Aos sábados, com o meu livro (11)







Por: Carlos Alberto Alves
jornalistaalves@hotmail.com

CAPÍTULO XI

OUTRAS ESTÓRIAS

Claro que, num percurso de quarenta anos, há sempre muitas estórias para contar, designadamente aquelas que aconteceram nas viagens ao estrangeiro e, também, acompanhando clubes em deslocações internas, incluindo a ilha da Madeira, onde lá estive por diversas vezes. Só não tive a oportunidade de, na quadra do Rei Momo, ver o Dr. Alberto João Jardim, presidente do governo, desfilar pela avenida principal da cidade do Funchal. Mas, por outro lado, numa dessas viagens, rumei, num domingo soalheiro, até Porto Moniz para assistir a um discurso do dito cujo presidente, então sob a bandeira do Partido Social Democrata. Como sempre, sem papas na língua, Jardim teceu duras críticas ao governo central, creio que liderado pelo professor Aníbal Cavaco Silva, agora presidente do governo português, eleito em 2006. Alberto João Jardim, que sempre admirei pela sua factualidade, faz tudo para defender a sua ilha, mesmo que tenha que ser duro com os governantes do seu próprio partido. Cavaco Silva é um deles. Mas claro que Jardim endurece as críticas quando se trata da oposição socialista. Jardim diz que só sairá do governo madeirense quando quiser. Acreditamos que sim. Ele é uma figura venerada pela maioria dos madeirenses. É adepto do Clube Sport Marítimo, mas não deixa de apoiar, por exemplo, o Nacional e o União. Chamam-lhe de polémico, o que não deixa de ser verdade, mas um polémico que não tem medo de ninguém, que ataca pontos nevrálgicos do poder central.

Uma insolação na Madeira

No ano de 1983, fui à ilha da Madeira fazer cobertura dos Jogos Juvenis Insulares – um intercâmbio anual entre madeirenses e açorianos. Mais tarde estes jogos foram abolidos para dar lugar aos Jogos do Atlântico, com a inclusão das ilhas Canárias -, acompanhado por outros colegas de vários OCS, entre os quais Sidónio Bettencourt com quem mantive sempre as melhores relações. Inclusive, Sidónio Bettencourt  compartilhou o quarto comigo, uma vez que  a organização optou por quartos duplos para os jornalistas, medida que foi bem aceite por todos nós.

Num dos dias em que não havia movimentação desportiva, decidimos ir para o Lido Sol, belíssimo complexo de piscinas. Saímos cedo, por volta das nove horas da manhã. Comecei, desde logo, a deitar o olho numa linda sueca que por lá se “exibia”. Fui ficando, ficando, até às 17 horas, em pleno mês de Julho, com sol bastante quente. Não usei protector e, quando cheguei ao hotel, é que, realmente, me apercebi que estava vermelho nem um tomate, por “culpa”daquela sueca, tão bonita e atraente que era.

Durante a noite, a febre subiu e, sem exagero, de meia em meia hora, lá ia para o chuveiro apanhar água fria. O problema é que o Sidónio Bettencourt mal dormiu, ele que foi ao Lido Sol mas que não entrou naquela de ficar para ver o lindo corpo daquela e de outras suecas que por lá andavam. 

Quando regressei, em miserável estado, acabei por ficar em casa duas semanas com as pernas estendidas na cama, naturalmente por indicação do meu médico assistente. Apanhei uma forte insolação que, bem vistas as coisas, me serviu de emenda, isto porque, em anos posteriores, voltei à Madeira e passei pelo Lido Sol muito pouco tempo, precavendo-me com protector solar, não fosse, de novo, o diabo tecê-las. O diabo e mais algumas suecas, sempre presentes no referido complexo de piscinas, um dos melhores da ilha da Madeira, muito procurada pelos nórdicos.

Esta viagem foi terrível. Para lá, levei uma infecção dentária, com a cara inchada. No regresso, uma insolação de todos os tamanhos, muito pior que a infecção dentária.
  
Insiste, insiste, com o General Altino de Magalhães

Em 1976, dois anos após a Revolução dos Cravos que derrubou o regime salazarista, Portugal era governado por uma Junta de Salvação Nacional, composta basicamente por militares, eles que foram os verdadeiros mentores (e obreiros) dessa mesma revolução, o já famigerado 25 de Abril de 1974, que marcou a mudança em Portugal com a implantação de um estado democrático, até então impensável, para mais que Marcelo Caetano (que sucedeu a  Salazar logo após a sua morte) manteve a mesma linha de ditadura. A PIDE (polícia do governo, muito temida) continuou e Américo Tomáz, Presidente da República, estava ao lado de Marcelo, subscrevendo quase sempre as suas decisões. Quer isto dizer que morreu Salazar,  mas o medo se mantinha e, até ali, ninguém podia usar contestar, fazer manifestações, etc., etc. E, para nós jornalistas, também a CENSURA estava activa com os seus lápis vermelhos. Todos os jornais passavam, antes da sua saída, pelos respectivos sectores da CENSURA.

Para os Açores, na qualidade de presidente da Junta de Salvação Nacional para o arquipélago, seguiu o General Altino Pinto de Magalhães, um homem que, aplicando uma filosofia equilibrada, acabou por granjear enorme simpatia junto do povo açoriano. E foi graças ao General Altino Pinto de Magalhães que um Sporting-Benfica (os dois maiores clubes portugueses e eternos rivais) passou do sonho a uma consoladora realidade, marcando a inauguração do Estádio de Ponta Delgada (hoje baptizado por Estádio de São Miguel) no dia 21 de Abril de 1976. Nesse sentido, muito se empenhou o General Altino Pinto de Magalhães, junto de João dos Anjos Rocha, presidente do Sporting, e do Dr. Borges Coutinho (por sinal, com raízes de São Miguel. Era de lá a sua família), presidente do Sport Lisboa e Benfica.

Durante as “démarches”, muitas vezes liguei para Altino de Magalhães porque pretendia, como é óbvio, dar a notícia em primeira-mão. De facto, foi “A Bola” que deu luz a este inolvidável acontecimento. Para lá chegar, foi um constante insiste-insiste com o General Altino Pinto de Magalhães que, manda a verdade dizer, sempre foi de uma extrema correcção, compreendendo a missão do jornalista e, fundamentalmente, por se tratar do jornal “A Bola”, o de maior expansão em Portugal, muito lido pelas  comunidades lusas espalhadas pelos quatro cantos do mundo, maior incidência nos Estados Unidos da América do Norte e Canadá.

E o que aconteceu após o jogo?

Fui o primeiro a seguir para Ponta Delgada no sentido de enviar as primeiras notícias, do ambiente que se vivia e dos preparativos para a grande festa. Depois, conjuntamente com as duas comitivas, veio o meu companheiro Aurélio Márcio para fazer a crónica enquanto eu estava incumbido das reportagens junto dos intervenientes do prélio, ainda hoje muito recordado. O Sporting venceu por 4-3 e foi Manuel Fernandes, do Sporting, o primeiro a fazer balançar  as redes do estádio então inaugurado nesse dia 21 de Abril de 1976. Júlio Cernadas Pereira (vulgo Juca) era treinador do Sporting e Mário Wilson, o “velho capitão”, técnico do Benfica.

Um dia fiquei com o Sporting e Aurélio Márcio com o Benfica. Aliás os nossos clubes, nunca negamos essas respectivas inclinações clubísticas. Mas, no dia do jogo, fomos no autocarro do Sporting. Até ao estádio, tudo normal, mas no regresso, face a um enorme engarrafamento, as coisas complicaram-se para nós, com o tempo a passar e sem nada termos ainda escrito. Levamos uma hora para chegar ao Hotel de São Pedro. Foi um autêntico lufa-lufa no quarto onde ficou o Aurélio Márcio. Ele a debitar a crónica para Lisboa, via telefone, e eu metido no quarto-de-banho (os brasileiros dizem...banheiro) a tirar as notas do gravador e, simultaneamente, redigindo para, de seguida, passar eu para o telefone. Recebia o trabalho, na gravação, o Carlos Sequeira, madeirense, advogado, mas que sempre gostou de fazer jornalismo. Quando terminamos, a missão estava cumprida. Depois, um banho retemperador para estarmos presente no jantar de confraternização promovido pela Comissão de Honra, presidida pelo próprio General Altino Pinto de Magalhães. Eu, o Aurélio e o árbitro do jogo, António José da Silva Garrido, lá fomos para o Solar da Graça  bem dispostos. Afinal, todos cumpriram as suas missões. Uma jornada que os micaelenses, e açorianos em particular, viveram com esfuziante alegria. Sempre sonharam com um Sporting-Benfica no arquipélago.  

Continua com o Capítulo XI

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