Estudo com mais de 421 mil pessoas desmonta mitos sobre emoções e risco de cancro
A culpa não provoca cancro, mas pode agravar o sofrimento de quem o enfrenta
"A evidência científica afasta a ideia de
que emoções reprimidas causam tumores."
Alda Jesus
São Paulo – Junho 2026 - Ainda é muito comum a ideia de que emoções reprimidas, luto e o sofrimento no geral podem causar câncer. Mas uma nova pesquisa indica que fatores psicossociais, que influenciam a forma como uma pessoa percebe, interpreta e reage ao ambiente ao seu redor, não afetam o risco de um indivíduo desenvolver câncer. ““Existe um mito muito enraizado de que emoções negativas ‘se transformam’ em câncer, mas isso não encontra respaldo científico. Esse tipo de crença, além de incorreta, pode gerar culpa desnecessária no paciente. O câncer é uma doença complexa em que há uma estimativa de que de 90 a 95% dos casos sejam mutações que ocorram ao longo da vida provocadas por fatores ambientais e do estilo de vida, além de um componente genético. Mas incluir depressão, emoção reprimida e luto como causas do câncer acabam por culpar o paciente pela sua própria doença. E esse estudo mostra que essa relação direta não tem fundamentos”, explica o Dr. Ramon Andrade de Mello*, oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo), vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia. “Cuidar da saúde mental é importante e fundamental em diversos aspectos da vida, mas isso por si só não minimiza o risco de câncer. Não há como jogar uma carga extra nas costas de pacientes que já enfrentam as dificuldades do tratamento oncológico”, acrescenta o médico. As descobertas foram publicadas no final de março na revista CANCER, um periódico científico da Sociedade Americana do Câncer.
Para o estudo, os fatores psicossociais considerados foram suporte social percebido (SSP), luto, estado civil, neuroticismo (um dos principais traços de personalidade que se refere à tendência de uma pessoa para sentir emoções negativas, como a ansiedade, a tristeza, a irritabilidade e a preocupação) e sofrimento psicológico geral. Anteriormente, os autores publicaram um estudo mostrando que a depressão e ansiedade não estão relacionadas a um risco aumentado para a maioria dos tipos de câncer. Já nesse trabalho, os investigadores examinaram dados do consórcio Fatores Psicossociais e Câncer (PSY-CA), uma colaboração internacional de pesquisa financiada pela Sociedade Holandesa de Câncer que analisa informações de estudos prospectivos para avaliar se esses fatores psicossociais estão associados a um risco aumentado de desenvolvimento de câncer. “O PSY-CA passou os últimos anos pesquisando uma crença comum: a de que a saúde mental precária ou outros potenciais fatores de estresse psicossocial podem aumentar o risco de desenvolver câncer. Os resultados não corroboram essa noção”, diz o médico. “Na análise de 421.799 indivíduos que tiveram fatores psicossociais medidos em um único momento, nenhum fator psicossocial foi associado a um risco elevado de câncer em geral, ou a riscos aumentados de câncer de mama, próstata, colorretal e cânceres com o álcool como um fator causal potencial comum”, diz o médico. A percepção de apoio social, o fato de não estar em um relacionamento atualmente e a perda de um ente querido foram associados a um risco maior de câncer de pulmão, mas a maioria desses riscos diminuiu após o ajuste para fatores de risco conhecidos, incluindo tabagismo e histórico familiar de câncer. “Quando ajustamos para fatores de risco já conhecidos, como o tabagismo, essas associações praticamente desaparecem, o que mostra que o comportamento e a exposição ambiental continuam sendo determinantes muito mais relevantes”, explica.
As conclusões foram semelhantes para homens e mulheres. O médico destaca que o presente estudo possui vários pontos fortes, nomeadamente o tamanho da amostra, a duração do acompanhamento, a medida de desfecho relativamente objetiva do câncer, a disponibilidade de várias covariáveis e a consistência na definição das variáveis psicossociais de interesse. “O grande diferencial desse estudo é a robustez metodológica. Estamos falando de uma amostra muito ampla, com acompanhamento consistente, o que fortalece bastante a confiabilidade dos resultados”, destaca.
Por fim, o médico reforça que quando se sugere que o câncer tem origem emocional, ainda que de forma indireta, há um risco de responsabilizar o paciente pela própria doença. “Isso é perigoso do ponto de vista psicológico e não condiz com a evidência científica atual”, ressalta. Apesar de os fatores emocionais não estarem associados ao risco de desenvolver câncer, especialistas reforçam que o cuidado com a saúde mental continua sendo essencial ao longo do tratamento. O diagnóstico oncológico costuma vir acompanhado de ansiedade, medo e incertezas, o que pode impactar diretamente a adesão ao tratamento e a qualidade de vida. “A saúde mental não causa câncer, mas influencia profundamente a forma como o paciente enfrenta a doença. Oferecer suporte psicológico adequado é parte fundamental de um tratamento oncológico humanizado e baseado em evidências”, conclui o Dr. Ramon Andrade de Mello.
*DR. RAMON ANDRADE DE MELLO: Médico oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo), vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, Pós-Doutor clínico no Royal Marsden NHS Foundation Trust (Inglaterra), pesquisador honorário da Universidade de Oxford (Inglaterra), pesquisador sênior do CNPQ (Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico), Brasil, vice-líder do programa de Mestrado em Oncologia da Universidade de Buckingham (Inglaterra), Doutor (PhD) em Oncologia Molecular pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (Portugal). Tem MBA em gestão de clínicas, hospitais e indústrias da saúde pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), São Paulo. É pesquisador e professor do Doutorado da Universidade Nove de Julho (UNINOVE), de São Paulo. Membro do Conselho Consultivo da European School of Oncology (ESO). O oncologista tem mais de 122 artigos científicos publicados, é editor de 4 livros de Oncologia, entre eles o Medical Oncology Compendium, Elsevier, de 2024. É membro do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, e do Centro de Diagnóstico da Unimed, em Bauru, SP. CRMSP 181245 | RQE 67356. Instagram: @dr.ramondemello
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
A relação entre emoções e doença continua a gerar dúvidas e interpretações erradas. Este estudo reforça a importância de distinguir crenças populares de evidências científicas, contribuindo para uma abordagem mais humana, informada e livre de estigmas no acompanhamento de pessoas com cancro. Combater a desinformação é também uma forma de cuidar da saúde.
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Estudo com mais de 421 mil pessoas desmonta mitos sobre emoções e risco de cancro
Uma romântica que acredita no amor eterno. Redatora do Portal Splish Splash. VER PERFIL
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