O Baú do Carlos Alves (69)





Por: Carlos Alberto Alves
jornalistaalves@hotmail.com

Não deixou saudades, mas gostamos de recordá-la

É axiomático que, com praticamente 50 anos de carreira – faltam 14 meses sensivelmente para atingir esse patamar histórico -, passei por todas as fases do jornalismo, inclusivamente no que concerne ao aspecto técnico. De resto, também importante ter acompanhado as mutações em termos de comunicação. Das notícias que se ouviam pela rádio e se gravava para depois serem redigidas, das chamadas telefónicas via operadora, seguindo-se as diretas (finalmente), o telefax, fax e por último a internet que, verdade seja dita, originou uma mudança que diria de 360 graus, permitindo celeridade em tudo, nomeadamente o fecho das edições dos jornais. E no que respeita ao envio de trabalhos, serve-me aqui de paradigma as grandes reportagens que fiz no estrangeiro, nomeadamente nos Estados Unidos, Canadá e Alemanha.

Voltando ao princípio, e no que toca à feitura dos jornais antes do surgimento da evolução tecnológica, e embora não tenha deixado saudades, gosto de recordar (agora, antes talvez não) as peripécias advindas das linotypes, um grande quebra-cabeças para os jornalistas (sobretudo estes), não pela configuração da máquina em si (óbvio), mas fundamentalmente em relação aos profissionais que as utilizavam, os denominados linotipistas. Como em todas as profissões existiam os muito bons (ótimo, ótimo, não me lembro de nenhum), os bons, os suficientes e os mauzinhos de todo. Era destes últimos que eu tinha mais receio, porque nem um revisor muito eficiente resistiria ao não deixar passar gralhas, o que mais me afligia, concretamente no jornal da segunda-feira. Saudades do cheiro do chumbo, do lufa-lufa na tipografia, do corre-corre para as emendas, o que até acontecia no mesmo texto por mais de duas vezes. E aqui não deixarei de passar a público o quanto me aborrecia com um desses maus linotipistas. Era terrível à segunda-feira. E até se dizia por brincadeira que, nesse dia da semana, a linotype destinada ao dito cujo (paz à sua alma no “outro lado da vida”) funcionava a “tintola”. Subentende-se desde logo que, no final de semana, o homenzinho não se descuidava nada com umas garrafinhas de tinto à sua frente. O mais caricato de tudo isto, e só para contar esta situação (de um ror que ainda registo na minha memória), todas as vezes que eu escrevia célere o homenzinho mudava para célebre. Sempre no seu pensamento que eu estava errado, até que um dia tive que explicar o significado das duas palavras, mormente o célere que tanto o “atormentava”. Coisas do jornalismo do passado, das histórias das linotypes, uma delas funcionando a “tintola” às segundas-feiras. Mas, curiosamente, a cor do “tintola” não saia no chumbo fundido. Era obra (rssss).
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