Redução de apenas 1% no IMC já está ligada a menor risco de câncer em até 10 anos
Mesmo uma perda de peso modesta já apresenta benefícios mensuráveis para a saúde
A obesidade é um importante fator de risco para diversos tipos de câncer, mas até então não se sabia o real impacto da perda de peso não cirúrgica na diminuição do risco de câncer. Mas um estudo publicado em março no periódico Obesity mostra que cada redução de 1% no IMC (Índice de Massa Corporal) foi associada a um menor risco de câncer relacionado à obesidade em 3 anos, 5 anos e 10 anos. IMC (Índice de Massa Corpórea) é um parâmetro utilizado pela Organização Mundial da Saúde e cujo valor é encontrado dividindo o peso (em kg) pela altura ao quadrado (em metros). “Treze tipos de câncer foram fortemente relacionados à obesidade, incluindo adenocarcinoma esofágico, cárdia gástrica, cólon e reto, fígado, vesícula biliar, pâncreas, mama pós-menopausa, endométrio e câncer de ovário, carcinoma de células renais, meningioma, câncer de tireoide e mieloma múltiplo. A hipótese é de que a obesidade aumente o risco de câncer por meio de múltiplos mecanismos inter-relacionados, incluindo desregulação hormonal, inflamação crônica e desequilíbrio de adipocinas”, esclarece o Prof. Dr. Ramon Andrade de Mello*, oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo) e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia. O estudo com 143.660 pacientes com IMC ≥ 30 a partir dos registros eletrônicos de saúde de um sistema integrado de saúde dos EUA (2000–2022).
O estudo utilizou modelos lineares generalizados e avaliou se a variação do IMC em intervalos de 3, 5 e 10 anos está associada ao risco de diagnóstico de cânceres relacionados à obesidade e outros tipos de câncer. “Os resultados mostraram que a redução do peso ao longo do tempo esteve associada a uma diminuição nas chances de desenvolver câncer. Entre os cânceres relacionados à obesidade, a perda de peso foi associada a um risco menor tanto em três quanto em cinco anos de acompanhamento. De acordo com os pesquisadores, uma redução de 5% no peso corporal esteve relacionada a uma queda de 4,9% na probabilidade de desenvolver esses tumores em três anos e de 5,4% em cinco anos”, diz o médico.
Segundo a endocrinologista Dra. Deborah Beranger*, endocrinologista com pós-graduação em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ), a obesidade pode favorecer o aparecimento de outras comorbidades que aumentam o risco de câncer e dificultam o tratamento. “A resistência à insulina, comum em pessoas com obesidade, obriga o pâncreas a produzir cada vez mais desse hormônio para manter os níveis de glicose sob controle. Com o tempo, esse esforço leva ao esgotamento das células beta pancreáticas e ao surgimento do diabetes tipo 2. Isso agrava o quadro de hiperglicemia. Quando associadas, obesidade e diabetes representam uma doença metabólica complexa que reflete fatores genéticos, sociais e de estilo de vida, como sedentarismo, alimentação inadequada e estresse. Essa associação aumenta o risco de complicações cardiovasculares, metabólicas e outras condições relacionadas. Em pacientes com ‘diabesidade’ (obesidade + diabetes), esses fatores se somam à hiperglicemia e à hiperinsulinemia, criando um ambiente propício para o desenvolvimento de tumores”, diz a Dra. Deborah.
A análise também identificou diferenças entre tipos específicos de câncer. A perda de peso esteve associada a menores chances de câncer de endométrio em todos os períodos avaliados (três, cinco e dez anos). Já no caso do carcinoma de células renais, a associação foi observada em três e cinco anos de acompanhamento. Para o mieloma múltiplo, a relação apareceu apenas no período mais longo, de dez anos. “Quando os pesquisadores analisaram o risco de qualquer tipo de câncer, os resultados seguiram a mesma tendência. Indivíduos que perderam peso apresentaram menor probabilidade de desenvolver câncer em três, cinco e dez anos. No caso de uma perda de peso de 5%, a redução estimada no risco foi de 3,9% em três anos, 3,0% em cinco anos e 4,4% em dez anos”, destaca o Prof. Dr. Ramon Andrade de Mello.
Segundo o estudo, a perda de peso em apenas três anos já esteve associada a menores chances de desenvolver sete categorias diferentes de câncer, incluindo tumores malignos do sistema digestivo. “Os resultados foram consistentes em homens e mulheres e também se mantiveram em diferentes análises estatísticas realizadas pelos pesquisadores, o que reforça a robustez dos achados”, completa o médico.
De acordo com a médica nutróloga Dra. Marcella Garcez*, diretora e professora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), tendo em vista que o fator alimentar é um dos principais riscos para a obesidade, uma abordagem testada e aprovada para evitar a doença leva em consideração uma dieta saudável de baixa caloria combinada com pelo menos 150 minutos de física. “Se o paciente está em sobrepeso, o balanço energético negativo, com ingestão de menos calorias do que o corpo gasta, é uma estratégia interessante, mas é necessário avaliar também a qualidade nutrológica dos alimentos ingeridos. De forma alguma 300kcal (calorias) de salada, vegetais e proteínas magras tem o mesmo efeito metabólico que 300kcal de algodão doce. Alimentos de calorias vazias, sem nutrientes, ricos em carboidratos simples, como os doces, aumentam o pico de insulina, que pode aumentar os riscos de desenvolver diabetes e doenças metabólicas (hipertensão, diabetes e dislipidemias)”, afirma a Dra. Marcella. “A terapia com medicamentos, em doses apropriadas, também pode ser indicada por um médico”, acrescenta. “Mas precisamos lembrar que a obesidade é uma doença crônica. Dessa forma, os medicamentos são indicados para facilitar a adoção dos novos hábitos alimentares e para os casos de muita dificuldade para controle da ingesta alimentar ou para tratar as queixas periféricas decorrentes do tratamento de emagrecimento. Os medicamentos são aliados, pois promovem resultados que, aliados à mudança do estilo de vida, dão esperança ao paciente”, completa a Dra. Marcella. “Tornar-se metabolicamente saudável por meio de estratégias de estilo de vida pode reduzir os riscos de ter câncer e melhorar as chances de sobrevivência para quem já tem câncer. Com inúmeras maneiras de melhorar os fatores de risco metabólicos, os pacientes podem assumir o controle de sua saúde, pelo menos até certo ponto. As decisões que eles tomam todos os dias podem fazer uma diferença dramática em seu risco de desenvolver câncer e outras doenças”, finaliza o Dr. Ramon Andrade de Mello.
*PROF. DR. RAMON ANDRADE DE MELLO: Médico oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo), vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, pós-doutor clínico no Royal Marsden NHS Foundation Trust (Inglaterra), pesquisador honorário da Universidade de Oxford (Inglaterra), pesquisador sênior do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), professor visitante da Kent and Medway Medical School, University of Kent (Inglaterra), doutor (PhD) em Oncologia Molecular pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (Portugal). Tem MBA em gestão de clínicas, hospitais e indústrias da saúde pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo. É pesquisador e professor do doutorado da Universidade Nove de Julho (UNINOVE), em São Paulo, e membro do Conselho Consultivo da European School of Oncology (ESO). O oncologista tem mais de 120 artigos científicos publicados, é editor de quatro livros de Oncologia, entre eles o Medical Oncology Compendium, publicado pela Elsevier em 2024. É membro do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, e do Centro de Diagnóstico da Unimed, em Bauru (SP). CRMSP 181245 | RQE 67356 | Instagram: @dr.ramondemello
*DRA. DEBORAH BERANGER: Endocrinologista, com pós-graduação em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ) e pós-graduação em Terapia Intensiva na Faculdade Redentor/AMIB. Com cursos de extensão em Obesidade, Transtornos Alimentares e Transgêneros pela Harvard Medical School, a médica tem MBAs de Saúde e Qualidade de Vida, de Marketing e Branding Médico e de Mindset, todos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), e curso de Obesidade e de imersão em Medicina Culinária pela Universidade de Campinas (UNICAMP). Fez Fellowship pela European Association for the Study of Obesity, em Portugal; é speaker dos laboratórios Servier, Novo Nordisk, Novartis, Merck, AstraZeneca, Lilly e Boehringer. CRM 52753912. Instagram: @deborahberanger
*DRA. MARCELLA GARCEZ: Médica nutróloga, Mestre em Ciências da Saúde pela Escola de Medicina da PUCPR, Diretora da Associação Brasileira de Nutrologia e Docente do Curso Nacional de Nutrologia da ABRAN. A médica é Membro da Câmara Técnica de Nutrologia do Conselho Federal de Medicina (CFM), Coordenadora da Liga Acadêmica de Nutrologia do Paraná e Pesquisadora em Suplementos Alimentares no Serviço de Nutrologia do Hospital do Servidor Público de São Paulo. Além disso, é membro da Sociedade Brasileira de Medicina Estética e da Sociedade Brasileira para o Estudo do Envelhecimento. CRMPR 12559 | RQE 16019. Instagram: @dra.marcellagarcez
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
A obesidade é reconhecida como um dos principais fatores de risco para diversos tipos de câncer. Este estudo reforça a importância da prevenção por meio de hábitos de vida saudáveis e do acompanhamento médico, mostrando que pequenas reduções no peso corporal podem traduzir-se em benefícios relevantes para a saúde a médio e longo prazo. A informação apresentada tem caráter jornalístico e informativo, não substituindo a avaliação individual por profissionais de saúde.
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Redatora Permanente do blog luso-brasileiro Portal Splish Splash. Uma sonhadora que acredita no verdadeiro amor, no romantismo e na felicidade, que carrega a fé em cada detalhe da vida. VER PERFIL
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