Estudo alerta que excesso ocasional de álcool agrava doença hepática silenciosa
Uma única noite de consumo excessivo por mês já pode comprometer a saúde do fígado
São Paulo – julho 2026 - As pessoas podem presumir que, se beberem pouco durante a semana ou o mês, o consumo excessivo episódico de álcool (conhecido como binge drinking), feito geralmente às sextas ou sábados, não causará danos ao fígado. Mas o “sextou” pode custar caro. Uma nova pesquisa publicada em abril no periódico Clinical Gastroenterology and Hepatology, mostra que pessoas com doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (DHEM), a doença hepática mais comum no país, que afeta um em cada três adultos, enfrentam um risco significativamente maior de fibrose hepática, ou cicatrizes prejudiciais no fígado, se praticarem o ‘binge drinking’.“O consumo excessivo episódico de álcool é definido como quatro ou mais doses em um único dia para mulheres e cinco ou mais doses em um único dia para homens, pelo menos uma vez por mês. A doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD) está entre as principais causas de doença hepática crônica no mundo, com risco elevado de cirrose e carcinoma hepatocelular (o tipo mais comum de câncer de fígado). O problema é que essa é uma doença silenciosa e a maioria dos pacientes não apresenta sintomas até estágios avançados”, alerta o Prof. Dr. Ramon Andrade de Mello*, oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo) e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia. Estudos demonstram aumento da prevalência global de MASLD de 25,3% (1990–2006) para 38% (2016–2019) no mundo, com a América Latina liderando (44,3%) esse aumento. “Outro ponto que contraindica o excesso de bebida mesmo que ocasionalmente é que até pacientes magros (dentro do IMC) podem ter doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, ou seja, muitos pacientes têm a doença e nem imaginam”, acrescenta a endocrinologista Dra. Deborah Beranger*, com pós-graduação em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ).
De acordo com os resultados do estudo, aqueles que consomem grandes quantidades de álcool em um único dia, pelo menos uma vez por mês, têm três vezes mais probabilidade de desenvolver fibrose hepática avançada do que indivíduos que distribuem a mesma ingestão total de álcool ao longo do tempo. “Adultos mais jovens e homens eram mais propensos a relatar consumo excessivo episódico de álcool, e quanto maior a quantidade de bebidas consumidas de uma só vez, maior a tendência de fibrose hepática. Este estudo é um grande alerta, porque tradicionalmente os médicos tendem a analisar a quantidade total de álcool consumida, e não a forma como é consumida, ao determinar o risco para o fígado”, diz o Dr. Ramon. “A pesquisa sugere que o público precisa estar muito mais consciente do perigo do consumo excessivo ocasional de álcool e deve evitá-lo, mesmo que beba moderadamente no resto do tempo”, completa a Dra. Deborah Beranger.
No estudo, os pesquisadores incluíram dados de mais de 8.000 adultos, coletados entre 2017 e 2023. Em particular, analisaram a relação entre o consumo excessivo episódico de álcool e a fibrose hepática avançada para entender como os padrões de consumo, e não apenas o número total de doses, podem causar danos até mesmo a bebedores moderados, definidos como sete doses por semana para mulheres e 14 ou menos para homens. “A MASLD geralmente afeta pessoas com excesso de peso e obesidade, mas outras condições metabólicas, como diabetes tipo 2, hipertensão ou colesterol alto também tem relação com o problema, que está em ascensão. Além disso, embora a MASLD não seja relacionada ao álcool, o objetivo do estudo era explorar se o álcool de fato desempenhava algum papel na piora da condição”, diz o Prof. Dr. Ramon. “A cicatrização extensiva e permanente distorce a estrutura interna do fígado e compromete gravemente suas funções, resultando em cirrose. Isso provoca insuficiência hepática (perda da capacidade do fígado de metabolizar toxinas e nutrientes) e aumenta o risco de desenvolvimento de hepatocarcinoma, especialmente em fases avançadas”, completa o oncologista.
Mais da metade dos adultos incluídos no estudo relataram consumo excessivo episódico de álcool e quase 16% dos pacientes com MASLD eram bebedores excessivos episódicos. “O consumo excessivo episódico de álcool pode prejudicar o fígado tanto direta quanto indiretamente. Ingerir grandes quantidades de álcool de uma só vez pode sobrecarregar o fígado e aumentar a inflamação, o que leva à formação de cicatrizes e danos”, explica a Dra. Deborah. “Embora este estudo tenha se concentrado em pacientes com MASLD, essas descobertas também podem ser pertinentes a uma população de pacientes mais ampla. O consumo excessivo episódico de álcool é um problema grave no Brasil, atingindo cerca de 34,7% dos adultos bebedores, que consomem 6 ou mais doses em uma única ocasião. A prática é mais comum entre homens, jovens e está associada à cerveja e ao aumento de comportamentos de risco. Por isso, essa questão merece mais atenção tanto de médicos quanto de pesquisadores para ajudar a entender, prevenir e tratar melhor as doenças hepáticas”, finaliza a Dra. Deborah.
*PROF. DR. RAMON ANDRADE DE MELLO: Médico oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo), vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, pós-doutor clínico no Royal Marsden NHS Foundation Trust (Inglaterra), pesquisador honorário da Universidade de Oxford (Inglaterra), pesquisador sênior do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), professor visitante da Kent and Medway Medical School, University of Kent (Inglaterra), doutor (PhD) em Oncologia Molecular pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (Portugal). Tem MBA em gestão de clínicas, hospitais e indústrias da saúde pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo. É pesquisador e professor do doutorado da Universidade Nove de Julho (UNINOVE), em São Paulo, e membro do Conselho Consultivo da European School of Oncology (ESO). O oncologista tem mais de 120 artigos científicos publicados, é editor de quatro livros de Oncologia, entre eles o Medical Oncology Compendium, publicado pela Elsevier em 2024. É membro do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, e do Centro de Diagnóstico da Unimed, em Bauru (SP). CRMSP 181245 | RQE 67356 | Instagram: @dr.ramondemello
*DRA. DEBORAH BERANGER: Endocrinologista, com pós-graduação em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ) e pós-graduação em Terapia Intensiva na Faculdade Redentor/AMIB. Com cursos de extensão em Obesidade, Transtornos Alimentares e Transgêneros pela Harvard Medical School, a médica tem MBAs de Saúde e Qualidade de Vida, de Marketing e Branding Médico e de Mindset, todos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), e curso de Obesidade e de imersão em Medicina Culinária pela Universidade de Campinas (UNICAMP). Fez Fellowship pela European Association for the Study of Obesity, em Portugal; é speaker dos laboratórios Servier, Novo Nordisk, Novartis, Merck, AstraZeneca, Lilly e Boehringer. CRM 52753912. Instagram: @deborahberanger
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NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
Embora a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica não seja causada pelo consumo de álcool, evidências científicas indicam que episódios de consumo excessivo podem acelerar sua progressão e aumentar o risco de fibrose, cirrose e câncer de fígado. O Portal Splish Splash incentiva hábitos de vida saudáveis e reforça a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do acompanhamento médico, especialmente para pessoas com fatores de risco metabólicos.
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