Álbum gravado em um dia com produção de Mario Caldato Jr. chega com instalação no MAAT
Álbum gravado em um dia com produção de Mario Caldato Jr. chega ao mesmo tempo que instalação sonora New Age no museu lisboeta
Do improviso à utopia sonora
O artista visual e músico português João Pimenta Gomes estreou ontem, 1/10, o disco Dois Desertos. Gravada num único dia, a obra nasceu sem agenda e sem roteiro durante uma estadia do autor em Los Angeles. O tom das nove faixas que compõem o álbum, lançado pelo selo Amor In Sound, é onírico — e mais do que isso, lança em direção à metrópole o olhar daquele que a vê de fora, sem a pressa de pertencer e entregue à permeabilidade das suas vibrações.
“Este disco foi feito a partir de uma liberdade muito grande, guiada pelos encontros. O que se ouve é um registo do que aconteceu naquele momento”, explica o autor. Com produção de Mario Caldato Jr., além de contar com a presença dos músicos Abe Rounds (bateria e percussões) e Gabe Noel (contrabaixo e cello), Dois Desertos aporta ao ouvinte partituras simples, algumas construídas apenas com a harmonia escrita.
Cristal baschet e mixagem ao vivo
A mixagem, também feita ao vivo por Caldato Jr., segue esse espírito, com efeitos e volumes trabalhados em tempo real, todos capturados num two-track final. É o cristal baschet, escolhido como instrumento central, que define parte significativa do caráter sonoro apresentado. Por meio de fricções manuais que levam varas de vidro a fazerem ressoar chapas de metal, criando um som que o artista descreve como “um rastro, quase como uma sombra”, o instrumento assume um papel de suporte, enquanto o contrabaixo e o cello carregam as melodias. Estas dividem-se entre composições originais e, em casos específicos, têm como ponto de partida trechos de fados tradicionais, tratados de forma aberta.galeriasmunicipais+1
De Eagle Rock a Dois Desertos
A princípio concebido para se chamar Eagle Rock — uma referência à localização do estúdio de gravação —, o álbum haveria de ganhar contornos conceptuais mais amplos. “O deserto é um lugar muito belo e visual, basta mencionar a palavra e somos transportados até lá. É algo que se vê, e também carrega a ideia de vazio, um horizonte onde não se chega, uma ideia de utopia”, diz João. “Na música que eu faço, essa utopia é importante. Não existe exatamente uma conclusão do disco, é alguma coisa que está em desenvolvimento”. Assim é que as suas novas músicas se revelam como uma peça inteira, em que a recompensa máxima da escuta está na possibilidade de planar, indo ao encontro da experiência.dancingvinyl
Cinema e o olhar externo sobre Los Angeles
Inspirado por tudo aquilo que uma grande cidade pode oferecer em termos de som e imagem, João Pimenta Gomes ainda se guia neste caminho por referências que dizem respeito ao cinema. Na construção do olhar externo que introduz em Dois Desertos, estão filmes como The Model Shop, dirigido pelo francês Jacques Demy e lançado exatamente na transição das décadas de 1960 e 1970. Há, noutro plano, o filme-ensaio Los Angeles Plays Itself, de Thom Andersen, por sua vez lançado em 2003. Ambas são obras que examinam as formas como a cidade se revela e a sua atmosfera, tanto quando essa se pretende anónima, quanto nos momentos em que ela própria é o foco.
“A impressão que tenho de Los Angeles, vindo da Europa, é muito específica. Existe uma visão utópica do que seria a cidade e de como vivem as pessoas que por ali passam”, comenta João. “Este disco dialoga com referências culturais e com o confronto imposto a alguém que aqui chega pelas primeiras vezes. É algo que se vê à distância, e essa ideia pode ser muito expressiva. O que me interessa é continuar a refletir sobre o que é utópico e como é que se pode tornar plástico”.dancingvinyl
New Age: exposição no MAAT liga som e espaço
A par deste lançamento, João Pimenta Gomes prepara uma nova exposição, intitulada New Age, com estreia igualmente prevista para 1º de outubro, no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), situado em Lisboa. Com a premissa de conectar propostas, esta será a sua segunda vez a ocupar o espaço. “A ligação da exposição com este disco é que ambos partem do mesmo instrumento, o cristal baschet, e da mesma prática de atelier. Na exposição, aproveito as ‘pétalas’ de metal que existem para tocar sons de voz, tocar uma nova peça que estou a compor. Tudo acontece à volta deste instrumento, desmembrando o cristal baschet, em ambos os contextos”.
Ao fim, o novo LP de João Pimenta Gomes propõe uma escuta imersiva, revelando um lado mais exploratório do seu trabalho e a proposta do selo fonográfico Amor In Sound, que busca lançar projetos autorais em diálogo com diferentes linguagens da música e das artes contemporâneas. Entre o improviso e a composição, entre a experiência concreta de uma cidade e a imagem que dela se constrói à distância, Dois Desertos transforma encontros e perceções em matéria sonora, aberta aos deslocamentos e às possibilidades de interpretação em cada escuta.
João Pimenta Gomes (Lisboa, 1989) é artista visual e músico, e vive e trabalha em Lisboa. Estudou Produção Musical, Fotografia e Desenho e foi professor convidado de Som e Imagem na Escola das Artes da Universidade Católica do Porto. A sua prática artística parte de referências do campo da música e explora as relações entre o espaço e o corpo através da manipulação de sintetizadores modulares, imagens, vídeos e objetos. Proporcionando encontros entre o analógico e o digital, o sensorial e o conceptual, é no cruzamento com a performance e em eventos ao vivo que o artista amplia estas relações e encontros, estendendo-os à interação com o espetador. No contacto com as obras, este é convidado a observar a génese da ideia musical e da composição sonora, fazendo do corpo – da sua aproximação, afastamento ou modelação – um elemento central no processo de criação.
Entre osprojetos, exposições e performances ao vivo destacam-se: Dois Stereos na Galeria da Boavista, 2025; Line Array na Casa da Cerca, 2025; Últimos Sons na Galeria Vera Cortês, em 2014; Love Cry, Central Artística de Bueño (EDP Foundation), Bueño, 2023; Two Virgins, Gnration, Braga, 2023; a exposição coletiva Esfíngico Frontal (curadoria de Germano Dushá), Galeria Mendes Wood DM, São Paulo, 2023; Poly-Free, MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, Lisboa, 2022; Alto Mar / Metavox, Palácio Nacional de Belém, Lisboa e Les Laboratoires d’Aubervilliers, Aubervilliers, 2022; Doppelganger III, Sound & Future, Plataforma Revólver, Lisboa, 2022; Doppelganger VII, Lux Frágil, Lisboa, 2022; Clouds, Kunstraum Botschaft, Berlim, 2021; enquanto membro do grupo Matéria Simples com o qual também realizou A Ilha de Calipso, Appleton Garagem, Lisboa, 2020; e Micro Ressonâncias (Appleton Box, Lisboa, 2020). Em 2026, lança o disco Dois Desertos e prepara a exposição New Age, no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), em Lisboa. Instagram – Site oficial
Crédito da Foto: Apu Gomes
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NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
Com Dois Desertos e New Age, João Pimenta Gomes consolida uma prática artística que dissolve fronteiras entre som, espaço e perceção. O cristal baschet, instrumento raro e central em ambos os projetos, funciona como ponte entre o registo fonográfico e a instalação, entre Los Angeles e Lisboa. Esta dupla estreia no outono de 2026 reforça o papel do artista na renovação da cena experimental portuguesa, ao mesmo tempo que o projeta internacionalmente através do selo Amor In Sound.galeriasmunicipais+2
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