“A africanidade sempre apareceu no meu fado”


A cantora Mariza encontra-se em Luanda para dois espectáculos neste fim de semana.

Por Fabiana André.

Em Luanda para a apresentação de dois espectáculos neste fim de semana, a fadista luso-moçambicana Mariza declarou ontem em conferência de imprensa que vem descobrindo gradualmente sua africanidade, mas que a mesma sempre apareceu em sua música.

“A descoberta da minha africanidade veio com os anos. Ao chegar aos 40 anos, procuro encontrá-la. Talvez seja tarde agora, não sei, mas há uma identidade que eu procuro e de certeza, inconscientemente, sempre apareceu no meu fado. Ninguém dançava o fado e eu danço, ninguém usava cores e eu uso, ninguém usava percussões e eu comecei a usá-las. Portanto, de alguma forma, essa africanidade inconscientemente foi aparecendo”, disse.

As inovações renderam à cantora, que nasceu em Moçambique e cresceu em Portugal, o título de precursora do fado contemporâneo, ritmo, segundo Mariza, resultado da mistura de três culturas. “Se estudarmos a história do fado percebemos que se trata de um triângulo entre Portugal, África e Brasil. Esse triângulo faz uma música mestiça. De certeza que tem um pouco do semba, como no Brasil, o samba também tem um pouco de semba. É isso. Um estilo de música é sempre toda influenciada pelos outros”, expôs. Para o futuro, a cantora diz que pretende, inclusive, lançar um disco “que terá muito a ver com África de expressão portuguesa”, declarou sem adiantar mais detalhes sobre a obra.

Mariza, que no início da carreira já fez de vozes de suporte para Eduardo Paim, Paulo Flores, Teta Lágrimas, Bonga, entre outros, revela que o público pode esperar algumas surpresas para os espectáculos que decorrem nos próximos dias 18 e 19, no hotel Epic Sana.

“O concerto está dividido em dois. Vão ouvir o fado que estão habituados na minha voz e outros temas, que se calhar não pensaram que eu os pudesse cantar. Obviamente que terá alguma coisa de canção de Angola, mas não posso contar tudo agora”, adianta. Os concertos incluem jantar, mas os preços são extremamente elevados, o bilhete mais barato custa aproximadamente USD 500 e o mais caro USD 900.

Durante os espectáculos do concerto intitulado “Mariza Irrepetível”, a fadista, que inclui em seu repertório mornas cabo-verdianas e clássicos do Rhythm & Blues, será acompanhada pelos músicos José Manuel Neto, Pedro Joia, Yami e Vicky Marques.

Os shows inserem-se nas comemorações do 37.º aniversário da Empresa Nacional de Seguros de Angola (ENSA).

A primeira apresentação de Mariza em Luanda decorreu em Julho de 2010, no Estádio dos Coqueiros, aquando da visita ao país do presidente português, Cavaco Silva.

A cantora relembrou ainda o início de sua carreira, quando não havia muitas gravadoras interessadas em gravar fadistas. Um dos motivos para seu sucesso, Mariza atribui ao facto de nunca ter olhado para o fado “como uma música que ninguém ia entender”. “Penso que música é música, não tem língua, fronteira, consegue unir pessoas de religiões, culturas e raças diferentes. Vejo como outra música qualquer”, finaliza.

🔎 Quer explorar mais este tema?
Escreva uma palavra relacionada com o assunto e descubra outros artigos.
Enviar um comentário

Comentários