Bandeira do Brasil é recriada pelo pintor português Manuel Casimiro


Bandeira do Brasil é recriada por pintor português

Manuel Casimiro Brandão Carvalhais de Oliveira tinha 35 anos quando ganhou uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para fazer pesquisas em artes visuais na França. Depois de dois anos de estudos pela Europa e uma temporada em Nova York, fixou residência em Nice, na Côte d’Azur, onde moraria por quase 20 anos, período em que consolidou a carreira de artista plástico, desfrutando da convivência com artistas e intelectuais como Michel Butor, Pierre Restany e Peggy Guggenheim. Deixar o Porto, sua cidade natal, (para a qual retornou há duas décadas), segundo ele foi a melhor passo que pôde ter tomado em direção à sua independência profissional, longe da sombra da popularidade do pai, o cineasta português Manoel de Oliveira (1908-2015).

Pelo fato de ser filho de quem sou, a minha vida, se a queria independente, em Portugal seria difícil. Aproveitei a bolsa na França para lá me instalar, e levar a cabo a minha profissão. Lá fiquei quase 20 anos e conheci gente fantástica, filósofos, escritores, poetas, críticos, que enriqueceram minha maneira de pensar — reconhece o pintor, escultor e designer português de 75 anos, o mais velho de quatro irmãos. — Infelizmente, meu pai já se foi. Tinha e tenho grande admiração pelo trabalho dele, mas fui sempre muito independente. Nunca usei o nome dele para me abrir qualquer porta. Sempre assinei apenas Manuel Casimiro.

As trajetórias de Manuel e de Manoel chegaram a se cruzar pelo caminho, em palestras no exterior ou mesmo em projetos de filmes. Mas a verdade é que o artista conseguiu construir uma obra com identidade própria, que hoje figura em coleções particulares e de instituições culturais, como o Museu de Arte Moderna e Contemporânea de Nice e o Centro Galego de Arte Contemporânea de Santiago de Compostela. Sua marca registrada são as formas ovais, elípticas, que há décadas surgem em seus principais trabalhos, como a série de quadros da exposição “Identidade(s) 2”, que propõe uma “desconstrução” dos símbolos da bandeira brasileira, que circulou por Portugal e Europa e ele espera poder trazer também para o Brasil. Na entrevista a seguir, o artista português, que não vem mais vezes ao Brasil porque “detesta andar de avião”, fala sobre a gênese da exposição inspirada no pendão brasileiro, repassa seu percurso nas artes plásticas e lembra de momentos de sua relação com o pai famoso.

“Identidade(s) 2” é um desdobramento de uma exposição anterior, inspirada na bandeira portuguesa. O que motivou essa série de estudos sobre o pendão brasileiro?

A exposição “Identidade(s)”foi visitada por um brasileiro que conheci por intermédio de amigos. Ele me desafiou a fazer o mesmo com a bandeira do Brasil. Na altura, inicialmente ter-lhe-ia dito não estar interessado, pois realmente não me sentia motivado, não conhecia bem a história da bandeira brasileira. Mas a curiosidade levou-me a investigar. Pouco a pouco, fui descobrindo coisas que me interessaram e libertaram ideias que no início me levaram a desenhar e a pintar a propósito da bandeira brasileira pequenos papéis de bloco de apontamentos, a que se seguiram outras pinturas maiores, quer em suportes de papel mas também de tela, primeiro de dimensões reduzidas, e depois de maiores formatos.

O título sugere uma investigação sobre os símbolos nacionais da bandeira. O que de mais curioso o senhor descobriu no caso da brasileira?

Como bem sabe, são as bandeiras nacionais que identificam cada um dos países. Em relação à nossa bandeira, ou à do Brasil, executei pinturas a acrílico sobre papel e tela de variados formatos, todas elas reminiscentes das cores e de outros elementos presentes em cada uma destas bandeiras. O princípio destas duas séries de pintura foi o mesmo. Não pretendi fazer a destruição da bandeira, símbolo maior dum país, numa atitude iconoclasta. Procedi à sua redefinição enquanto signo transferido para o universo da poética particular do artista.

De que forma essa simbologia é expressa em suas pinturas?

Pus em prática o conceito de “desconstrução” concebido pelo filósofo Jacques Derrida, que como bem sabe não significa destruição, apenas desmontagem, desconstrução dos elementos. A minha intenção é a de provocar o pensamento de cada um a confrontar postulados definitivos, induzir a investigação para em seguida formular uma nova restruturação simbólica. Nestas obras a propósito das bandeiras, portuguesa e brasileira, como de resto em todo o meu trabalho, procuro desafiar o espectador e provocar a nossa razão, a inteligência e a sensibilidade.

Gerações cresceram aprendendo que as cores da bandeira estavam ligadas às riquezas do país — o amarelo representava o ouro, o verde, as florestas, e assim por diante — quando, oficialmente, representam as casas reais do Brasil Reino. De que forma essa versão popular se torna evidente em suas pinturas?

A cor amarela se refere à casa de Habsburgo de que fazia parte a imperatriz Dona Leopoldina, e o losango na heráldica está associado ao feminino. A cor verde simbolizará a casa de Bragança, era a cor do estandarte pessoal de Dom Pedro I do Brasil enquanto monarca, antes de se tornar o primeiro imperador do Brasil. Verifiquei na história de Portugal que a casa de Bragança, para a representar, não utilizou só esta cor verde, curiosamente o branco seria porventura até a mais usado, embora também tivessem empregado o azul e mesmo o vermelho. É curioso verificar que todas essas cores figuram na bandeira brasileira com exceção do vermelho. Na minha pintura, para além de considerar todas as cores e formas significantes de uma versão mais erudita, não esqueci a versão mais expandida e popular no Brasil, que refere na sua pergunta o verde alusivo às florestas, e o amarelo ao ouro. As cores que utilizei são as mesmas que vemos na bandeira brasileira.

Em um de seus quadros, o senhor reproduz a frase “L'amour pour principe et l'ordre pour base; le progrès pour but ”, de Auguste Comte, que teriam inspirado os ideias republicanos de “ordem e progresso”. Por que esse destaque?

É do conhecimento geral serem as palavras da autoria do positivista francês Auguste Comte. “Amor”, “ordem” e “progresso” são ideais republicanos que não só derrubaram a monarquia, mas apelavam a condições sociais básicas e melhoramentos materiais, intelectuais e morais para o país. Este princípio é muito forte, e por isso o assinalei. Gostaria de acrescentar algo das teorias de Auguste Comte que a mim me interessa muito e apliquei nas pinturas. Segundo ele, há um método geral onde verificamos a subordinação da “imaginação” à “observação”, embora este método não tenha aplicação em todas as ciências. Ainda a propósito da filosofia de Auguste Comte, interessou-me a compreensão da realidade sempre numa relação continua entre “objetivo” e “subjetivo”, entre “abstrato” e “concreto”.

Como o senhor situa essas duas exposições sobre as bandeiras portuguesa e brasileira se inserem dentro do conjunto de preocupações de sua obra como um todo? 

Considero duas exposições muito importantes, diria marcantes, no meu já longo percurso. O meu trabalho ganhou consistência nos finais dos anos 1960, quando apareceu em suportes de papel ou tela aquela forma ovalada, mais próximo duma elipse, a que chamaram ovóide. Forma mínima, vazia de conteúdo, “nada” para ser tudo, receber todos os sentidos possíveis numa reflexão plural. Estas formas idênticas organizaram-se em “estruturas” onde seguiam uma certa lógica, para depois estabelecerem rupturas contrariando a lógica anterior. O ovóide foi a semente que deu origem a raízes profundas donde nasceu um frondosa árvore, com um forte tronco, que deu origem a muitos ramos todos diferentes e com diversificados frutos em cada um deles, mas todos identificados numa gênese comum.

O senhor já pensou em trazer a exposição para o Brasil?

Claro que sim, fazia todo o sentido que fosse ao Brasil. Mas isso não depende só de mim, da minha vontade.

Em 1988, Manoel de Oliveira dirigiu o curta “A propósito da bandeira nacional”, no qual o senhor é coautor do roteiro. Aquele filme tem alguma relação com a exposição atual?

Aquele filme mostra os meus primeiros trabalhos a propósito da bandeira portuguesa, expostos no Museu Nacional de Évora, em 1984, mas não tem nada a ver com a exposição relacionada à bandeira do Brasil. O meu trabalho a propósito da bandeira portuguesa foi um processo que durou 27 anos, naturalmente com hiatos de tempo onde fiz muitas outras coisas.

Nunca pensou em se aventurar a fazer cinema também?

À época da exposição no Museu Nacional de Évora, Manoel de Oliveira filmava um dos seus filmes. Sabia que os longos planos não esgotavam as bobinas de película, ficavam sempre umas pontas, difíceis de se utilizarem. Pedi a ele se me cedia os restos de película e se me emprestava a máquina para fazer um curto filme que perdurasse a memória da referida exposição. Por motivo dos seguros, não foi possível emprestar a máquina, mas permitiu que num fim de semana filmassem aqueles curtos minutos que vemos no filme “A propósito da bandeira nacional". Eu estava em França, mas as filmagens seguiram fielmente um pequeno e detalhado roteiro, com muitos desenhos e indicações, que eu escrevera e desenhara a partir e diante da montagem e do espaço da referida exposição. Lá se assinalava o hino nacional aos soluços, a leitura dum texto por um ator, Luís Miguel Cintra, e por uma atriz, Manuela de Freitas. Um dos textos foi recolhido do livro oficial da descrição da nossa bandeira. Por isso, o filme se chama originalmente “Reflexões de Manuel Casimiro, a propósito da Bandeira Nacional”. Também substituí Manoel de Oliveira no filme “Simpósio de Pedra”, financiado pela Câmara Municipal do Porto. O Simpósio da Pedra coincidia nas datas com as férias do realizador, pelo que a seu pedido fui substituí-lo. O nome dele figura no genérico apenas porque foi uma imposição da CMP, para financiar o filme. Nunca se sabe, pode ser que um dia venha a fazer mais algum filme.

Gostaria de ter feito mais parcerias com Manoel de Oliveira?

Curiosamente, o pai e eu, por vezes, chegamos a tratar de forma diferente alguns assuntos, como foi o caso do Dom Sebastião; eu numa exposição, “Os fantasmas de Dom Sebastião”, dez anos antes do filme dele sobre o imperador português, “O Quinto Império – Ontem como hoje”(2004). Chegamos também a ser convidados separadamente para irmos falar em Bari sobre os mitos portugueses. Na palestra, ficamos na mesma mesa e ninguém desconfiava que éramos pai e filho. Pensaram que a intimidade e proximidade que tínhamos era devido à mesma nacionalidade.


http://www.oparana.com.br/noticia/bandeira-do-brasil-e-recriada-por-pintor-portugues/52184/
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