Estudo revela aumento dos casos femininos e reforça a urgência do diagnóstico precoce
O cancro da cabeça e pescoço já não é uma doença predominantemente masculina
São Paulo – 09/07/2026 - Julho verde conscientiza sobre câncer de cabeça e pescoço. Durante décadas, a doença foi associada majoritariamente ao público masculino, principalmente devido ao maior consumo de cigarro e álcool por essa população. Mas, segundo um estudo brasileiro publicado em janeiro no The Lancet, que avaliou mais de 300 mil mortes ocorridas entre 1980 e 2023, esse cenário tem mudado no Brasil. Enquanto os homens vêm apresentando queda nas taxas de óbito por esses tumores, especialmente após os anos 2000 e de forma mais evidente no câncer de laringe, as mulheres registraram aumento progressivo principalmente nos cânceres de orofaringe e da cavidade oral. “Esse estudo confirma algo que já observamos na prática clínica: a doença deixou de ser quase exclusiva dos homens e as mulheres estão adoecendo e morrendo mais do que antes por câncer de cabeça e pescoço, que engloba tumores que surgem em áreas como boca, língua, garganta, faringe e laringe”, explica o oncologista Prof. Dr. Ramon Andrade de Mello*, do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo) e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia.
Segundo o oncologista, vários fatores ajudam a explicar esse aumento, como a mudança de hábitos nas últimas décadas. “As mulheres estão mais expostas a fatores de risco como consumo de álcool e ao tabagismo. Isso se reflete agora nas estatísticas”, afirma. Outro elemento importante é o HPV, vírus que se tornou uma das principais causas do câncer de orofaringe em todo o mundo. “O aumento desses cânceres não significa que o HPV esteja mais frequente como vírus, mas sim que mudou a forma como a população se expõe a ele. Mudanças de comportamento ao longo das últimas décadas, como maior prática de sexo oral e início mais precoce da vida sexual, ampliaram o contato do HPV com a mucosa da garganta. Como o câncer leva anos para se desenvolver, esse impacto começa a aparecer agora nas estatísticas’, explica o Prof. Dr. Ramon. De acordo com o trabalho, esse fenômeno pode estar contribuindo para o aumento da mortalidade por câncer de orofaringe no país, especialmente entre mulheres.
O estudo ainda apontou uma questão de desigualdade étnica: enquanto homens brancos apresentaram redução da mortalidade no período, pessoas pardas tiveram aumento das taxas em praticamente todos os subtipos de câncer de cabeça e pescoço. Além disso, o estudo destaca que a mortalidade dos tumores de cabeça e pescoço tem aumentado expressivamente fora dos grandes centros. Enquanto Sul e Sudeste apresentaram redução da mortalidade ao longo do tempo, Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste mostraram tendência de aumento em praticamente todas as faixas etárias. “O câncer de cabeça e pescoço ainda é diagnosticado muito tarde no Brasil. Em regiões com menor acesso a serviços especializados, as lesões demoram mais para ser identificadas. Quando o paciente finalmente chega ao tratamento, a doença já está em estágio avançado, o que compromete muito as chances de cura”, diz o médico. Esse início silencioso é, segundo o Prof. Dr. Ramon, um dos grandes desafios quando se trata de tumores de cabeça e pescoço. “Muitas pessoas acabam ignorando os sintomas mais comuns, como feridas na boca que não cicatrizam, rouquidão persistente, dor ao engolir, dificuldade para mastigar, caroços no pescoço e manchas brancas ou avermelhadas na mucosa oral. O problema é que o atraso no diagnóstico é um dos principais responsáveis pela alta mortalidade. Quanto mais cedo a doença é descoberta, maiores são as chances de cura e menores são as sequelas do tratamento”, reforça.
O médico destaca que, atualmente, existem tratamentos, como cirurgias mais precisas, radioterapia moderna, quimioterapia e imunoterapias, que ampliaram de forma significativa as chances de controle da doença. “Hoje o prognóstico mudou bastante. Tumores descobertos em fases iniciais têm excelentes resultados. E mesmo nos casos mais avançados contamos com terapias mais eficazes do que no passado. Além disso, os cânceres de orofaringe relacionados ao HPV costumam responder melhor ao tratamento e apresentar sobrevida mais favorável”, explica. O maior desafio, segundo ele, continua sendo garantir que essas tecnologias cheguem a todos. “Reduzir a mortalidade por câncer de cabeça e pescoço no Brasil passa necessariamente por informação, prevenção e diagnóstico precoce”, diz o oncologista. Ele destaca que os achados do estudo são importantes, pois reforçam a necessidade de rever e intensificar as políticas públicas sobre o câncer de cabeça e pescoço. “As campanhas precisam acompanhar essa nova realidade e conversar com essa parcela do público que tem sido mais atingida, principalmente porque a prevenção envolve medidas tão simples como não fumar, evitar o consumo excessivo de álcool, manter boa higiene bucal e realizar consultas odontológicas regulares, além de receber a vacina contra o HPV”, finaliza o Prof. Dr. Ramon Andrade de Mello.
*PROF. DR. RAMON ANDRADE DE MELLO: Médico oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo), vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, pós-doutor clínico no Royal Marsden NHS Foundation Trust (Inglaterra), pesquisador honorário da Universidade de Oxford (Inglaterra), pesquisador sênior do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), professor visitante da Kent and Medway Medical School, University of Kent (Inglaterra), doutor (PhD) em Oncologia Molecular pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (Portugal). Tem MBA em gestão de clínicas, hospitais e indústrias da saúde pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo. É pesquisador e professor do doutorado da Universidade Nove de Julho (UNINOVE), em São Paulo, e membro do Conselho Consultivo da European School of Oncology (ESO). O oncologista tem mais de 120 artigos científicos publicados, é editor de quatro livros de Oncologia, entre eles o Medical Oncology Compendium, publicado pela Elsevier em 2024. É membro do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, e do Centro de Diagnóstico da Unimed, em Bauru (SP). CRMSP 181245 | RQE 67356 | Instagram: @dr.ramondemello
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
O Julho Verde reforça a importância da sensibilização para o cancro da cabeça e pescoço, uma doença que continua a ser frequentemente diagnosticada em fases avançadas. A crescente incidência entre as mulheres evidencia a necessidade de campanhas de prevenção mais abrangentes, maior literacia em saúde e acesso atempado ao diagnóstico, fatores essenciais para aumentar as hipóteses de tratamento e sobrevivência
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Estudo revela aumento dos casos femininos e reforça a urgência do diagnóstico precoce
Uma romântica que acredita no amor eterno. Redatora blog luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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