Pagodinho na estreia do show 'De Santo Amaro a Xerém' em Recife Luiz Fabiano/8.abr.2018 às 5h59
     

Marco Aurélio Canônico
RECIFE
Uma improvável e bonita harmonia resultou do encontro entre a ginga descompromissada de Zeca Pagodinho e a técnica cênica e vocal de Maria Bethânia na estreia do show "De Santo Amaro a Xerém", na noite deste sábado (7), em Recife.
Intérpretes de posturas antagônicas no palco, eles se uniram em torno do samba –em suas diversas vertentes –e acabaram se complementando e se influenciando mutuamente, numa apresentação com tantos sucessos quanto surpresas.
A dupla entrou de mãos dadas, elegantemente vestida, cantando "Amaro Xerém", bom samba inédito de Caetano Veloso, feito para o show. Na sequência, cada um fez metade de "Sonho Meu", clássico de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho que foi a canção que os uniu pela primeira vez, numa gravação em Xerém (RJ), onde o cantor tem seu sítio.
A divisão peculiar do canto de Zeca deu outra bossa a "Você Não Entende Nada", de Caetano, que foi complementada com Bethânia defendendo "Cotidiano" (de Chico) numa versão que pareceu muito acelerada para ela.
Problemas de som (que se repetiriam em outros momentos) e os naturais desencontros de uma estreia ficaram evidentes desde o início, mas não chegaram a prejudicar gravemente o show. 

"Está sendo muito difícil para mim, estou do lado de uma pessoa de quem sou fã há muito tempo, é a rainha, então tem que ficar perfeito", disse Zeca, reconhecendo seu nervosismo. "Eu sou do samba, ela me fez aprender a cantar coisas que eu não estou acostumado a cantar. Mas estou aqui obedecendo a ela, ela manda, é a chefe. É o plebeu e a rainha."
Tendo sido convencido por Bethânia a se aventurar um pouco mais distante de sua praia, o carioca resolveu não arriscar quando ficou sozinho no palco. Seu momento solo foi aberto com o clássico "A Voz do Morro" e só teve sucessos de sua carreira, como "Verdade", "Não Sou Mais Disso", "Vai Vadiar" e "Samba pras Moças". 
"Agora sim está chegando o Zeca Pagodinho. Entrou aqui o Jessé [seu nome de batismo], agora chegou o Zeca", disse ele, em uma de suas muitas interações e brincadeiras com a plateia -- ao contrário de Bethânia. Ele também dedicaria "Saudade Louca" a "meu compadre Arlindo Cruz", um dos autores, que enfrenta uma internação hospitalar há meses.
"Ogum", canção que Zeca já dividiu com Jorge Ben Jor, fez a ponte para a volta de Bethânia, que declamou "Jorge da Capadócia", também de Ben Jor.
Em seu segmento, a baiana mostrou-se bem mais ousada que seu companheiro de palco, recorrendo a canções de seu passado (como "Marginália II", a dobradinha "Pano Legal"/"Café Soçaite" e "Purificar o Subaé") e apresentado uma inédita, "Santo Amaro da Purificação", de Leandro Fregonesi.
Não que ela tenha omitido os sucessos: "Reconvexo", "Negue" e "Ronda" estiveram presentes, além de uma boa versão de "Quixabeira", de Carlinhos Brown. Zeca e Bethânia voltariam a ter seus momentos individuais para apresentar sambas-enredos de suas escolas, Portela e Mangueira, respectivamente.
Na sequência final, quando voltaram a cantar juntos, mostraram as maiores surpresas do repertório, a começar por "E Daí? (Proibição Inútil e Ilegal)", velho samba registrado por Maysa. "Desde que o Samba É Samba" e "Naquela Mesa" mantiveram o tom belo e dramático."
Maria Bethânia me ensinou a ser um outro Zeca. Me fez ensaiar, cantar coisa que eu nunca cantei. Me impôs cantar Silvio Caldas. Eu cantar Silvio Caldas é um abuso. Você me ajuda?", pediu ele, para interpretar "Chão de Estrelas".
Após um repeteco de "Amaro Xerém", canção de grande potencial de sucesso, a dupla se despediu para poder voltar. No bis, fizeram a festa do povão, com "Deixa a Vida me Levar" e "O que É, o que É?".
Foi quando Zeca fez a única menção de tom mais político, numa noite em que parte da plateia fez coro a favor do ex-presidente Lula, antes do show começar: "Gente vamos lutar por um Brasil melhor, mais paz, mais música".
 ROTEIRO DO SHOW "DE SANTO AMARO A XERÉM"
Bethânia e Zeca
"Amaro Xerém"

"Sonho Meu"
"Você Não Entende Nada"
"Cotidiano"
"De Santo Amaro a Xerém"
Zeca
"A Voz do Morro"

"Verdade"
"Maneiras"
"Não Sou Mais Disso"
"Saudade Louca"
"Vai Vadiar"
"Coração em Desalinho"
"Samba pras Moças"
"Ogum"
Bethânia
"Falsa Baiana"

"Marginália II"
"Pano Legal"
"Café Soçaite"
"Ronda"
"Negue"
"Santo Amaro da Purificação"
"Quixabeira"
"Purificar o Subaé"
"Reconvexo"
Homenagem à Portela (Zeca)
"Portela na Avenida"

"Lendas e Mistérios da Amazônia"
"Foi um Rio que Passou em Minha Vida"
Homenagem à Mangueira (Bethânia)
"Jequitibá do Samba"

"Exaltação à Mangueira"
"Caymmi Mostra ao Mundo o que a Bahia e a Mangueira Têm"
"Chico Buarque de Mangueira"
"Atrás da Verde-e-Rosa só Não Vai quem Já Morreu"
"A Menina dos Olhos de Oya"
"A Surdo 1"
Bethânia e Zeca
"E Daí? (Proibição Inútil e Ilegal)"

"Desde que o Samba É Samba"
"Naquela Mesa"
"Chão de Estrelas"
"Amaro Xerém"
BIS 
"Deixa a Vida me Levar"

"O que É, O que É" 







Carmen Augusta

Sobre a autora

Carmen Augusta - Administradora e Redatora do Portal Splish Splash. Redatora do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Leia Mais sobre a autora...

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