Uso excessivo de analgésicos agrava a enxaqueca

Estudo do The Lancet revela que o uso excessivo de analgésicos pode agravar a enxaqueca, aumentar a incapacidade e dificultar o tratamento.

Ilustração sobre enxaqueca agravada pelo uso excessivo de analgésicos e medicamentos para dor de cabeça


Estudo do The Lancet alerta para o risco de cronificação e incapacidade


O remédio que alivia hoje pode intensificar a dor de amanhã

São Paulo – junho 2026 - Um dos maiores estudos epidemiológicos do mundo sobre cefaleias acaba de reforçar um alerta que neurologistas fazem há anos: o uso excessivo de medicamentos, inclusive os de venda livre, pode transformar a dor de cabeça em um problema crônico, mais incapacitante e difícil de tratar. A conclusão está no Estudo Global da Carga de Doenças, Lesões e Fatores de Risco (GBD) 2023, publicado pelo The Lancet , que analisou dados de 1990 a 2023 sobre enxaqueca, cefaleia tensional e cefaleia associada ao uso excessivo de medicamentos. “Muitos pacientes acreditam que estão tratando a enxaqueca quando, na prática, entram em um ciclo de piora da dor. O uso frequente de analgésicos pode sensibilizar ainda mais o sistema nervoso, tornando as crises mais frequentes, mais intensas e mais resistentes ao tratamento”, explica o neurologista Dr. Tiago de Paula*, especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC).

De acordo com o levantamento, 2,9 bilhões de pessoas em todo o mundo conviviam com algum tipo de cefaleia em 2023, o que corresponde a uma prevalência global de 34,6%. O estudo também mediu a taxa de Anos Vividos com Incapacidade (YLD - Years Lived with Disability), uma equação que mede o tempo de vida saudável perdido devido a doenças não fatais ou lesões, calculado pela prevalência da condição multiplicada pelo seu peso de incapacidade. “A enxaqueca foi responsável pela maior parcela de incapacidade, com 487,5 anos vividos com incapacidade por 100 mil habitantes, consolidando-se como uma das principais causas de perda de qualidade de vida em adultos jovens. Mas sem dúvida o dado mais preocupante do estudo é o peso da cefaleia por uso excessivo de medicamentos, uma condição frequentemente subdiagnosticada”, destaca o neurologista.

O estudo mostra que a cefaleia por uso excessivo de medicamentos respondeu por até 58,9% dos anos vividos com incapacidade atribuídos à cefaleia tensional em homens e 56,1% em mulheres. No caso da enxaqueca, essa condição foi responsável por 22,6% dos anos vividos com incapacidade em homens e 14,1% em mulheres, evidenciando que o problema não está apenas na dor original, mas na forma como ela é tratada ao longo do tempo. Para o especialista, o fácil acesso a medicamentos sem prescrição contribui diretamente para esse cenário. “Analgésicos comuns, quando usados repetidamente, deixam de ser solução e passam a ser parte do problema. O paciente toma o remédio para aliviar a dor, mas esse alívio é temporário e, com o tempo, a dor volta mais cedo, criando dependência e cronificação”, afirma o Dr. Tiago.

Outro ponto de destaque do estudo é a desigualdade de impacto entre os sexos. As taxas de incapacidade associadas às cefaleias foram mais que o dobro em mulheres. “Esse dado reforça a necessidade de estratégias específicas de diagnóstico e manejo, especialmente para a enxaqueca, que acomete majoritariamente mulheres, por uma influência hormonal”, diz o neurologista.

O estudo do The Lancet conclui que grande parte do impacto global das cefaleias poderia ser evitada ou significativamente reduzida com a diminuição do uso excessivo de medicamentos, destacando a educação pública como peça-chave. Para o neurologista, essa mudança passa por acompanhamento especializado e informação de qualidade. “Tratar enxaqueca não é apenas cortar a dor do dia. Envolve investir em tratamento preventivo. Uma enxaqueca muito bem tratada, mesmo quando o paciente está exposto a gatilhos, eles não são o suficiente para causar dor”, diz o médico. Hoje, o tratamento pode combinar uso de tratamentos injetáveis como a toxina botulínica com medicamentos desenhados para tratar a enxaqueca. “Medicamentos orais como anticonvulsivantes e betabloqueadores como propranolol, além dos monoclonais Anti-CGRP, primeiros medicamentos desenvolvidos, do início ao fim, para enxaqueca, podem ser usados. Eles bloqueiam o efeito do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), que contribui para a inflamação e transmissão de dor e está presente em maiores níveis em pacientes com enxaqueca”, detalha o neurologista. “Mas é sempre importante que um neurologista avalie a condição e conduza o tratamento de maneira adequada”, finaliza o Dr. Tiago de Paula.

*DR. TIAGO DE PAULA: Médico neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC).  Autor principal de estudo premiado como Melhor Pôster pelos participantes do Congresso Internacional de Cefaleia 2025, o médico tem especialização em Neurocefaleia pela EPM/UNIFESP, onde também realizou a graduação em Medicina e a residência médica em Neurologia.  Atuou como preceptor dos ambulatórios de enxaqueca infantil, enxaqueca do adulto e migrânea vestibular da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e atualmente integra o corpo clínico do Headache Center Brasil, em São Paulo (SP). Pesquisador sobre dores de cabeça, o médico também é palestrante em congressos nacionais e internacionais e autor de artigos, capítulos, livros e publicações científicas. CRMSP 168999 | RQE 18111 | Instagram: @drtiagodepaula

NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
A automedicação continua a ser uma prática comum em muitos países, mas evidências científicas reforçam a necessidade de cautela. Este estudo internacional destaca como o uso frequente de analgésicos pode agravar a enxaqueca e aumentar a incapacidade, sublinhando a importância do acompanhamento médico especializado e de estratégias preventivas para uma melhor qualidade de vida.
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