ROBERTOLOGIA EM DESTAQUE

22 de fevereiro de 2011

Natália Correia - Os filhos de Anaita




Por: Armindo Guimarães
Portal Splish Splash


A propósito do artigo intitulado “Poetas que merecem ser recordados” do meu amigo jornalista Carlos Alberto Alves, que em jeito de homenagem faz uma sinopse da obra da poetisa Natália Correia, designadamente nas suas várias vertentes, se na poesia Natália Correia era como peixe na água e, como tal, por isso mais conhecida e lembrada, várias são as contribuições que deixou no que ao romance se refere e, neste particular, à ficção cientifica, ramo literário que também abraçou, faceta quiçá esquecida ou apenas conhecida de uns quantos amantes da escrita cientifica na sua componente verdadeira ou imaginada sobre a sociedade ou os indivíduos.

Ora, também na ficção científica Natália Correia nada fica a dever aos meus preferidos Ray Bradbury, John Christopher, Robert Heinlein, Philip K. Dick, Ursula K. Le Guin, Robert Silverberg, Clifford D. Simak e tantos outros. É o que se pode constatar em “Os filhos de Anaita”, onde Natália Correia brilhantemente conta a história de Karec que usava a poesia como arma de defesa, a poesia como um valor que diferencia a humanidade das outras formas de vida. A poesia que tantas vezes diferencia Natália Correia daqueles que num mar de insónias trocam o sonho  pelo pesadelo de se agarrarem  freneticamente às coisas bem definidas feitas à medida do sagrado padronizado.

Como admirador de Natália Correia, não posso resistir à tentação de, com a devida vénia, transcrever uma parte de tão admirável conto de ficção científica escrito por uma não menos admirável mulher.

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Os filhos de Anaita

Natália Correia

A última vez que isto aconteceu caiu uma chuva de lama vermelha. Foi no verão passado Karec andava pelas ruas passeando o seu ar de quem não acredita nos hospitais e nas prisões, aquela ofensiva ingenuidade que oferece o perto à bala na convicção de que a pistola vai disparar uma flor. É um distraído, dizem. Eu sou de outra opinião. Creio que a distracção de Karec é uma seríssima ocupação em qualquer coisa muito importante, algo de essencial e profundamente simples que os outros se proíbem de pensar por terem medo da simplicidade. Como se... por exemplo: como se Karec estivesse a assinar num mundo invisível e paralelo o tratado de paz de uma guerra permanente e estúpida que é o truque de que os homens se servem neste nosso mundo para iludirem a sua cobardia perante a assustadora grandeza de serem meramente homens. É por isso que a realidade, ou melhor, isso a que eles chamam a realidade começou a paramentar-se de sacerdote para converter, com a sua voz melíflua, o desertor Karec. Mas Karec respondia-lhe com a inextricável lógica do seu universo paralelo. Não houve entendimento possível. E agora a realidade colérica e legal mostra a Karec os caninos num sorriso policial onde brinca o diabinho lúbrico da condenação. Nenhum de nós (os poucos que acreditam na inocência de Karec) duvida do teor da sentença que vai ser hoje pronunciada. Estou a vê-lo com o seu ar de insultuosa inocência na frente dos juízes hepáticos, a irritá-los com aquela espécie de código de que o futuro tem a chave que é a sua maneira de falar.
Fio nesta altura que a voz da porteira cortou com o seu maquinal “bom dia sr. Lukner” o fio de considerações que eu tecia a propósito do meu amigo Karec a cujo julgamento ia assistir com a náusea de uma cumplicidade impotente. Ia contrariado mas prometera ao Arquipoeta levar-lhe notícias do julgamento cujo desfecho ele aguardava na sua cadeira de inválido com todo o sofrimento imaginável de um espírito que dera à luz o jovem Kardec treinando-o para uma verdade que ele estava a pagar com o martírio.
     Bom dia, senhora Pasotti!
Mas não era a senhora Pasotti que ocupava o seu posto habitual, rodeada pelo enxame ranhoso das suas crias. O que eu via era daquela ordem de coisas que nos entram pelos olhos como uma pedrada e nos deixam o raciocínio em cacos. No banco onde a porteira costuma derramar as carnes de procriadora neolítica, sentava-se, com displicência social, um enorme crocodilo que, para tornar mais aberrativa a sua absurda intromissão no meu campo visual, fazia tricot por entre a gritaria de pequenos lagartos que ziguezagueavam no vestíbulo.
    Dum pulo, alcancei a rua, procurando toda a espécie de razões que pudessem explicar a repulsiva visão, deixando intacta a minha sanidade mental.
    É este maldito tempo – pensei. - Essa luz vermelha e sufocante que prenuncia uma tempestade, uma chuva de lama como no Verão passado.
    Todas as coisas estão tocadas por esse facho congestivo, uma hemorragia vomitada pelas nuvens que, inflamadas e estáticas, avermelham o céu da cidade. Vejam as árvores, por exemplo, carregadas de folhas magentas. Parece que suam sangue e que vão dar um grito. Um grito por Karec.
Não pude levar mais longe as minhas especulações sobre a cena inquietante que presenciara, pois os meus olhos tropeçavam na sequência inaudita desse espectáculo.
    Pelas portas do Banco, que ocupava o quarteirão fronteiro ao prédio onde eu habitava, saíam e entravam afobados jacarés com o ar de estarem escapando por uma unha negra a falências iminentes. Estaquei e, através dos vidros da porta de catavento, vi, por detrás dos guichés, crocodilos burocratas passando maços de notas a répteis impacientes que as apanhavam nas patas erguidas.
    Atordoado, dei meia dúzia de passos e entrei no “snack”, onde costumava tomar o pequeno almoço. Não. Não era possível. A monstruosidade prosseguia. Crocodilos inofensivos, perfeitamente sociais, cruzavam as patas, lendo o jornal e bebendo o seu café matutino.
    Bom dia, sr. Luker! Chá, ou café com leite?
Era a voz familiar de Pepe que saía de uma bocarra escancarada em atenção servil por detrás do balcão. Por entre bocas escamosas, dois olhos laterais e mortiços pousavam no meu rosto testemunhando-me em réptil a simpatia humana e espanhola de Pepe.
   “Meu Deus, eles falam”, pensei, correndo para a rua com um vómito a arranhar-me a garganta. “São perfeitamente civis, talvez religiosos. Em que mundo estarei? Em que cidade?”
Procurei referências com os olhos. Era o cenário do costume. Lá estava a tabacaria. Lá estava o talho. Lá estavam as árvores vertendo sangue por Karec.
   É verdade... Karec... O julgamento. Este asqueroso acidente atrasou-me. Tenho que apanhar um táxi. Lá vem um.
   Fiz um sinal. O táxi parou. Mas apenas abri a porta verifiquei, já sem espanto mas com uma espécie de resignada angústia que um displicente sáurio estava sentado ao volante assobiando o êxito do disco dessa semana. Fechei a porta com estrondo e afastei-me do táxi. Impossível encerrar-me com um réptil naquele espaço exíguo, ser conduzido por ele, falar do tempo, do futebol, da política, pois devia ser um crocodilo falador como todos os motoristas.
   Decidi fazer o caminho a pé. Contraí os maxilares e avancei. Em vão os meus olhos perscrutavam na multidão uma forma humana. Banhados pelo vermelho tenso que tudo envolvia como um papel celofane encarniçado, crocodilos transeuntes, crocodilos logistas, crocodilos barbeiros, aligátores classe-média, caimões populares, jacarés administrativos conduzidos em bentleys particulares por sardões fardados, salamandras piedosas que se benziam quando passavam pelas igrejas orquestravam a vida citadina com uma naturalidade cívica exemplar.
   “Com mil raios!” mastiguei entre os maxilares cada vez mais apertados”. Só haverá crocodilos na cidade? Crocodilos civilizados, talvez astrónomos, talvez Einsteins. E eu? Quem me diz que também não estou transformado num crocodilo? A verdade é que passo junto desses répteis imundos e eles não têm um movimento de repulsa pela minha configuração humana. Olham-me como se fosse um deles”.
   Esta ideia lançou-me no auge do pânico. Fixei as mãos e a carnadura pálida que as revestia percorrida por veias azuis deixou-me sossegado. Mas não por muito tempo. Uma nova suspeita beliscou-me o pensamento. “E o rosto? Quem te diz que não estás a pavonear pelas ruas as medonhas fuças de um jacaré!” Um espelho, depressa! Onde está um espelho?
   Corri para uma montra e coloquei-me junto da vitrina de modo a que ela reflectisse a minha imagem. Foi um alívio. Por entre lampreias de ovos, pirâmides de chocolate e buquês de frutas cristalizadas recortava-se a minha forma humana contrastando escandalosamente com os crocodilos que, em posição vertical se apressavam nas minhas costas para um destino de cidadãos rotineiros.
   Estava eu louco? Ou a loucura apossara-se da cidade deixando-me apenas a mim a crueldade de uma lucidez solitária?
   A situação atingiu uma delirante efervescência quando ao entrar na sala de audiência, no preciso momento em que o público constituído por jovens sáurios estudantes de Direito e salamandras coleccionadoras melodramáticas de escândalos públicos se levantava à entrada de um solene jacaré que foi ocupar a cátedra do juiz. Por entre essa floresta de répteis distingui a clareira humana do meu amigo Karec, ele mesmo com os seus cabelos cor-de-mel, as suas espáduas nervosas, a sua palidez longínqua e os seus olhos alheados que passeavam pela assistência como se deslizassem por uma paisagem amena. [...]

2 comentários:

  1. Meu caro amigo Armindo:

    Se tivesse adivinhado que você era fã de Natália Correia, teria colocado o seu nome na "nota final", com um segundo parágrafo. Não seja modesto em demasia (nem tanto ao mar, nem tanto à terra): você, caro admnistrador do maior Portal do mundo, escreve bem, tem ideias fantásticas para as ilustrações dos artigos, enfim, um CINCO ESTRELAS, das mais brilhantes que eu conheço.
    Um grande abraço.
    Carlos Alberto Alves

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  2. Amigo Carlos Alberto:

    Ontem li este seu comentário e logicamente que tudo o que escreveu sobre mim deixou-me sem palavras para lhe responder, mas hoje encontrei-as:

    Você também já aprendeu com os outros colaboradores do Splish Splash a pedir aumento de honorários ao patrãozinho?

    :)

    Grande abraço

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