Mulher sobrecarregada: quando cuidar de todos vira rotina

A sobrecarga feminina pode fazer com que a mulher se coloque em último lugar. Um relato sobre cansaço, autocuidado e a importância de ouvir o corpo.
Ilustração sobre mulher sobrecarregada com múltiplas responsabilidades

Entre demandas e responsabilidades, muitas mulheres esquecem de cuidar de si


Quem cuida de todos também precisa aprender a se colocar na fila


Por: Fabiana C.O*


Abro o celular e recebo a solicitação de um artigo. “Fabi, consegue escrever sobre o silenciamento ou sobrecarga da mulher contemporânea?”

Paro. Olho ao redor, e a minha cabeça pesada, de uma possível sinusite, sufoca qualquer animação para confirmar o desafio. Me conecto com os meus conteúdos e com todas as trocas. Lembro de algo que vi na internet: o mapeamento Esgotadas, da Think Olga. Nele, 60% das mulheres relatam perda da própria identidade diante da sobrecarga física e mental.

Tento listar mentalmente o que seria físico e o que seria mental. Tudo está tão misturado que parece um feed ambulante, cheio de conteúdo aleatório. Não há pausa. Somos afogadas pela rotina, pelo trabalho, pelas notícias de violência contra a mulher e pela responsabilidade de cuidar de alguém. Sem contar a pressão estética que surge de todos os cantos, dizendo que não somos suficientes ou que precisamos fazer mais.

Todas as bolinhas que recebemos ao longo da vida e que precisam de equilíbrio giram em uma velocidade em que não há malabarismo capaz de sustentá-las em perfeita harmonia. Derrubar alguma parece fora de cogitação. O cansaço muda de nível e fadigamos. Corpo e mente entram em colapso!

Leio o que escrevi e respiro fundo. Olho para as minhas bolinhas e para o meu corpo cansado. Por mais que o tempo esteja seco, percebo uma negligência comigo mesma. Algo não está certo. Lembro da minha sinusite e isso me provoca.

O artigo ganha um cunho pessoal. Se passo tanto tempo falando sobre a importância de olhar para os sinais, por que tenho ignorado os meus? Minha filha, com os mesmos sintomas, foi ao médico, fez exames e foi medicada. Eu a levei! Já eu, segui com a automedicação e não achei necessário “perder tempo” em um pronto-socorro.

Por mais bandeiras que eu levante sobre o tema no meu dia a dia ou na minha literatura, eu escorreguei. Em meio a um período caótico, dei as mãos para mim mesma e me coloquei no fim da fila. Falei que era temporário, mas uma mulher pode esquecer facilmente como é importante se priorizar.

As bolinhas saltando na minha frente não me permitiram enxergar com lucidez. Virei um trator para resolver todas as demandas. Claramente, sou um exemplo de mulher sobrecarregada. Que bom perceber isso a tempo…

Minha cabeça segue pesada e a sinusite continua aqui. Preciso urgentemente organizar a rota, largar algumas bolinhas e voltar a cuidar de mim.  Estou feliz com o artigo criado e mais ainda por me escutar. Deixarei o texto “dormindo” para corrigir outro dia. Pego o telefone e marco uma consulta com o otorrino: Doutor, preciso de um antibiótico!

* Fabiana C.O. é escritora, palestrante e voluntária, autora de O Buraco, publicado pela VR Editora. Com MBA em Gestão de Empresas, aprofunda seus estudos em Filosofia, Autoconhecimento e Psicologia Positiva e escreve sobre comportamento humano, cotidiano feminino, silêncios e emoções. [separador]
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
Um relato pessoal e sensível sobre a sobrecarga feminina, a dificuldade de reconhecer os próprios limites e a importância de ouvir os sinais do corpo antes que o cansaço se transforme em colapso.
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