Romance em contos usa a ficção distópica para refletir sobre a crise da docência e o futuro da educação brasileira
A educação também pode ser denunciada pela literatura
A crise da educação brasileira ganha uma abordagem provocadora em Queimem todos os professores, novo livro do professor, coordenador pedagógico e escritor Arthur V. F. Furtado. Reunindo oito contos interligados, a obra utiliza a ficção distópica para discutir os desafios enfrentados diariamente pelos docentes, a desvalorização da profissão e os impactos de mudanças profundas no sistema de ensino.
No universo criado pelo autor, uma organização denominada C.U.L.P.E. — sigla para "culto pedagógico" — adota um lema inquietante: "Queimem todos os professores". Formada por grupos de posições ideológicas opostas, essa aliança passa a influenciar completamente o modelo educacional, prometendo uma revolução baseada no protagonismo estudantil e na eliminação de regras, avaliações e hierarquias.
À medida que essas transformações avançam, as escolas entram em colapso. O ensino perde espaço, avaliações deixam de existir e diplomas passam a ser distribuídos independentemente da aprendizagem, criando um cenário onde até analfabetos funcionais conseguem concluir a formação escolar.
A crítica social aparece de forma contundente ao longo da narrativa. Pais, estudantes e burocratas transferem aos professores toda a responsabilidade pelos problemas da educação, enquanto os profissionais enfrentam violência, precarização e crescente perda de autoridade dentro das salas de aula.
Em um dos trechos da obra, essa inversão de responsabilidades é retratada de forma irónica:
"A culpa é do professor, que não sabe cativar os seus próprios alunos. (...) Por que ainda existe nota vermelha? (...) Troquem essas notas sangrentas por um recadinho aos pais..."
Mesmo diante desse ambiente hostil, personagens como Martha, Dirce, Henrique e Eliete resistem. Os protagonistas continuam a defender uma educação capaz de formar cidadãos críticos, demonstrando que ensinar permanece sendo um ato de compromisso com a sociedade.
Embora as histórias estejam conectadas, cada conto pode ser lido de forma independente. Arthur V. F. Furtado experimenta diferentes formatos narrativos, recorrendo a listas, manchetes, índices e até receitas para construir uma obra dinâmica, que combina literatura, crítica social e reflexão sobre os rumos da educação brasileira.
Segundo o autor, a inspiração nasceu tanto da investigação académica como da experiência acumulada em escolas públicas e privadas.
"O livro surgiu dos meus estudos de doutorado e da minha experiência como docente em escolas públicas e privadas. Unindo teoria e prática, percebi uma profissão totalmente inviabilizada, atacada à esquerda e à direita, e uma crescente culpabilização daquele que carrega tudo nas costas e ainda sofre com a violência e a precarização das escolas: o professor", afirma Arthur V. F. Furtado.
Ficha técnica
Título: Queimem todos os professores
Subtítulo: Contos do labirinto pedagógico-literário
Autor: Arthur V. F. Furtado
Editora: Kotter
ISBN: 978-65-986653-9-5
Páginas: 192
Preço: R$ 69,70 (edição física)
Onde comprar: Amazon e Editora Kotter
Sobre o autor
Arthur Vinícius Feitosa Furtado é professor de Língua Portuguesa e coordenador de uma Escola Técnica Estadual (ETEC), em São Paulo. Doutor em Educação Escolar pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e mestre em Processos de Ensino, Gestão e Inovação pela Universidade de Araraquara (Uniara), também possui formação em Direito, Letras e Pedagogia.
Paralelamente à carreira na educação, construiu uma trajetória literária com obras como O Poeta Maldito e a Rainha da Noite (2022), O Corvo Escarlate e o Navio dos Mortos (2024) e, agora, Queimem todos os professores (2026), consolidando uma produção marcada pelo diálogo entre literatura, educação e reflexão social.
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
Mais do que apresentar um cenário ficcional, Queimem todos os professores convida o leitor a refletir sobre o papel da escola, da docência e da formação cidadã numa época marcada por profundas transformações sociais. Ao recorrer à distopia como instrumento de crítica, Arthur V. F. Furtado reforça a capacidade da literatura de promover debate, consciência e pensamento crítico sobre um dos pilares fundamentais de qualquer sociedade: a educação.
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Redatora Permanente do blog luso-brasileiro Portal Splish Splash. Uma sonhadora que acredita no verdadeiro amor, no romantismo e na felicidade, que carrega a fé em cada detalhe da vida. VER PERFIL
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