Nova regulamentação exige das empresas uma gestão estratégica dos riscos psicossociais
Saúde mental deixou de ser benefício e passou a ser prioridade estratégica
A partir de 25 de maio de 2026, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) passa a exigir que as empresas incluam, obrigatoriamente, a gestão dos riscos psicossociais em seus Programas de Gerenciamento de Riscos (PGR). Estresse ocupacional, assédio moral, burnout, violência no ambiente de trabalho, sobrecarga e conflitos interpessoais deixam de ser temas periféricos para ocupar posição central na fiscalização trabalhista e na governança corporativa.
A mudança representa uma transformação significativa na forma como as organizações devem lidar com a saúde mental de seus colaboradores. Mais do que ações pontuais de bem-estar, a nova regulamentação exige uma análise aprofundada da organização do trabalho, considerando fatores como jornadas, metas, pressão por resultados, autonomia profissional e qualidade das relações interpessoais.
Para a psicóloga social e do trabalho, consultora estratégica em saúde mental e palestrante Eliana Sorrini, o tema precisa ser tratado com a seriedade que merece. Segundo ela, o Brasil vive uma contradição preocupante. Conhecido mundialmente pela alegria de seu povo, o país lidera índices globais de ansiedade e apresenta elevados números de afastamentos relacionados à saúde mental.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e pesquisas conduzidas pelo Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (IPq-USP) reforçam esse cenário, evidenciando o impacto crescente dos transtornos emocionais na vida pessoal e profissional dos brasileiros.
“Elas não podem mais enxergar a saúde mental apenas como uma exigência regulatória. É necessário estruturar um modelo de gestão capaz de identificar, priorizar e atuar continuamente sobre os riscos psicossociais, integrando essas ações ao negócio”, destaca Eliana Sorrini.
A especialista ressalta ainda que a atualização da NR-1 aumenta significativamente o nível de responsabilidade da alta liderança. A efetividade das ações implementadas, a qualidade dos processos internos e a capacidade de monitorar resultados passam a ser fatores determinantes para a conformidade das organizações.
Saúde Mental é Investimento, Não Despesa
Na avaliação de Eliana Sorrini, muitas empresas ainda insistem em soluções superficiais para problemas estruturais. Iniciativas isoladas, embora positivas, não substituem uma estratégia consistente de prevenção e gestão dos riscos psicossociais.
Segundo a consultora, a verdadeira promoção da saúde mental envolve enfrentar causas profundas, como modelos de gestão baseados na pressão excessiva, ambientes tóxicos, assédio moral e ausência de autonomia profissional.
Os impactos financeiros também são expressivos. Um afastamento por questões de saúde mental pode custar, em média, até três vezes o salário do colaborador, considerando perdas de produtividade, substituições, treinamentos e custos indiretos relacionados ao clima organizacional.
Empresas que investem em ambientes psicologicamente seguros tendem a apresentar melhores indicadores de produtividade, engajamento, retenção de talentos e sustentabilidade dos negócios.
A realidade brasileira, entretanto, ainda está distante desse cenário ideal. Um levantamento realizado pelo fórum HR First Class Rio de Janeiro, com 300 lideranças de Recursos Humanos, revelou que apenas 10,7% das empresas possuem programas de saúde mental plenamente estruturados.
Entre os principais obstáculos apontados estão a dificuldade de mensurar resultados (41,1%) e as limitações orçamentárias ou concorrência com outras prioridades estratégicas (28,6%).
Por outro lado, organizações que já possuem programas mais maduros relatam ganhos superiores a 20% em indicadores como redução do absenteísmo, diminuição do presenteísmo, aumento da produtividade e queda nos custos relacionados à saúde.
Para Eliana Sorrini, os números evidenciam uma diferença clara entre empresas que tratam a saúde mental como um ativo estratégico e aquelas que ainda enxergam o tema como uma iniciativa complementar.
A especialista defende que o Brasil precisa resgatar sua reconhecida alegria de forma autêntica, baseada em segurança psicológica, respeito aos limites humanos e ambientes de trabalho saudáveis. Para ela, o momento exige menos ações cosméticas e mais comprometimento com a construção de culturas organizacionais que promovam bem-estar, desenvolvimento e resultados sustentáveis.
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
A atualização da NR-1 marca um novo capítulo nas relações de trabalho no Brasil. Mais do que atender à legislação, as empresas são chamadas a repensar seus modelos de gestão, reconhecendo que produtividade e saúde mental caminham juntas. Em um cenário de crescente adoecimento emocional, investir em ambientes corporativos saudáveis deixou de ser diferencial competitivo para se tornar uma necessidade estratégica e humana.
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Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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