Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão Tunga(1952-2016)

 Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão - Tunga

Morre no Rio o artista plástico Tunga

Pernambucano radicado no Rio, ele tinha 64 anos e lutava contra câncer.
Ele foi o primeiro artista contemporâneo a ter obra exposta no Louvre.


Morreu nesta segunda-feira (6), aos 64 anos, o artista plástico Tunga. Nascido Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, ele estava internado no Hospital Samaritano, em Botafogo, na Zona Sul do Rio, desde o dia 12 de maio. Ele lutava contra um câncer.

Nascido em Pernambuco, Tunga escolheu viver no Rio de Janeiro, onde se formou em arquitetura e urbanismo e começou a desenvolver sua carreira artística. Ele era filho do jornalista e poeta Gerardo de Mello Mourão e de Léa de Barros, que foi uma das mulheres que posou para o célebre quadro "As gêmeas" de Guignard.

Tunga nasceu em Pernambuco, mas escolheu o Rio para viver. (Foto: Divulgação/ Tungaoficial.com.br)

Ele começou a carreira nas artes plásticas ainda na década de 70, com desenhos e esculturas. Tunga traçava imagens figurativas com temas ousados, como na série de imagens do “Museu da Masturbação Infantil”, de 1974. Ainda na mesma década, ele começou a fazer instalações de diferentes materiais.


A obra Le bijoux de Mme. Sade (Foto: Divulgação/ tungaoficial.com.br)
A obra Le bijoux de Mme. Sade
(Foto: Divulgação/ tungaoficial.com.br)

A obra Le bijoux de Mme. Sade (Foto: Divulgação/ tungaoficial.com.br)

Na década de 80, ele montou a instalação “Ao”, em que mostra um filme feito no túnel Dois Irmãos. O trecho se repete, como se a câmera andasse em círculos pelo caminho, não encontrando saída e nem entrada dentro daquela estrutura sem comunicação com o ambiente exterior.
 
Neste período, o artista plástico também abordou as ciências naturais em seu trabalho, mas também representava a fuga da normalidade. A obra “Les bijoux de Mme. Sade”, de 1983, é um exemplo disso, onde ele construiu um círculo com a forma de um osso.

Ao longo da década de 90, Tunga explorou as relações entre diferentes metais e figuras que fizeram história em sua obra. É o caso de “Lúcido Nigredo”, de 1999.

Lúcido Nigredo
Considerado um dos maiores nomes da arte contemporânea nacional, ele foi o primeiro a ter uma obra exposta no museu do Louvre em Paris. Tunga também expôs na Bienal de Veneza. Sua obra era carregada de simbolismo, com uso de ossos, crânios, dedais e agulhas.

"Com certeza a obra dele já entrou para a história importante da arte brasileira e internacional. Ele foi extremamente inovador no desenvolvimento de suas estruturas, utilizando sempre pessoas, o corpo, fisicamente numa espécie de alquimia e ciência. E isso acabava se transformando em objetos", avaliou a artista plástica Beatriz Milhazes, em entrevista ao Jornal Nacional. Ele é um dos maiores artistas contemporâneos brasileiros, e é uma perda irreparável. É um artista que tem uma obra que você não pode filiar ou aparentar com uma outra. É uma obra muito própria, muito interessante", disse o curador do MAM-RJ, Fernando Cocciarale.

O Instituto Inhotim, em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, abriga duas galerias dedicadas ao artista plástico – “True Rouge” e “Psicoativa Tunga”. Cerca de 30 obras do artista fazem parte do acervo do museu e estão expostas nas galerias e jardins do Instituto. Os trabalhos foram feitos ao longo de 30 anos da carreira do artista. Em 2012, ele exaltou a liberdade que o local oferece.

Tunga trabalha em imagem de sua página na internet. (Foto: Divulgação/ tungaoficial.com.br)

"Eu sei que aqui tem gente pensando em física, em matemática, em tecnologia, em arte. Ou seja, esse conjunto de pessoas pensando coisas contemporaneamente abre possibilidades".(Tunga)

Segundo a assessoria do Inhotim, a galeria “Psicoativa Tunga” é a maior do Instituto e conta com 2.200 m², ela foi inaugurada em 2012; “True Rouge” está no museu desde 2002, época da inauguração.
 
Personalidades lamentam a morte de Tunga

A morte de Tunga foi lamentada no meio artístico brasileiro e internacional. A curadora britânica Victoria Siddal, diretora da Frieze Fair, escreveu no Twitter: "Estou triste em saber da morte de Tunga, artista brasileiro que tinha apenas 64 anos e ainda realizava grandes trabalhos".

A cantora Paula Toller escreveu no Facebook: "Em homenagem ao Tunga, grande artista que faleceu hoje, o vídeo-performance de 'Derretendo Satélites', colaboração entre mim, Lui Farias e ele, em 1998. Adeus, Tunga!". "Viva Tunga", homenageou o ator, escritor e apresentador brasileiro Michel Melamed.

Beatriz Milhazes, artista plástica: "O Tunga era um artista em si, estava sempre atuando. Sua visualidade, seu corpo, suas brigas, afetos, desafetos, amores, poesia e doçura, educação e rebeldia... Sua obra já é presença importante da História da arte brasileira e internacional mas é estranho pensar que nunca mais verei sua figura performática circulando pelo Mundo... Que descanse em Paz!"

Carlos Vergara, artista plástico: "Estou arrasado, não tenho o que dizer. Era um íntimo amigo meu, um grande amigo. Um dos maiores artistas que o Brasil já teve. Não sei o que dizer, só espero que ele esteja em paz. A única coisa que me alivia é que ele parou de sofrer. Vivemos muita coisa juntos. É algo muito dificil pra mim, muito duro. A gente está perdendo muito cedo uma peça fundamental na mudança da arte brasileira. Na arte contemporânea brasileira, se alguma coisa mudou, passou pelo Tunga".

Waltercio Caldas, artista plástico: "Eu acho que perdi um grande amigo, estive junto dele durante 30 anos ou mais, a perda dessa amigo é muito dificil de aceitar, ele era muito novo, Tvz o Tunga tenha sido o artista mais importante destes ultimos tempos. A obra dele tinha uma das poéticas mais densas que o Brasil já viu como arte. A densidade poetica e a qualidade do trabalho dele são importantes para a formação da arte no Brasil, coisas raras de ver por aqui. O Brasil perde uma grande artista, cuja obra será para sempre referência".

Lia Rodrigues, coreógrafa: "O trabalho 'Para que o céu não caia' (2016) é dedicado ao Tunga. O Tunga me inspirava, me transformava, me ajudava a pensar o meu trabalho. Fazia eu visitar coisas diferentes que eu nunca podia imaginar que eu ia fazer. Além de eu amá-lo muito como amiga.”

Otto, músico: "Tunga um artista maravilhoso / dadivoso. Aberto ao tempo. Uma estrela da arte do mundo. Uma pessoa cativante. Um mestre e um amigo... Estou sem chão. Ainda não caiu a ficha. Ele queria muito mais da vida! Um gênio!"

Alberto Renault, diretor, idealizador do 'Casa Brasileira' e do 'Arte Brasileira', no GNT:"Nos encontramos três vezes: na casa dele, em Oslo e em Paris. Ele foi extremamente criativo na criação do programa, sugeriu gravar no Museu de Arqueologia St. Germain laye, Um arista no sentido completo da palavra, ele era também a obra de arte, potencialmente artista. A vida era uma performance, morar era uma performance. A casa dele era uma obra de arte. Tunga não olhava para a vida, olhava para a arte. Foi um dos primeiros a internacionalizar a arte, alargou as fronteiras".

Leonel Kaz, curador de arte: "Homem de formação cultural erudita, cujo pai traduzia oito línguas, Tunga era um dos raros artistas brasileiros a reunir os destroços do Brasil e traduzir a matéria bruta oriunda de sentimentos políticos de escravidão e de tortura numa força lírica extraordinária. É impressionante que alguém tenha se equipado de tais entranhas da história, do passado e do presente do país e reunido obra com tal potência expressiva, na qual traços amorosos, delicadíssimos, e a brutalidade, estão em balanço estético harmônico".

Luiz Alberto Oliveira, físico e curador do Museu do Amanhã: "Uma dessas pessoas-artistas capazes de ser, literalmente, assombrosas. Não recordo nenhuma conversa com ele da qual não tenha saído ao mesmo tempo perplexo e entusiasmado. E, por todas elas, agradecido".

Eva Doris Rosental, Secretária de Estado de Cultura do Rio de Janeiro: "Tunga fará imensa falta à cultura brasileira, mas deixa um legado inspirador às novas gerações. Conquistou reconhecimento mundial mantendo-se fiel a suas origens, numa obra marcada tanto pela brasilidade como por seu caráter universal. Foi, sem dúvida alguma, um dos maiores artistas do seu tempo".

Jorge Salomão, escritor e poeta: "Tunga, desde a primeira vez, sempre provocou em mim um misto de surpresa, emoção e alegria que só os grandes artistas/inventores são capazes de promover no espírito humano. Foi um provocador de linguagens e demolidor de conceitos artísticos conservadores. Agora essa alegria se converteu em tristeza".

Wilson Cunha, crítico e consultor de cinema: "É impossível dissociar o universo mágico de Inhotim do fantástico impacto que é, praticamente, penetrar na obra de Tunga. Os dois respiram em uníssono. Assim era Tunga".


In Globo


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