Claro que, num percurso de quarenta anos, há sempre muitas
estórias para contar, designadamente aquelas que aconteceram nas viagens ao
estrangeiro e, também, acompanhando clubes em deslocações internas, incluindo a
ilha da Madeira, onde lá estive por diversas vezes. Só não tive a oportunidade
de, na quadra do Rei Momo, ver o Dr. Alberto João Jardim, presidente do
governo, desfilar pela avenida principal da cidade do Funchal. Mas, por outro
lado, numa dessas viagens, rumei, num domingo soalheiro, até Porto Moniz para
assistir a um discurso do dito cujo presidente, então sob a bandeira do Partido
Social Democrata. Como sempre, sem papas na língua, Jardim teceu duras críticas
ao governo central, creio que liderado pelo professor Aníbal Cavaco Silva,
agora presidente do governo português, eleito em 2006. Alberto João Jardim, que
sempre admirei pela sua factualidade, faz tudo para defender a sua ilha, mesmo
que tenha que ser duro com os governantes do seu próprio partido. Cavaco Silva
é um deles. Mas claro que Jardim endurece as críticas quando se trata da
oposição socialista. Jardim diz que só sairá do governo madeirense quando
quiser. Acreditamos que sim. Ele é uma figura venerada pela maioria dos
madeirenses. É adepto do Clube Sport Marítimo, mas não deixa de apoiar, por
exemplo, o Nacional e o União. Chamam-lhe de polémico, o que não deixa de ser
verdade, mas um polémico que não tem medo de ninguém, que ataca pontos
nevrálgicos do poder central.
Uma insolação na Madeira
No ano de 1983, fui à ilha da Madeira fazer cobertura dos
Jogos Juvenis Insulares – um intercâmbio anual entre madeirenses e açorianos.
Mais tarde estes jogos foram abolidos para dar lugar aos Jogos do Atlântico,
com a inclusão das ilhas Canárias -, acompanhado por outros colegas de vários
OCS, entre os quais Sidónio Bettencourt com quem mantive sempre as melhores
relações. Inclusive, Sidónio Bettencourt compartilhou o quarto comigo,
uma vez que a organização optou por quartos duplos para os jornalistas,
medida que foi bem aceite por todos nós.
Num dos dias em que não havia movimentação desportiva,
decidimos ir para o Lido Sol, belíssimo complexo de piscinas. Saímos cedo, por
volta das nove horas da manhã. Comecei, desde logo, a deitar o olho numa linda
sueca que por lá se “exibia”. Fui ficando, ficando, até às 17 horas, em pleno
mês de Julho, com sol bastante quente. Não usei protector e, quando cheguei ao
hotel, é que, realmente, me apercebi que estava vermelho nem um tomate, por
“culpa”daquela sueca, tão bonita e atraente que era.
Durante a noite, a febre subiu e, sem exagero, de meia em
meia hora, lá ia para o chuveiro apanhar água fria. O problema é que o Sidónio
Bettencourt mal dormiu, ele que foi ao Lido Sol mas que não entrou naquela de
ficar para ver o lindo corpo daquela e de outras suecas que por lá
andavam.
Quando regressei, em miserável estado, acabei por ficar em
casa duas semanas com as pernas estendidas na cama, naturalmente por indicação
do meu médico assistente. Apanhei uma forte insolação que, bem vistas as
coisas, me serviu de emenda, isto porque, em anos posteriores, voltei à Madeira
e passei pelo Lido Sol muito pouco tempo, precavendo-me com protector solar,
não fosse, de novo, o diabo tecê-las. O diabo e mais algumas suecas, sempre
presentes no referido complexo de piscinas, um dos melhores da ilha da Madeira,
muito procurada pelos nórdicos.
Esta viagem foi terrível. Para lá, levei uma infecção dentária,
com a cara inchada. No regresso, uma insolação de todos os tamanhos, muito pior
que a infecção dentária.
Insiste, insiste, com o General Altino de Magalhães
Em 1976, dois anos após a Revolução dos Cravos que derrubou
o regime salazarista, Portugal era governado por uma Junta de Salvação
Nacional, composta basicamente por militares, eles que foram os verdadeiros
mentores (e obreiros) dessa mesma revolução, o já famigerado 25 de Abril de
1974, que marcou a mudança em Portugal com a implantação de um estado
democrático, até então impensável, para mais que Marcelo Caetano (que sucedeu
a Salazar logo após a sua morte) manteve a mesma linha de ditadura. A
PIDE (polícia do governo, muito temida) continuou e Américo Tomáz, Presidente
da República, estava ao lado de Marcelo, subscrevendo quase sempre as suas
decisões. Quer isto dizer que morreu Salazar, mas o medo se mantinha e,
até ali, ninguém podia usar contestar, fazer manifestações, etc., etc. E, para
nós jornalistas, também a CENSURA estava activa com os seus lápis vermelhos.
Todos os jornais passavam, antes da sua saída, pelos respectivos sectores da
CENSURA.
Para os Açores, na qualidade de presidente da Junta de
Salvação Nacional para o arquipélago, seguiu o General Altino Pinto de
Magalhães, um homem que, aplicando uma filosofia equilibrada, acabou por
granjear enorme simpatia junto do povo açoriano. E foi graças ao General Altino
Pinto de Magalhães que um Sporting-Benfica (os dois maiores clubes portugueses
e eternos rivais) passou do sonho a uma consoladora realidade, marcando a
inauguração do Estádio de Ponta Delgada (hoje baptizado por Estádio de São
Miguel) no dia 21 de Abril de 1976. Nesse sentido, muito se empenhou o General
Altino Pinto de Magalhães, junto de João dos Anjos Rocha, presidente do
Sporting, e do Dr. Borges Coutinho (por sinal, com raízes de São Miguel. Era de
lá a sua família), presidente do Sport Lisboa e Benfica.
Durante as “démarches”, muitas vezes liguei para Altino de
Magalhães porque pretendia, como é óbvio, dar a notícia em primeira-mão. De
facto, foi “A Bola” que deu luz a este inolvidável acontecimento. Para lá
chegar, foi um constante insiste-insiste com o General Altino Pinto de
Magalhães que, manda a verdade dizer, sempre foi de uma extrema correcção,
compreendendo a missão do jornalista e, fundamentalmente, por se tratar do
jornal “A Bola”, o de maior expansão em Portugal, muito lido pelas
comunidades lusas espalhadas pelos quatro cantos do mundo, maior
incidência nos Estados Unidos da América do Norte e Canadá.
E o que aconteceu após o jogo?
Fui o primeiro a seguir para Ponta Delgada no sentido de
enviar as primeiras notícias, do ambiente que se vivia e dos preparativos para
a grande festa. Depois, conjuntamente com as duas comitivas, veio o meu
companheiro Aurélio Márcio para fazer a crónica enquanto eu estava incumbido
das reportagens junto dos intervenientes do prélio, ainda hoje muito recordado.
O Sporting venceu por 4-3 e foi Manuel Fernandes, do Sporting, o primeiro a
fazer balançar as redes do estádio então inaugurado nesse dia 21 de Abril
de 1976. Júlio Cernadas Pereira (vulgo Juca) era treinador do Sporting e Mário
Wilson, o “velho capitão”, técnico do Benfica.
Um dia fiquei com o Sporting e Aurélio Márcio com o Benfica.
Aliás os nossos clubes, nunca negamos essas respectivas inclinações
clubísticas. Mas, no dia do jogo, fomos no autocarro do Sporting. Até ao
estádio, tudo normal, mas no regresso, face a um enorme engarrafamento, as
coisas complicaram-se para nós, com o tempo a passar e sem nada termos ainda
escrito. Levamos uma hora para chegar ao Hotel de São Pedro. Foi um autêntico
lufa-lufa no quarto onde ficou o Aurélio Márcio. Ele a debitar a crónica para
Lisboa, via telefone, e eu metido no quarto-de-banho (os brasileiros
dizem...banheiro) a tirar as notas do gravador e, simultaneamente, redigindo
para, de seguida, passar eu para o telefone. Recebia o trabalho, na gravação, o
Carlos Sequeira, madeirense, advogado, mas que sempre gostou de fazer
jornalismo. Quando terminamos, a missão estava cumprida. Depois, um banho
retemperador para estarmos presente no jantar de confraternização promovido
pela Comissão de Honra, presidida pelo próprio General Altino Pinto de
Magalhães. Eu, o Aurélio e o árbitro do jogo, António José da Silva Garrido, lá
fomos para o Solar da Graça bem dispostos. Afinal, todos cumpriram as
suas missões. Uma jornada que os micaelenses, e açorianos em particular,
viveram com esfuziante alegria. Sempre sonharam com um Sporting-Benfica no arquipélago.
Continua com o Capítulo XI
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