Drama sobre imigração, infância e esperança marca a estreia do Grupo Flama em São Paulo
Texto de Javier Malpica revela a força dos laços familiares diante da adversidade
O Grupo Flama, formado por jovens artistas, estreia a sua primeira montagem teatral, Papai Está na Atlântida, do dramaturgo mexicano Javier Malpica, no próximo 22 de agosto, no Complexo Cultural Funarte São Paulo. Com direção de Enzo Malaquias, o espetáculo cumpre temporada até 6 de setembro, com apresentações aos sábados, às 20h, e aos domingos, às 17h.
A montagem leva ao palco uma narrativa profundamente humana sobre infância, imigração, perda e esperança, abordando temas universais através do olhar sensível de duas crianças. Pela força da sua dramaturgia e atualidade, a peça reúne elementos que dialogam diretamente com questões sociais contemporâneas, tornando-se uma produção de forte relevância cultural.
Uma viagem guiada pelo olhar da infância
A história acompanha dois irmãos órfãos de mãe, interpretados por Thaís Gontijo (a Maior) e Matheus Mattiusch (o Menor). Após a morte da mãe, ambos são deixados aos cuidados da avó enquanto o pai parte para os Estados Unidos em busca do chamado "sonho americano", prometendo regressar para os buscar.
Quando a avó morre inesperadamente, os irmãos enfrentam uma difícil decisão: permanecer entre familiares onde se sentem indesejados ou iniciar uma viagem em busca do pai, tornando-se também eles viajantes à procura de uma terra prometida.
A partir desta premissa, Javier Malpica constrói uma narrativa delicada, onde a inocência da infância convive com desafios que ultrapassam largamente aquilo que qualquer criança deveria enfrentar.
Uma encenação que privilegia o imaginário infantil
Segundo o diretor Enzo Malaquias, toda a conceção cénica nasceu da ideia de explorar o simbolismo inerente ao universo da infância.
O facto de duas personagens infantis serem interpretadas por atores adultos foi assumido como uma escolha artística que amplia a dimensão poética da peça. A cenografia apresenta um corredor cénico que convida o público a mergulhar em brincadeiras como a amarelinha ou jogos de tabuleiro, recriando um espaço onde imaginação, memória e fantasia caminham lado a lado.
O resultado é uma encenação que procura despertar a criança interior de cada espectador, valorizando a curiosidade, o encantamento e a capacidade de olhar o mundo sob novas perspetivas.
Imigração, identidade e escuta das novas gerações
Embora tenha sido escrita há cerca de duas décadas, a dramaturgia revela-se particularmente atual ao abordar fenómenos migratórios, deslocações humanas e os impactos sociais que estes provocam.
Para Enzo Malaquias, o espetáculo ganha ainda maior dimensão por apresentar essas questões através do ponto de vista infantil.
As perguntas feitas pelas personagens tornam-se convites para que o público reflita sobre imigração, diferenças culturais, pertencimento e empatia. Ao mesmo tempo, a peça desafia os adultos a ouvirem verdadeiramente as crianças, reconhecendo nelas uma visão do mundo frequentemente ignorada.
Uma história de irmandade acima de tudo
Ao longo das dez cenas que compõem o espetáculo, acompanha-se o crescimento emocional das duas personagens, cuja relação de cumplicidade constitui o verdadeiro coração da narrativa.
Sem nomes próprios — sendo identificadas apenas como Maior e Menor —, as personagens tornam-se universais, permitindo que cada espectador projete nelas as suas próprias memórias, afetos e experiências familiares.
Mais do que contar a história de duas crianças, Papai Está na Atlântida retrata a realidade de milhares de menores em diferentes partes do mundo, confrontados demasiado cedo com perdas, deslocações e responsabilidades para as quais nunca deveriam estar preparados.
Grupo Flama estreia projeto autoral
Criado em 2025, o Grupo Flama reúne Thaís Gontijo, Matheus Mattiusch, Enzo Malaquias, Lívia Martinez e Duda França.
Depois de acumularem experiências em produções estudantis e profissionais, os jovens artistas decidiram criar um coletivo com identidade própria, apostando em espetáculos acessíveis, criativos e centrados em temas relevantes da sociedade contemporânea.
A proposta artística do grupo privilegia encenações que ultrapassam os limites do realismo, procurando novas formas de diálogo entre palco e público.
FICHA TÉCNICA - Texto: Javier Malpica. Direção: Enzo Malaquias. Elenco: Thaís Gontijo e Matheus Mattiusch. Assistência de direção: Lívia Martinez. Cenografia e figurino: Enzo Malaquias. Coordenação de comunicação: Enzo Malaquias e Lívia Martinez. Design gráfico: Lívia Martinez. Fotografia: Duda França. Assessoria de imprensa: Eliane Verbena. Produção e realização: Grupo Flama. Apoio: Funarte.
Duração: 60 minutos. Classificação: 10 anos. Gênero: Drama.
Complexo Cultural Funarte São Paulo
Alameda Nothmann, 1058 - Campos Elíseos. São Paulo/SP.
Sala Carlos Miranda (60 lugares). Acessibilidade: Sim.
Tel.: (11) 95078-3004. Metrô Santa Cecília.
Grupo Flama na rede: @grupoflama_ [separador]
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
Com uma abordagem sensível e profundamente atual, Papai Está na Atlântida reafirma o poder transformador do teatro ao dar voz à infância perante temas como imigração, perda, esperança e identidade. O Portal Splish Splash destaca esta estreia do Grupo Flama por revelar uma nova geração de artistas comprometida com uma criação contemporânea, acessível e socialmente relevante, capaz de despertar reflexão muito para além do palco.
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