SIG mapeia risco de contaminação em viveiros de peixes

Pesquisa Embrapa-Itália usa SIG para mapear risco de contaminação entre viveiros de peixes em mesma bacia hidrográfica e criar sistema de alerta preco
Mapa de risco sanitário gerado por SIG mostrando viveiros de peixes classificados por nível de contaminação em bacia hidrográfica

Cooperação Brasil-Itália cria sistema de alerta para doenças em peixes


Peixes parasitados pelo acantocéfalo podem perder até 20% do ganho de peso, representando prejuízo significativo para produtores da Amazônia que já operam com margens apertadas

Um estudo conduzido pela Embrapa Pesca e Aquicultura, no Tocantins, revelou que enfermidades em peixes podem se espalhar por meio da conectividade hidrológica quando os viveiros compartilham a mesma bacia hidrográfica. A constatação surgiu da aplicação, pela primeira vez no Brasil, de um protocolo criado na Itália para monitorar doenças em animais aquáticos. No futuro, essa metodologia pode ajudar a controlar surtos sanitários em pisciculturas brasileiras. O trabalho foi publicado na revista Frontiers in Marine Science.

O trabalho nasceu de uma parceria técnico-científica entre a Embrapa e o Istituto Zooprofilattico Sperimentale delle Venezie (IZSVe), da Itália. Foi empregada uma ferramenta inovadora baseada em Sistemas de Informações Geográficas (SIG, ou GIS em inglês) para desenvolver um modelo de alerta precoce de doenças em animais aquáticos. Isso possibilitou a criação de um mapa que classifica os viveiros da área estudada conforme seu risco de contaminação — alto, médio ou baixo.

A metodologia foi inicialmente desenvolvida pelos italianos para a área de saúde de animais aquáticos, aproveitando a experiência acumulada pelo IZSVe em vigilância e controle de emergências sanitárias, incluindo a influenza aviária. No Brasil, foi adaptada e testada com foco no acantocéfalo, um dos parasitas mais comuns em tambaquis.

"Escolhemos trabalhar com o acantocéfalo porque tínhamos muitos dados sobre essa doença no tambaqui (Colossoma macropomum) e também por ser a principal enfermidade que acomete a espécie. Além disso, em 2015, houve um surto em Rondônia e precisávamos obter mais informações sobre sua propagação", explica Patricia Oliveira Maciel, pesquisadora da Embrapa Pesca e Aquicultura.

O geógrafo Rodrigo Macario, que atua no IZSVe, destaca alguns motivos que justificam a relevância do projeto. "Primeiro, fortalece a colaboração entre duas instituições públicas muito importantes em seus respectivos países: Embrapa, no Brasil, e IZSVe, na Itália. Também é importante porque nos permitiu aplicar um arcabouço metodológico baseado em Sistemas de Informações Geográficas a um contexto concreto da aquicultura brasileira".

Segundo o pesquisador, não se trata apenas de produzir mapas ou utilizar ferramentas digitais, mas de estruturar de forma mais organizada a leitura do território e as relações espaciais que podem afetar a saúde dos animais aquáticos. "Isso é particularmente relevante porque a saúde na aquicultura não depende apenas do que acontece dentro de uma única fazenda ou planta. Também está ligada ao território onde a produção está localizada, à rede hidrográfica, ao fluxo de água, à proximidade entre produtores, às características ambientais e à forma como o espaço de produção é organizado e utilizado", esclarece. "Essa experiência mostrou, de forma concreta, como geografia, SIG e saúde animal aquática podem dialogar dentro de uma abordagem estruturada e relacionada ao território", complementa.

Como tudo começou

A pesquisa teve início quando a pesquisadora da Embrapa Pesca e Aquicultura, Ana Paula Oeda, participou de um congresso da World Aquaculture Society (WAS). Na ocasião, ela conheceu um pesquisador italiano que trabalhava com análise espacial aplicada à aquicultura. O IZSVe, instituição à qual ele estava vinculado, já possuía uma trajetória consolidada no uso de ferramentas geoespaciais para mitigação de doenças, incluindo a influenza aviária, e havia desenvolvido um protocolo para conter surtos sanitários com base em análises de conectividade hídrica.

Naquele momento, o instituto italiano mantinha um projeto em andamento com o objetivo de criar protocolos baseados em SIG para contenção de doenças em animais aquáticos, e necessitava de um estudo de caso real para validar a metodologia em ambientes terrestres, como pisciculturas interligadas pela mesma hidrologia.

A pesquisadora Patricia Maciel, especialista em sanidade, e a geógrafa da Embrapa Amazônia Oriental (PA) - Marta Ummus, mestre em Sensoriamento Remoto, lideraram o estudo, elegendo como objeto de pesquisa a transmissão do acantocéfalo.

O parasita possui um ciclo de vida relativamente conhecido. Seus ovos são eliminados nas fezes dos peixes infectados e, ao caírem na água, são ingeridos por ostracodes, pequenos crustáceos que funcionam como hospedeiros intermediários. Os peixes saudáveis se contaminam ao se alimentarem desses ostracodes infectados. O ciclo completo dura aproximadamente dois meses.

"O impacto econômico da infecção é significativo. Estima-se que peixes parasitados deixem de ganhar até 20% do peso esperado em comparação com animais saudáveis, o que, em escala comercial, representa perda considerável de produtividade e elevação dos custos de produção", ressalta Ummus. "Para um produtor da Amazônia, que já enfrenta desvantagens logísticas em relação a outras regiões do país, cada ponto percentual de perda faz diferença no orçamento", acrescenta.

Desafios na obtenção de dados

Se a escolha do patógeno foi relativamente simples, o mesmo não se pode dizer da coleta de dados. A aplicação do protocolo SIG exige informações georreferenciadas sobre a ocorrência da doença, idealmente fornecidas pelos órgãos estaduais de defesa sanitária animal. Contudo, não foi possível obter os dados primários devido a questões de segurança e política institucional dos órgãos envolvidos.

Diante desse obstáculo, a saída foi utilizar dados secundários. A equipe recorreu a informações de um artigo científico recentemente publicado, que trazia pontos georreferenciados de ocorrência de acantocéfalo em tambaquis no estado de Rondônia, justamente a região onde a equipe pretendia realizar o estudo.

A situação acendeu um alerta entre os pesquisadores. Sem políticas públicas que assegurem o compartilhamento de dados sanitários entre órgãos oficiais e instituições de pesquisa, o desenvolvimento de ferramentas de vigilância e alerta precoce fica bastante limitado. "Precisamos de uma política de dados mais transparente", defende Ummus. "Na Itália, ao contrário do Brasil, há um controle maior no georreferenciamento de pisciculturas e seus problemas de sanidade. Aqui há muitas criações funcionando na informalidade, o que prejudica o acesso a dados espaciais e sanitários", pontua.

Segundo Macario, na Itália e na União Europeia, esse tema é tratado dentro de um sistema regulatório estruturado de sanidade animal. No caso da aquicultura, o produtor possui responsabilidades sanitárias específicas. "Em situações como mortalidade anormal, sinais graves de doença ou queda significativa da produção sem causa conhecida, ele deve acionar um veterinário para que a situação seja avaliada e, se necessário, encaminhada aos serviços oficiais", explica.

Funcionamento do protocolo SIG

O protocolo validado no estudo confirmou que a água é um grande vetor de transmissão de patógenos, mesmo a longas distâncias. As análises consideram as direções do fluxo das águas de uma corrente fluvial: jusante é quando seguem o fluxo normal, em direção à foz, e montante é quando se dirigem à nascente, ou seja, contracorrente. Se uma propriedade está a montante de outra e há conectividade hídrica entre elas, o fluxo de água transporta ovos, cistos, bactérias ou vírus, dependendo do agente infeccioso.

O estudo mapeou exatamente quais propriedades estavam em cada categoria de risco na região analisada, gerando um retrato inédito da vulnerabilidade sanitária da cadeia aquícola local.

Conforme Ummus, o mapeamento começa com a identificação e localização de todas as propriedades aquícolas em uma bacia hidrográfica. Em seguida, calcula-se a conectividade hídrica entre elas, ou seja, quais propriedades estão ligadas pelo mesmo curso d'água e em que posição (montante ou jusante) cada uma se encontra.

Com essas informações em mãos, o sistema classifica as propriedades em categorias de risco:
  • Alto risco: propriedades a jusante de uma fonte de infecção confirmada, diretamente conectadas pelo fluxo hídrico.
  • Médio risco: propriedades em áreas de conectividade indireta ou sazonal.
  • Baixo risco: propriedades sem conectividade hídrica com focos conhecidos da doença.
"No caso de Rondônia, na Bacia do Rio Machado, há uma particularidade importante. Assim como em outros locais da região amazônica, é comum que os tanques sejam escavados diretamente no leito dos igarapés. Isso cria uma conectividade hídrica praticamente permanente entre as propriedades, o que, do ponto de vista sanitário, aumenta significativamente o risco de propagação de patógenos", destaca Maciel.

Um sistema de alerta precoce para a aquicultura

A validação do protocolo abre caminho para aplicações práticas de alto impacto. A principal delas é a criação de um sistema de alerta precoce para doenças em animais aquáticos.

"O raciocínio é o seguinte: uma vez confirmado um caso de determinada doença em uma propriedade aquícola, o protocolo SIG permite identificar imediatamente quais outras propriedades estão em risco — e em que grau — com base na conectividade hídrica", ressalta Ummus. "Com essa informação em mãos, os serviços de defesa sanitária podem direcionar recursos de vigilância e contenção para as áreas mais críticas, otimizando o uso de equipes, insumos e laboratórios", avalia.

Uma vez detectado um foco de infecção, as propriedades a jusante devem ser monitoradas por um período de até dois meses, tempo equivalente ao ciclo de vida do acantocéfalo. Para patógenos com ciclos diferentes, o período de monitoramento pode ser ajustado proporcionalmente.

Outro ponto destacado pela equipe é a necessidade de um melhor controle da movimentação de peixes — especialmente de alevinos (formas jovens) — e da água do transporte entre as propriedades. O trânsito de animais vivos é uma das principais rotas de disseminação de doenças na aquicultura, e sua regulação ainda é incipiente em grande parte do território nacional.

O caráter universal do protocolo

Um dos pontos positivos da ferramenta validada é a sua universalidade. Embora o estudo de caso tenha focado no acantocéfalo, o protocolo SIG é neutro em relação ao agente infeccioso. Desde que o modo de transmissão seja pela água, a metodologia se aplica.

"Cada um exigirá ajustes nos parâmetros — tempo de sobrevivência no ambiente, período de incubação, dose infectante mínima —, mas a estrutura básica de análise espacial permanece a mesma", esclarece Ummus.

Para a equipe de pesquisa, esse caráter genérico é o que confere ao protocolo o seu maior potencial de impacto. Ele não é uma solução para um problema específico, mas uma plataforma metodológica que pode ser empregada continuamente, adaptada a diferentes contextos e patógenos, e incorporada a políticas públicas de sanidade aquícola.

Obstáculos a serem superados

Apesar do avanço representado pela validação do protocolo, os pesquisadores apontam os desafios que ainda precisam ser superados para que a ferramenta chegue efetivamente ao campo.

O primeiro deles é a já mencionada restrição de acesso a dados primários. Sem a colaboração ativa dos órgãos estaduais de defesa sanitária, qualquer sistema de alerta precoce irá operar com informações incompletas ou defasadas.

O segundo é a informalidade na aquicultura amazônica e de regiões fronteiriças. Muitos produtores da região não possuem licenciamento ambiental, nem registro nos órgãos competentes, o que os coloca à margem dos sistemas oficiais de vigilância.

O terceiro ponto é a falta de integração vertical na cadeia produtiva. Diferentemente de setores como o de frangos e suínos, onde a integração entre produtores e indústria permite rastreabilidade sanitária, a aquicultura amazônica opera majoritariamente de forma fragmentada. Cada elo da cadeia — produção de alevinos, engorda, abate, processamento — funciona de maneira independente, o que dificulta o fluxo de informações sanitárias e a implementação de medidas coordenadas de contenção.

"A aquicultura brasileira tem potencial para crescer de forma sustentável e competitiva, mas isso passa necessariamente pelo fortalecimento dos sistemas de vigilância sanitária. E, nesse campo, a inteligência geográfica pode ser uma aliada poderosa, desde que haja dados, política pública e vontade institucional para colocá-la em prática", conclui Ummus.
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
A sanidade aquícola é um pilar essencial para o desenvolvimento sustentável da piscicultura nacional. Este estudo demonstra que tecnologia e cooperação internacional podem gerar soluções práticas, mas sua efetividade depende de vontade política, transparência de dados e formalização do setor.
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