Outra canção de verão


Depois de algum tempo, certas canções adquirem vida própria. Isso acontece quando elas deixam o território da música e são acolhidas no terreno da paródia. Foi bem o que aconteceu com Esse Cara Sou Eu, que abandonou a voz de Roberto Carlos e a circunstância para a qual foi escrita? uma trilha de novela ? para entrar firme no território do humor. Há de tudo: paródias bem-humoradas, paródias pornográficas, transformações azaradas e até mesmo desinspirações inacreditáveis.

É bem este o ciclo da canção: quando ela surge, é ouvida aos poucos; depois, é ouvida cada vez mais; então, vai adquirindo significações extramusicais num movimento avassalador que termina numa inflexão para o humor. O que era sério revela insuspeitadas brechas para a anedota. Ultrapassado esse derradeiro estágio, resta à canção o que resta a todas as canções: ser devolvida ao silêncio (no caso da música, o esquecimento) ou entrar para o repertório, cantada para sempre.

Há 600 anos, quando alguém queria homenagear uma canção e seu compositor, tomava da canção e acrescentava a ela novos materiais, uma moldura musical para um quadro igualmente musical. Ou seja: se construía uma nova música em torno da música homenageada, conservando-a intacta, mas disfarçando-a sob um novo material. Conceito difícil? Por certo, mais ainda porque estamos imbuídos do conceito de plágio, no qual se apropriar de obra alheia assume ares de crime. No entanto, plágio é um construto jurídico ou uma invenção burguesa. Os renascentistas de 600 anos atrás não sabiam nada disso, e o que hoje chamaríamos de "cópia", eles chamavam de "homenagem".

Assim, quem quiser homenagear uma canção nos dias de hoje terá dois caminhos. Ou as inúmeras e indigentes versões cover dessas que inundam o YouTube, ou a sátira, a ironia e a paródia. A poesia de Vinicius de Moraes, na sua fase mais desbragadamente romântica, foi uma vítima fácil desse processo. Pois não é que aquele trecho do Soneto da Fidelidade ("Eu possa me dizer do amor (que tive): / Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja eterno enquanto dure") já foi alvo umas tantas vezes de inspirações discutíveis, rapsódias humorísticas e interpretações gaiatas? Então, por que não Roberto Carlos ?

O que mais surpreende em Esse Cara Sou Eu é ser uma canção que se transformou logo em objeto transgeracional, transocial, transformando seu refrão/título em dito popular nas bocas mais imprevisíveis. Isso tudo aconteceu ainda no ano passado, como único produto durável de uma telenovela fracassada.

Por um lado, não é uma canção simples: as quatro estrofes dizem coisas diferentes, sem repetições, embora a música seja a mesma, com os movimentos harmônicos reforçando as rimas e uma modulação horrorosa no meio da coisa toda. A roupagem é o que se pode chamar de arquirromântica: uma bateria suave, violinos arrastados que não descansam nunca, uma guitarra rascante que faz mesura a certa modernidade. Nada que indique algo potencialmente transgeracional ou transocial.

Por outro lado, a esperteza da canção "e de muitas canções" está no refrão e na expressão que se tornou símbolo dos meses de verão. Ouçam: além de ser título, a frase "esse cara sou eu" é cantada 12 vezes. Uma vez depois da primeira estrofe e também uma vez depois da segunda estrofe. Depois da terceira estrofe, está o pulo do gato: quatro repetições da mesma frase, e eis a magia. A frase começa a ultrapassar a canção para se imprimir na memória. Ao final da quarta estrofe, já não há limites: "esse cara sou eu" é repetido seis vezes, e a mágica está completa. A frase escapa do seu contexto e se transforma em dito popular, aplicável às circunstâncias mais inusitadas, atravessando idades, geografias, estágios sociais.

Que Roberto Carlos tenha conseguido isso numa canção de 2012, uma de suas raras canções inéditas e ainda mais raro que tenha sido feita sob encomenda da teledramaturgia, este é o verdadeiro fenômeno. O livro No Embalo da Jovem Guarda, de Ricardo Pugialli, localiza o início dos sucessos de Roberto Carlos em 1962, no máximo em 1961, por meio dos índices de então: pedidos nas rádios, reportagens nos fanzines, vendas de discos. Assim, Esse Cara Sou Eu é bem a comemoração de um aniversário e mostra que a canção de três minutos, essa invenção do rádio e do disco, já conseguiu ultrapassar décadas e desmentir a idade dos seus criadores.

É comum pensar que só os compositores eruditos têm direito à longevidade. Não, não mais. Depois de 50 anos de canções e aos 71 anos de idade, continuar produzindo já é um imperativo. O que me surpreende em Roberto Carlos , e surpreende mais uma vez, é o poder de transformar uma frase desprovida de sentido e que vem de uma canção de pouca inovação em coisa que todos dizem e todos usam em diferentes contextos. Mais uma vez, a canção brasileira dá provas da sua centralidade social, para além do que se possa dizer desta ou daquela indigência musical, desta ou daquela desimaginação.

Pensando bem, ao ver-se e confirmar-se como cancionista, Roberto Carlos parece estar falando dele mesmo, o compositor: "esse cara sou eu".



Zero Hora - RS - IMPRESSO - 02/02/2013
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