Neurologista explica quando o treino reduz crises e quando exige cautela
Com orientação médica, a atividade física deixa de ser um gatilho e torna-se uma aliada da qualidade de vida
São Paulo – julho 2026 - A relação entre exercício físico e enxaqueca é menos linear do que parece. Para a maioria das pessoas, treinar melhora a saúde geral e reduz dores. No caso da enxaqueca, isso também é verdade, mas com nuances importantes. Segundo o neurologista Dr. Tiago de Paula*, médico neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), o exercício não é apenas aliado: ele é parte ativa do tratamento. “O exercício diminui a dor e ajuda no controle da doença, principalmente o exercício aeróbico. E funciona como tratamento”, explica. “Mas quando o paciente está com dor moderada e com a doença crônica, o exercício pode passar a ser um gatilho e o paciente muitas vezes precisa tomar remédio para fazer atividade física. Com o tratamento adequado para a enxaqueca nesses pacientes, o exercício é liberado de forma progressiva e será sempre útil para auxiliar no tratamento da enxaqueca”, acrescenta o médico.
A literatura científica reforça essa visão de que treinos aeróbicos moderados, realizados com regularidade, reduzem a frequência e a intensidade das crises. “Parte desse efeito vem da liberação mais estável de neurotransmissores envolvidos na modulação da dor, como endorfinas e serotonina, além de melhorias na qualidade do sono e na regulação do humor, fatores que também influenciam a enxaqueca”, destaca o médico.
Mas a atividade física não é um tratamento isolado para a enxaqueca. “A doença precisa ser diagnosticada e tratada por um neurologista que entenda a condição. Hoje, temos medicamentos como anticorpos monoclonais, considerados de primeira-linha para a enxaqueca. Eles bloqueiam o efeito do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), que contribui para a inflamação e transmissão de dor e está presente em maiores níveis em pacientes com enxaqueca”, detalha o neurologista. “Em pacientes com enxaqueca crônica mais grave, a combinação da toxina botulínica com os anti-CGRPs tem se mostrado mais eficaz do que o uso isolado dessas terapias”, diz. “Com a evolução esperada do tratamento, a atividade física ajudará a promover qualidade de vida e diminuir as crises do paciente”, destaca o médico.
Para quem vive com a condição, entender os limites é essencial. “Sinais como piora progressiva da dor durante o treino, náusea desproporcional, sensibilidade à luz e sensação de pressão na cabeça exigem pausa imediata. Já a retomada gradual, guiada por profissionais de saúde, ajuda a reintroduzir o exercício sem risco de agravar as crises”, diz o médico. As recomendações gerais preconizam a inclusão de exercícios aeróbicos moderados, como caminhada rápida, bicicleta ou natação, evitando treinos intensos em dias com dor prévia. “Também é necessário manter a hidratação adequada antes, durante e depois da atividade, estabelecer rotina de sono e alimentação estáveis e ajustar o ambiente de treino para minimizar estímulos sensoriais, como luz intensa ou música muito alta”, comenta o médico.
A mensagem central, segundo o Dr. Tiago, é que a relação entre exercício e enxaqueca é essencialmente positiva, desde que manejada com orientação adequada. “Com o tratamento correto e planos de treino ajustados, a atividade física deixa de ser uma ameaça e volta a ser um recurso terapêutico potente”, finaliza o neurologista.
*DR. TIAGO DE PAULA: Médico neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). Autor principal de estudo premiado como Melhor Pôster pelos participantes do Congresso Internacional de Cefaleia 2025, o médico tem especialização em Neurocefaleia pela EPM/UNIFESP, onde também realizou a graduação em Medicina e a residência médica em Neurologia. Atuou como preceptor dos ambulatórios de enxaqueca infantil, enxaqueca do adulto e migrânea vestibular da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e atualmente integra o corpo clínico do Headache Center Brasil, em São Paulo (SP). Pesquisador sobre dores de cabeça, o médico também é palestrante em congressos nacionais e internacionais e autor de artigos, capítulos, livros e publicações científicas. CRMSP 168999 | RQE 18111 | Instagram: @drtiagodepaula
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NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
A enxaqueca afeta milhões de pessoas em todo o mundo e continua a ser uma das condições neurológicas mais incapacitantes. Este artigo destaca a importância da atividade física como complemento terapêutico, reforçando que os benefícios do exercício dependem de uma abordagem personalizada e acompanhada por profissionais de saúde. Informação, prevenção e qualidade de vida caminham lado a lado no combate às crises de enxaqueca.
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