Obesidade e pressão alta elevam risco de demência

Estudo revela que obesidade e hipertensão podem aumentar o risco de demência, reforçando a importância da prevenção e do controlo do peso.
 Ilustração sobre a relação entre obesidade, hipertensão arterial e aumento do risco de desenvolver demência ao longo da vida.

Estudo reforça a importância da prevenção precoce para proteger a saúde cerebral


O cérebro também sente os impactos do excesso de peso


São Paulo – junho 2026 - A demência é diminuição, lenta e progressiva, da função mental, geralmente relacionada ao envelhecimento, e hoje se configura como um desafio crescente de saúde pública global, sem cura disponível atualmente. Pessoas com demência experimentam um declínio acentuado nas habilidades mentais, como memória, pensamento e raciocínio. Mas um estudo recente publicado no The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism mostrou que o alto índice de massa corporal (IMC) e a hipertensão são causas diretas da demência. “A obesidade é uma preocupação crescente de saúde pública, aumentando o risco de diversas doenças, incluindo diabetes, doença cardiovascular aterosclerótica, certos tipos de câncer e morte prematura. No entanto, a relação entre obesidade e demência tem sido debatida há décadas, com resultados conflitantes em diversos estudos de caso-controle e prospectivos. Além de fatores genéticos, a demência pode ser causada por pelo menos três itens que têm relação com a obesidade: o estilo de vida, inflamação crônica e problemas cardiovasculares. Dessa forma, o tratamento e a prevenção do IMC elevado e da hipertensão representam uma oportunidade inexplorada para a prevenção da demência”, diz a Dra. Deborah Beranger*, endocrinologista, com pós-graduação em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ).

A demência é uma doença neurodegenerativa devastadora que atualmente afeta 50 milhões de pessoas em todo o mundo, com um aumento acentuado na prevalência. “As opções de tratamento e prevenção para a demência são escassas, o que reforça a necessidade de identificar fatores de risco causais modificáveis”, diz a endocrinologista. As formas mais comuns de demência são a doença de Alzheimer, a demência vascular e a demência mista.

No estudo, os pesquisadores analisaram dados de participantes em Copenhague e no Reino Unido e identificaram uma ligação causal entre o excesso de peso corporal e a demência. “Eles conseguiram estabelecer uma relação causal direta entre o IMC elevado e a demência porque utilizaram um método de randomização mendeliana, que simula um ensaio clínico randomizado. Nesse método, variantes genéticas comuns que causam IMC elevado são usadas como indicadores para medicamentos que alteram o IMC. Como o medicamento ativo versus o placebo é atribuído aleatoriamente devido ao processo de randomização em ensaios clínicos, e como as variantes genéticas que aumentam o IMC versus variantes neutras são distribuídas aleatoriamente entre pais e filhos, os efeitos sobre o desfecho da doença serão claros e não afetados por fatores de confusão”, explica a médica. “Portanto, com essa estratégia, os pesquisadores descobriram que a demência pode ser causada pelo efeito da hipertensão arterial no cérebro, de forma que um IMC elevado é uma causa direta de hipertensão arterial”, destaca a endocrinologista.

Grande parte desse aumento no risco de demência parece ser impulsionado pela hipertensão arterial, sugerindo que a prevenção ou o tratamento da obesidade e da hipertensão podem ajudar a reduzir o risco de demência, segundo a médica. “Medicamentos para perda de peso foram recentemente testados para interromper o declínio cognitivo nas fases iniciais da doença de Alzheimer, mas sem efeito benéfico. Uma questão em aberto que ainda precisa ser investigada é se a medicação para perda de peso iniciada antes do aparecimento dos sintomas cognitivos pode ser protetora contra a demência”, diz a endocrinologista. “Pelos que os dados atuais sugerem, as intervenções precoces para perda de peso podem prevenir a demência, especialmente a demência de origem vascular. Mas é fundamental buscar auxílio de um médico, nutricionista e profissional de Educação Física para que a perda de peso seja sustentada, reduzindo os riscos de danos neurológicos”, finaliza a médica.

*DRA. DEBORAH BERANGER: Endocrinologista, com pós-graduação em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ) e pós-graduação em Terapia Intensiva na Faculdade Redentor/AMIB. Com cursos de extensão em Obesidade, Transtornos Alimentares e Transgêneros pela Harvard Medical School, a médica tem MBAs de Saúde e Qualidade de Vida, de Marketing e Branding Médico e de Mindset, todos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), e curso de Obesidade e de imersão em Medicina Culinária pela Universidade de Campinas (UNICAMP). Fez Fellowship pela European Association for the Study of Obesity, em Portugal; é speaker dos laboratórios Servier, Novo Nordisk, Novartis, Merck, AstraZeneca, Lilly e Boehringer. Instagram: @deborahberanger
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
A crescente incidência da obesidade e da hipertensão representa um dos maiores desafios de saúde pública da atualidade. O estudo destacado nesta matéria reforça a importância de hábitos saudáveis e do acompanhamento médico regular não apenas para prevenir doenças cardiovasculares, mas também para proteger a saúde cognitiva ao longo da vida. Ao identificar fatores de risco modificáveis para a demência, a ciência abre novas perspetivas para estratégias preventivas capazes de reduzir o impacto de uma das doenças mais preocupantes do envelhecimento populacional.
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