Corpo Perfeito, Consequências Irreversíveis

Especialistas alertam para os riscos dos anabolizantes estéticos, associados a problemas cardíacos, trombose, insuficiência renal e danos irreversívei
 Ilustração sobre os riscos do uso de anabolizantes para fins estéticos e os danos ao coração, rins e sistema vascular

Uso estético de anabolizantes pode causar danos graves ao coração, rins e circulação


A aparência de força pode esconder um organismo em sofrimento silencioso


São Paulo – junho 2026 - A busca por ganho muscular rápido e por um padrão corporal cada vez mais extremo tem ampliado o debate sobre o risco do uso de esteroides anabolizantes androgênicos para fins estéticos, especialmente após casos recentes envolvendo jovens atletas e fisiculturistas. Embora essas substâncias tenham indicações médicas específicas, o uso indiscriminado e em doses suprafisiológicas pode provocar danos silenciosos e graves ao organismo, especialmente ao sistema cardiovascular. “Esse fenômeno pode ser entendido como uma forma de ‘toxicidade estética’, uma agressão biológica provocada por práticas adotadas em nome de um padrão físico, mas que podem comprometer órgãos vitais. E o grande perigo é que é uma agressão silenciosa. O indivíduo se olha no espelho e enxerga uma imagem de força e vigor, mas não percebe que, por dentro, o organismo pode estar pagando um preço alto”, afirma o farmacêutico Dr. Maurizio Pupo*, pesquisador, professor e diretor científico do IPUPO Pós-Graduações - Instituto Maurizio Pupo de Educação e Pesquisa.

Segundo o especialista, isso ocorre porque os anabolizantes, quando utilizados em doses elevadas e sem indicação médica adequada, não atuam apenas sobre os músculos aparentes, mas sim em todos os tecidos sensíveis à ação hormonal, como vasos sanguíneos, rins e, principalmente, coração. “Por uma série de mecanismos bioquímicos complexos, o uso abusivo de anabolizantes pode favorecer um crescimento patológico do músculo cardíaco, especialmente do ventrículo esquerdo. Diferente da hipertrofia fisiológica induzida pelo exercício aeróbico saudável, isso torna o coração mais espesso, rígido e menos eficiente. Além disso, ocorre morte programada das células musculares cardíacas e surgimento de fibrose no espaço deixado”, diz o farmacêutico. Essas alterações podem favorecer diferentes complicações cardiovasculares, incluindo quadros de cardiomiopatia, arritmias, insuficiência cardíaca e morte súbita.

Mas a toxicidade dos anabolizantes não se limita ao coração, afetando também o sistema vascular. “Essas substâncias podem alterar profundamente o perfil lipídico, reduzindo drasticamente os níveis de HDL, conhecido como colesterol bom, e favorecendo o aumento de LDL e de partículas associadas à aterosclerose. Isso significa menor proteção vascular, maior rigidez arterial e risco aumentado de eventos cardiovasculares inclusive em pessoas jovens e aparentemente saudáveis”, pontua o farmacêutico. Segundo a Dra. Aline Lamaita*, cirurgiã vascular em São Paulo e mestre em Ciências pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, essas substâncias também podem aumentar a produção de glóbulos vermelhos, favorecendo o aumento da viscosidade do sangue e a formação de coágulos. “Esse cenário pode levar à trombose venosa, especialmente em pessoas que já têm predisposição devido a fatores como histórico familiar, presença de varizes e tabagismo, por exemplo. Em casos graves, esse coágulo que obstrui o fluxo sanguíneo pode se desprender da parede da veia e alcançar a circulação pulmonar, causando uma embolia pulmonar, quadro potencialmente fatal”, detalha a médica. Além disso, os anabolizantes podem favorecer o surgimento ou a piora de varizes em pessoas predispostas. “Apesar de não causarem varizes de maneira direta, os anabolizantes podem alterar a circulação de diferentes formas, com aumento da pressão arterial, vasoconstrição e maior dificuldade no retorno venoso, assim contribuindo para o adoecimento das veias”, explica a Dra. Aline.

Outro ponto alarmante e frequentemente negligenciado pelos usuários de anabolizantes é o impacto dessas substâncias nos rins. “O tecido renal expressa receptores de androgênio e pode sofrer com a exposição prolongada a essas substâncias. O risco se torna ainda maior quando o uso de anabolizantes é associado a dietas hiperproteicas, desidratação, uso de diuréticos e estratégias extremas de definição corporal, práticas comuns em alguns contextos de fisiculturismo”, alerta o especialista. Com isso, os rins passam a trabalhar no limite e podem surgir lesões nos vasos renais e quadros como a glomerulosclerose segmentar e focal, quando partes dos glomérulos, que são responsáveis pela filtração do sangue, sofrem cicatrização. “Esse processo pode levar à perda progressiva da função renal e, nos casos mais graves, à insuficiência renal crônica”, pontua.

O risco ainda é agravado por uma falsa percepção de controle entre muitos usuários de anabolizantes, principalmente os mais jovens. “Por serem jovens, treinarem intensamente e apresentarem boa aparência física, muitos usuários sentem-se seguros para usar anabolizantes, acreditando que estão isentos de riscos, o que não é verdade”, pontua o especialista. Essa sensação de “segurança” é ainda maior entre aqueles que fazem os chamados “ciclos leves”. “Muitos usuários acreditam que estão protegidos porque usam doses consideradas baixas, realizam exames esporádicos ou recorrem a produtos vendidos como ‘protetores’ hepáticos e renais. Mas esse raciocínio é perigoso, pois não existe uso estético de anabolizantes isento de risco. Mesmo doses menores podem alterar pressão arterial, perfil lipídico, coagulação e resposta cardiovascular de forma cumulativa. Além disso, esses supostos ‘protetores’ não neutralizam os efeitos sistêmicos dos anabolizantes nem eliminam o risco de sobrecarga e dano a órgãos como fígado, rins, vasos sanguíneos e coração”, diz o farmacêutico. Segundo ele, um dos fatores que contribuem para essa falsa percepção é que os efeitos nem sempre aparecem de forma imediata. “O usuário pode interpretar a ausência de sintomas ou alterações pontuais em exames como sinal de segurança, quando, na verdade, o organismo pode estar passando por adaptações prejudiciais.”

É importante, no entanto, não confundir o uso de esteroides anabolizantes em doses suprafisiológicas com a reposição hormonal chamada de fisiológica, feita com hormônios bioidênticos. “A reposição hormonal é feita em pacientes que estão na menopausa, com insuficiência de determinado hormônio depois dos 40 anos. O objetivo é devolver aquilo que a paciente não está conseguindo produzir. Já o uso de esteroides anabolizantes em doses suprafisiológicas, acima do que é considerado o ideal para cada pessoa, é usado principalmente com finalidade estética e tem muitos efeitos colaterais”, esclarece a Dra. Patricia Magier*, ginecologista formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF). “Nas mulheres, o uso de esteroides anabolizantes em doses suprafisiológicas ainda pode causar virilização, com aumento do clitóris, mudança da voz, queda de cabelo, características masculinas”, alerta a médica.

E estudos mostram que os danos causados pelo uso prolongado podem ser irreversíveis. “A reversibilidade depende crucialmente do tempo de exposição, das doses utilizadas e da rapidez da intervenção médica. Algumas alterações podem melhorar após a suspensão, especialmente quando há intervenção precoce. Mas, em casos de uso prolongado, podem permanecer cicatrizes e mudanças estruturais que exigirão acompanhamento pelo resto da vida”, diz o especialista. Por isso, é fundamental ampliar a conscientização sobre os riscos do uso estético dessas substâncias entre profissionais de saúde, educadores físicos, pacientes e familiares. “Os esteroides anabolizantes têm indicações médicas específicas e podem ser úteis em condições bem definidas, sempre com prescrição e acompanhamento médico. O problema está no uso abusivo e não terapêutico, especialmente quando motivado por estética, pressão corporal, performance ou busca rápida por massa muscular. A beleza física jamais deveria ser conquistada à custa da saúde”, finaliza o Dr. Maurizio Pupo.

*DR. MAURIZIO PUPO - farmacêutico pela PUC-Campinas (1988), pesquisador, professor e diretor científico do IPUPO Pós-Graduações - Instituto Maurizio Pupo de Educação e Pesquisa - e diretor de P&D da ADA TINA. É professor nas áreas de Cosmetologia Avançada, Fotoproteção e Nutracêutica Clínica e Estética.

*DRA. ALINE LAMAITA: Cirurgiã vascular em São Paulo, Mestre em Ciências pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Com atuação focada em tratamentos modernos e minimamente invasivos de varizes, a médica tem título de especialista em Cirurgia Vascular e é membro de sociedades nacionais (como a Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular - SBACV) e internacionais na área de flebologia. Atua em hospitais de referência e é palestrante em eventos científicos nacionais e internacionais. CRM-SP 101355 | RQE 26557. Instagram: @alinelamaita.vascular

*DRA. PATRICIA MAGIER: ginecologista formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência médica pelo IASERJ e pós-graduação pela Universidade do Rio de Janeiro – UNIRIO, e Título de Especialista em Ginecologia e Obstetrícia – TEGO; também possui especialização em Medicina Integrativa e Funcional. Criadora do Método Plena para cuidado da mulher de forma completa, profunda e individualizada. Além disso, é mentora de médicos na formação Plena Master’s. CRM-RJ 54925-6 | RQE 34538 | Instagram: @drapatriciamagier
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
A crescente pressão estética e a valorização de padrões corporais extremos têm levado muitas pessoas a recorrer a soluções rápidas e perigosas. Este alerta reforça a importância da informação baseada em evidência científica, lembrando que a saúde deve estar sempre acima de qualquer ideal de beleza. A prevenção, a educação e o acompanhamento médico são fundamentais para evitar consequências que podem ser permanentes.
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