Pesquisa busca preservar espécie de algodão silvestre nativo do Brasil

Foto: Lucia Hoffmann


 
Alba Bittencourt
Portal Splish Splash
 

Gossypium mustelinum é o nome científico de uma espécie de algodão silvestre nativo do Brasil, que não ocorre em outros locais do mundo. Apesar de não ter importância econômica, já que suas fibras são curtas, esse algodão é do mesmo gênero do algodão cultivado (Gossypium hirsutum) e pode ser cruzado geneticamente com ele, o que o torna uma espécie de grande interesse para estudos científicos, pois é capaz de contribuir para o melhoramento das plantas comerciais. “As características genéticas desse algodão nativo são únicas e podem ser uma fonte de estudo para resistência a doenças e pragas”, explica a pesquisadora da Embrapa Algodão (PB) Lucia Hoffmann.  De acordo com a cientista, a planta poderá ser fonte de material genético de interesse para o melhoramento da espécie comercial, por isso é fundamental a sua preservação.

Com o objetivo de promover a conservação dessa espécie, a pesquisadora da Embrapa partiu em expedição na primeira quinzena de dezembro, percorrendo os municípios de Lucena, Pitimbu (PB), Goiana, Itamaracá (PE) e Macururé (BA), onde foram mapeadas plantas de algodão nativo. A espécie ocorre naturalmente nos estados da Bahia, Pernambuco e Paraíba, mais frequentemente próximo a leitos de rios que não são perenes e, quando na mata, parece ter preferência por clareiras.

Segundo Hoffmann, este trabalho de acompanhamento das espécies nativas em seus ecossistemas naturais (conservação in situ) é realizado com o objetivo de garantir a maior variabilidade genética possível, bem como, garantir a evolução de espécies ao longo do tempo, de acordo com as mudanças ambientais.

Em 2011, outra expedição confirmou a existência de populações de algodão silvestre no litoral da Paraíba e Pernambuco.  “As plantas têm algumas características diferentes das que ocorrem na Bahia e também da população que já existiu em Caicó, no Rio Grande do Norte, hoje extinta. As principais características identificadas como diferentes, além do habitat, são o maior tamanho da flor e ausência de pilosidade acentuada nas folhas. Nesta expedição,  se fez um esforço para viabilizar a manutenção das plantas in situ”, informa Lucia Hoffmann.

Além de acompanhar o desenvolvimento das espécies, os pesquisadores também promovem a conscientização ambiental da população local. “Conversamos com os proprietários do local onde a espécie é encontrada para que se tornem guardiões da planta em sua região. O guardião deve saber reconhecer a espécie, alertar outras pessoas de sua comunidade para a existência do algodão nativo em suas propriedades e para a necessidade de preservação dessa espécie única e tipicamente brasileira”, conta.

A pesquisadora explica que as principais ameaças à preservação do algodão nativo são, principalmente, a interferência humana (arranquio com finalidades diversas), pastoreio excessivo do gado, desmatamento e seca. “Como outras vegetações na Mata Atlântica, observamos que muitas vezes as plantas são arrancadas por desconhecimento da espécie”, observa.


Ação dos guardiães

Durante a viagem, Lucia Hoffmann encontrou boas e más notícias. “Em Macururé, a seca está muito grande, por isso as plantas estão muito fracas. Mas, para a minha surpresa, a agricultora Maria José, de São Francisco, tinha construído por conta dela uma cerca de arame farpado para proteger as plantas”, relata a pesquisadora.

A agricultora recorda que na propriedade dela já teve pés de algodão grandes, mas que as plantas não sobreviveram à seca. “Depois que o pessoal da Embrapa veio, eu comprei o arame e mandei cercar os que ficaram para os bodes não comerem, mas depois que cerquei, foram cinco anos de seca, seca mesmo, sem chuva”, relembra Maria José.

“Em outra fazenda, onde havia algodão em Macururé, hoje só restam oito plantas vivas, graças à macambira. Por causa da seca e da necessidade de alimento, solta-se o gado onde pode haver pasto, nas áreas que guardam umidade como nos locais onde antes se acumulava água, e o gado gosta de se alimentar da planta e da semente”, diz Hoffmann.

“Em Itamaracá, um dos únicos dois conjuntos de planta já localizados, que fica em terreno bem próximo à praia, passou por uma queimada. Quatro plantas maiores estão mais perto da praia, ainda possuem folhas verdes, e um número maior de plantas ainda tem sementes, que parecem estar viáveis. Entrei em contato com a Agência Estadual do Meio Ambiente (Área de Proteção Ambiental de Santa Cruz) para tentar encontrar e comunicar ao proprietário do terreno e sua vizinhança que as plantas não podem ser arrancadas. A APA já esteve no local fazendo reconhecimento das plantas.”

Em Lucena, próximo às ruínas da Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso existe um grande número de plantas. “Difícil dizer quantas, pois estão espaçadas e em meio à vegetação. Nesse lugar, dá para notar que o algodão prefere clareiras. Na primeira visita em 2011, havia na Igreja plantas, que devem ter sido arrancadas. Nessa visita, notamos cinco pequenas plantas, bem ao lado da igreja, que podem ser conservadas.”


Bancos de germoplasma

 
Os bancos de germoplasma funcionam como um reservatório de genes e são fundamentais para instituições de pesquisa que trabalham com melhoramento de plantas. São divididos em bancos ativos, nos quais as plantas são mantidas vivas em suas condições naturais, e bancos de base, em que são conservadas partes das plantas (muito mais frequentemente sementes, mas também podem ser pólen e outros tecidos) em câmeras frias.

Para que novas variedades de uma cultura possam ser desenvolvidas, os programas de melhoramento dependem da disponibilidade de material genético que represente a diversidade genética da espécie. A melhoria da qualidade e da produtividade são as principais características buscadas pelos pesquisadores, mas outros fatores como falta de resistência a uma determinada praga ou doença, adaptação da espécie a mudanças ambientais e a novas áreas de cultivo também são importantes.

A Embrapa tem plantado esses algodoeiros que têm risco de extinção de seca para multiplicação de sementes, como o caso das plantas que foram extintas no Rio Grande do Norte. “Nós plantamos as sementes e estamos aguardando florescimento”, diz Hoffmann. Sementes que haviam sido colhidas em duas lagoas de Macururé entre 2003 e 2005 também foram plantadas na Embrapa, em Goiás, e germinaram. “Caso floresçam e produzam sementes será importante para a manutenção, já que em Macururé, nessas lagoas, não existem mais plantas de algodão”, afirma.

Edna Santos (MTb 01700/CE)
Embrapa Algodão
algodao.imprensa@embrapa.br
Telefone: (83)3182-4361

Mais informações sobre o tema
Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC)

Licenciada em Robertologia Aplicada e Ciências Afins. Redatora militante do Portal Splish Splash e Administradora do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal.

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