Prédios que matam



Foi uma cena chocante. Dois senhores negros, vestidos com calça e jaleco de um azul forte, iam e vinham vagarosamente na ampla calçada do largo de onde se erguiam duas altas torres envidraçadas, no extremo sul da ilha de Manhattan. Iam e vinham, cada um em uma direção, e passavam um pelo outro a certa altura. Iam e vinham, levando na mão esquerda, pelo cabo, uma pequena pá dobrável, e na mão direita, também segurada pelo cabo, uma vassoura de cerdas de plástico amarelas, e com esses objetos recolhiam metodicamente, friamente, pequenos pássaros que tinham acabado de morrer ao se chocar com a enganadora parede de vidro dos dois altos edifícios. Um ou outro pássaro maior parecia agonizar, ou eram suas penas movendo-se ao vento que davam essa impressão.
Vi depois cenas parecidas, com recolhedores de pequenos cadáveres emplumados, em Toronto, Dallas e Los Angeles. A aparência mecânica do trabalho e a habituada indiferença aproximavam aquelas cenas que os quilômetros separavam.

Eu calculava que algo semelhante poderia acontecer aqui, mas não procurei saber. Julgava, ignorante, que esse era um evento do frio Hemisfério Norte, de onde migram milhões de aves ao começar o inverno, a fim de procriar e se alimentar em climas mais amenos. Essa movimentação migratória, conjugada com a arquitetura que se começou a praticar lá há algumas dezenas de anos, prepara o cenário da morte. Superfícies lisas de vidro se erguem a 100, 150 metros de altura, espelhando o azul e nuvens e plantas, enganando os pássaros, levando-os a se chocar contra um sólido céu de mentira.
Ignorante continuei, até que dois leitores mencionaram na quinzena passada dois de nossos prédios matadores; dois leitores em meio a tantos outros que comentavam uma crônica aqui publicada sobre a volta dos pássaros à cidade.
E concluo: não é de agora. Nossa arquitetura dos primeiros oitenta anos do século passado sempre usou alvenaria nas fachadas, enfeitadas por janelinhas, sacadinhas e balcões, com acabamento em pedras, metais, tintas e madeiras. Era inofensiva para os pássaros, oferecia-lhes até abrigo. Depois vieram os espigões de vidro, belos, espetaculares, verdadeiras esculturas impondo-se no espaço, fruto da riqueza das empresas e da pressa das construtoras.Belos e mortais.
Ivan Angelo,18 de abril de 2012
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