O cearense Tom Cavalcante sobre Chico Anysio: "Chico é único na concepção de tipos.
Em nossa convivência durante anos, pude captar muito do modo de construir um personagem nos seus detalhes. Mas, igual a ele, impossível", elogia
Reunindo seus principais personagens e imitações, o humorista cearense Tom Cavalcante abre a temporada 2015 do espetáculo No tom do Tom, amanhã, em Fortaleza
Marcos Sampaio
marcossampaio@opovo.com.br
O bêbado cheio de histórias João Canabrava, a doméstica de nariz empinado Jarilene e o contador de causos Venâncio serão atrações deste fim de semana em Fortaleza. Encarnados em Tom Cavalcante, eles fazem parte do espetáculo No Tom do Tom, em cartaz nesta sexta, 16, e sábado, 17, no teatro do Shopping RioMar. O show também traz novos personagens do humorista cearense, como sua interpretação de Roberto Carlos, número que conta com arranjos de Eduardo Lages, o maestro do Rei.
Criar tipos engraçados e imitar figuras famosas é algo que já faz parte da vida do fortalezense de 52 anos. Desde o colégio, Antônio José Rodrigues Cavalcante diverte quem está ao seu redor com os personagens que habitam sua cabeça. “Meu primeiro personagem nasceu dos meus exercícios de molecagem nas salas de aulas. Penso ter sido padre Albino, um italiano. Você me faz essa pergunta e, coincidentemente, o coloquei nesse novo espetáculo, em um quadro onde ele celebra um batizado muito louco”, comenta o humorista, por email, adiantando que outros detalhes da peça são segredo.
Mas não é segredo algum que uma das inspirações para a criação desses personagens é Chico Anysio (1931 – 2012). Pai de gente famosa como Bozó, Alberto Roberto e Justo Veríssimo, o humorista de Maranguape foi também um dos padrinhos de Tom na televisão, quando o convidou para o elenco de Chico Anysio Show e, em seguida, para a Escolinha do Professor Raimundo. “Chico é único na concepção de tipos. Em nossa convivência durante anos, pude captar muito do modo de construir um personagem nos seus detalhes. Mas, igual a ele, impossível. Chico tinha algo no registro de suas criações que podem ser comparadas a uma grife de atuação”, elogia.
Trajetória no exterior
Depois de mostrar suas criações na TV, Tom Cavalcante tentou a sorte em Los Angeles, onde morou nos últimos três anos. Nesse tempo, estudou inglês e cinema, além de produzir o curta-metragem Pizza me, mafia. Impressionado com a disciplina de Hollywood, o cearense conseguiu abrir algumas portas e manter projetos no exterior. “O glamour, o sucesso, os resultados são frutos de um trabalho braçal de, no mínimo, 10 horas diárias de dedicação. Claro que eles não sabem que existe, no meu caso, uma rede para tirar um cochilo nas pausas dos estudos com um suquinho de caju”, comemora aliviado.
Agora de volta ao Brasil, Tom Cavalcante se dedica ao teatro e ao programa Shopping Brasil, previsto para estrear no canal pago Multishow ainda este ano. A comédia ambientada na praça de alimentação de um shopping tem como protagonista o segurança Gildo, que, na verdade, é o herdeiro do empreendimento. Para Tom, que dá vida a Gildo, a espontaneidade é fundamental quando se faz comédia na TV. E foi por isso que ele trabalhou com o humorista Tiririca na época do Show do Tom, e agora começa a escrever o roteiro de um novo filme para dividir com o amigo.
Radicado no Sudeste há mais de 20 anos, Tom Cavalcante comemora poder voltar a Fortaleza com seu novo show. É também uma chance para ele conferir como anda o humor na sua cidade natal. Mesmo distante por conta da temporada no exterior, ele acompanhou o sucesso do conterrâneo Falcão na TV, de quem assume ser um grande fã. Sem perder os hábitos cearenses, o humorista também faz o que pode para levar um pouco do Ceará para São Paulo. “A única coisa que tive que abrir mão foi de tomar banho de chuva no meio da rua. Não porque eu queira. É porque não chove mesmo”, brinca.
Multimídia
Veja abaixo entrevista completa com Tom Cavalcante:
O POVO - Como será o show em Fortaleza? Que personagens devem surgir no show?
TOM – Meu sentimento é de muita alegria em poder voltar sempre que posso aos palcos de Fortaleza para estar pertinho do meu público. Preparei um show onde a galera vai poder se divertir e curtir novos tipos (surpresa), textos, performances e musicais. E claro tudo dentro de uma linguagem bem familiar pra quem é da terra.
O POVO - Chico Anysio, que sei que é uma referência para seu trabalho, era conhecido por montar personagens muito sólidos. Cada um tinha uma voz, um figurino, um jeito de se mexer. Você também tem esse nível de organização com cada personagem? De que diferenças você vê no seu modo de criar personagens e o do Chico?
Tom – Chico é único na concepção de tipos. Em nossa convivência durante anos, pude captar muito do modo de como construir um personagem nos seus detalhes, mas igual a ele impossível. Chico tinha algo no registro de suas criações que podem ser comparadas a uma grife de atuação. Um mestre de verdade.
O POVO - Qual foi seu primeiro personagem? Como ele nasceu?
Tom – Meu primeiro personagem nasceu dos meus exercícios de molecagem nas salas de aulas. Penso ter sido padre Albino um italiano. Você me faz essa pergunta e coincidentemente o coloquei nesse novo espetáculo em um quadro onde ele celebra um batizado muito louco.
O POVO - Como foi a experiência no exterior? O que aprendeu nesse período fora?
Tom – A primeira lição, a disciplina no trato com meus textos e performances. Já trazia no sangue esse traço, mas depois que vivenciei o dia a dia com atores americanos nos bastidores de sets de filmagem e na própria feitura do meu filme “Pizza me Máfia” pude perceber a pegada forte de como se preparam, ensaiam e atuam. Fiquei realmente impressionado pelo exemplo. Ou seja, o glamour, o sucesso, os resultados são frutos de um trabalho braçal de no mínimo 10 horas diárias de dedicação. Claro que eles não sabem que existe, no meu caso, uma rede para tirar um cochilo nas pausas dos estudos com um suquinho de caju.
O POVO - Depois de três anos em Los Angeles, você está de volta ao Brasil. Como está sendo esse retorno? É temporário? Continua com projetos fora?
Tom – Mantenho vivo meus projetos por lá, mas agora é hora de dar uma pausa com Los Angeles e se concentrar nos meus shows por todo país e encarar o desafio de tentar fazer o mais hilário dos programas de humor da TV a cabo no Multishow.
O POVO - Você está perto de estrear um novo programa de TV, chamado Shopping Brasil. Como vai ser esse programa? O que ele traz de novo em relação aos seus programas anteriores?
Tom – Um projeto meu que há tempos estava na gaveta desde os tempos de Globo que agora ressurgiu. Trata-se de uma comédia de situação que se passa num shopping. Uma família proprietária do rico estabelecimento e um segredo guardado a sete chaves, o atrapalhado segurança é o herdeiro de tudo isso. Dentro da diversidade que o ambiente shopping oferece para a criação de bons textos nas situações de humor a intenção maior é de eliminar o segurança Gildo interpretado por mim, antes que a casa caia. O cenário está sendo construído aos moldes de uma praça de alimentação. Tudo criado com muito zelo para que o público que for assistir as gravações se sinta fazendo parte da movimentada trama. Ta ficando bem interessante.
O POVO - O humor cearense, onde você se inclui, é feito com muito improviso e feeling. O que precisa ser mudado na hora de levar isso para a TV, que exige marcação de luz, palco, etc.? Como você monta os roteiros de TV para não perder a espontaneidade?
Tom – Para que tudo isso aconteça e o nosso estilo de humor se sobressaia com toda sua espontaneidade vários são os fatores. Em primeiro lugar um diretor que conheça o estilo e potencial de improviso de cada artista e o que eles podem acrescentar dramaturgicamente, em segundo lugar a consciência dos atores no ato de improvisar em saber voltar para as suas marcas sem prejudicar o andamento do texto e em terceiro a generosidade de não querer forçar a barra de aparecer mais do que o parceiro em cena.
O POVO - Você fez uma parceria bacana com o Tiririca no Show do Tom, que teve que ser interrompida com a eleição para deputado federal. De alguma forma, continuaram a montar trabalhos juntos? Pretende voltar a trabalhar com ele na TV? Tom – Nutro pelo Tiririca um carinho enorme a quem apelidei de braço por ter sido um grande amigo na nossa parceria nos tempos de Record. Estou escrevendo roteiro de um filme nas horas vagas onde fazemos uma dupla daquelas que aprontam as fuleiragens mais fuleiras que o cinema Brasileiro já viu. Quando terminar apresento para ele e quem sabe acontece.
O POVO - Você consegue acompanhar o que acontece no humor cearense? Alguém tem chamado sua atenção? Tom – Com a minha saída do Brasil fiquei desatualizado, mas isso não quer dizer que não saiba do sucesso de todos os nossos já consagrados humoristas. Sou muito fã do Falcão e estou sabendo do sucesso do seu programa na TV. Do Tirulipa que levei para a Record e agora está brilhando no Fausto junto com o papudinho.
O POVO - Depois de tantos anos fora do Ceará, que hábitos cearenses você conserva em casa? Tom – Costumo manter meus hábitos com muito orgulho do meu Ceará, alimentação, gírias, a única coisa que tive que abrir mão foi de tomar banho de chuva no meio da rua não porque eu queira é porque não chove mesmo.
Tom – Nutro pelo Tiririca um carinho enorme a quem apelidei de braço por ter sido um grande amigo na nossa parceria nos tempos de Record. Estou escrevendo roteiro de um filme nas horas vagas onde fazemos uma dupla daquelas que aprontam as fuleiragens mais fuleiras que o cinema Brasileiro já viu. Quando terminar apresento para ele e quem sabe acontece.
O POVO - Você consegue acompanhar o que acontece no humor cearense? Alguém tem chamado sua atenção?
Tom – Com a minha saída do Brasil fiquei desatualizado, mas isso não quer dizer que não saiba do sucesso de todos os nossos já consagrados humoristas. Sou muito fã do Falcão e estou sabendo do sucesso do seu programa na TV. Do Tirulipa que levei para a Record e agora está brilhando no Fausto junto com o papudinho.
O POVO - Depois de tantos anos fora do Ceará, que hábitos cearenses você conserva em casa?
Tom – Costumo manter meus hábitos com muito orgulho do meu Ceará, alimentação, gírias, a única coisa que tive que abrir mão foi de tomar banho de chuva no meio da rua não porque eu queira é porque não chove mesmo.
Escriba das coisas da vida e da alma. Admin., Editor e Redator do luso-brasileiro Portal Splish Splash. Máxima favorita: "Andamos sempre a aprender e morremos sem saber". VER PERFIL
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