Obra de estreia revisita a seca de 1932, memória histórica e violência de Estado no Ceará
Rafael Caneca debate memória, exclusão social e literatura durante a Flip 2026
A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2026 recebe o escritor cearense Rafael Caneca, que apresenta ao público o romance de estreia "Não volte sem ele", uma obra que recupera um dos episódios mais esquecidos da história do Brasil: os chamados campos de concentração criados no Ceará durante a seca de 1932 para impedir a chegada de retirantes à capital.
Além da sessão de autógrafos, o autor participa em duas mesas de debate dedicadas a temas como memória, desigualdade social, racismo, violência de Estado e o papel da literatura na construção da consciência histórica.
Romance histórico recupera memória da seca de 1932
Resultado de aproximadamente dois anos de investigação histórica, "Não volte sem ele" acompanha a trajetória de Tomás, um jovem sertanejo que parte à procura do irmão desaparecido numa viagem marcada pela fome, pelo deslocamento forçado e pelo confinamento.
Ao transformar factos históricos em ficção, Rafael Caneca constrói uma narrativa que articula temas como memória, apagamento histórico, violência de Estado, políticas de exclusão, fé e sobrevivência, questionando simultaneamente a ideia de que apenas a esperança basta para enfrentar grandes tragédias.
"Minha intenção é apenas contar uma história", afirma o autor. "Mas é inevitável que o livro carregue algo muito pessoal: minha percepção de que muita gente se agarra à fé e à esperança como ferramentas para enfrentar tragédias. [...] Para mim, isso nunca foi suficiente. Fé e esperança, sozinhas, não impedem tragédias nem desfazem violências."
Narrativa privilegia realismo e intensidade emocional
A estrutura narrativa desenvolve-se de forma predominantemente linear, recorrendo apenas a momentos de memória e episódios de delírio que aprofundam a experiência vivida pelo protagonista.
Segundo Rafael Caneca, a opção foi afastar-se da tradicional "jornada do herói", privilegiando uma escrita directa, sem excessos formais, onde a crítica social surge ora de forma explícita, ora subtilmente integrada na narrativa.
O romance nasceu de um conto inicialmente desenvolvido no Coletivo Delirantes, expandindo-se posteriormente para uma obra de maior dimensão, movida pelo propósito de preservar a memória de um acontecimento histórico ainda pouco debatido.
"Resgato essa história como um reforço à memória e um lembrete para que ela nunca mais se repita", afirma o escritor.
Literatura social com influência dos grandes clássicos
Influenciado por Machado de Assis, Graciliano Ramos e José Saramago,Rafael Caneca aproxima-se da tradição do romance social brasileiro, mas desloca o foco para uma dimensão profundamente humana da tragédia, onde não existe necessariamente uma promessa de redenção ou consolo.
Rafael Caneca participa em debates e sessão de autógrafos na Flip 2026
Durante a programação da Flip 2026, o autor participa em diferentes actividades.
No dia 24 de julho, às 14h, integra a mesa "Classismo, racismo e ascensão social na literatura brasileira", ao lado de Maurício Mendes, Marcelo Nery e Carolina Santos, no espaço da Editora Orlando, instalado na Casa Opera.
Ainda no mesmo dia, às 16h, realiza uma sessão de autógrafos na Praça Aberta de Autores Independentes.
Já em 25 de julho, às 12h, regressa ao espaço da Orlando para participar na mesa "Luto, memória e cura na literatura", juntamente com Lucas Limão e Marcelo Nery, debatendo a capacidade da ficção para elaborar traumas individuais e colectivos.
Sobre Rafael Caneca
Natural de Fortaleza, onde reside, Rafael Caneca, de 40 anos, é licenciado em Direito pela Universidade Federal do Ceará e especialista em Direito Internacional pela Universidade de Fortaleza. Exerce funções como assessor jurídico no Ministério Público do Estado do Ceará.
Escreve desde criança e publicou o primeiro conto aos 14 anos. Foi distinguido com o Prémio de Literatura BNB Clube (2017), recebeu menções honrosas em concursos promovidos pelo Ideal Clube, integra o Coletivo Delirantes e mantém o projecto Pacote de Textos.
Com "Não volte sem ele", faz a sua estreia no romance, consolidando uma escrita marcada pelo diálogo entre investigação histórica, crítica social e ficção literária.
SERVIÇO:
Mesa: "Classismo, racismo e ascensão social na literatura brasileira"
Data: 24 de julho de 2026
Horário: 14h
Local: Espaço da Orlando, Casa Opera, Paraty (RJ)
Sessão de autógrafos
Data: 24 de julho de 2026
Horário: 16h
Local: Praça Aberta de Autores Independentes, Paraty (RJ)
Mesa: "Luto, memória e cura na literatura"
Data: 25 de julho de 2026
Horário: 12h
Local: Espaço da Orlando, Casa Opera, Paraty (RJ)
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NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
Ao recuperar um dos episódios mais esquecidos da história brasileira, "Não volte sem ele" confirma a importância da literatura como instrumento de preservação da memória colectiva. A participação de Rafael Caneca na Flip 2026 reforça o papel dos novos autores na reflexão sobre temas históricos, sociais e humanos que continuam a ecoar na actualidade, demonstrando que a ficção pode ser um poderoso meio de compreensão do passado e de construção de um futuro mais consciente.
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