O útero como resistência e voz feminina

Exposição brasileira em Nova York debate direitos reprodutivos femininos com obras de arte contemporânea e roda de conversa on-line.
Exposição “O útero também é um punho” na Apexart em Nova York debate direitos reprodutivos femininos através da arte contemporânea brasileira.

Exposição em Nova York amplia debate sobre direitos reprodutivos e arte feminista


Exposição brasileira rompe barreiras institucionais em Nova York

A exposição “O útero também é um punho”, em cartaz na Apexart até o dia 23 de maio de 2026, reafirma a potência da arte feminista latino-americana ao transformar questões urgentes sobre direitos reprodutivos femininos em linguagem visual, política e emocional. Único projeto brasileiro selecionado entre 658 propostas internacionais, a mostra consolida-se como um marco de representatividade artística e social no circuito contemporâneo internacional.

Como desdobramento das reflexões provocadas pela exposição, será realizada no dia 16 de maio, às 15h, uma roda de conversa on-line com as pesquisadoras e curadoras Carolina Filippini e Fernanda Corrêa. O encontro pretende ampliar o debate sobre autonomia corporal, maternidade, violência institucional, aborto, saúde pública e justiça reprodutiva — temas que atravessam toda a mostra curada por Talita Trizoli e Renata Freitas.

A exposição reúne cerca de 30 obras produzidas por dez artistas brasileiras e uma argentina radicada no Brasil, integrantes do coletivo G.A.F. (Grupo de Acompanhamento Feminista). Pinturas, instalações, performances, desenhos, vídeos e esculturas revelam diferentes perspectivas sobre o corpo feminino e seus atravessamentos sociais, emocionais e políticos.

Participam da mostra as artistas Guillermina Bustos, Leíner Hoki, Leticia Ranzani, Liane Roditi, Ludmilla Ramalho, Mariana Feitosa, Natali Tubenchlak, Raffaella Yacar, Renata Freitas, Rikia Amaral e Rosa Bunchaft. Vindas de estados como Pernambuco, Sergipe, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, elas demonstram que a pauta dos direitos reprodutivos ultrapassa fronteiras geográficas, sociais e raciais.

Segundo as curadoras, discutir direitos reprodutivos vai muito além da decisão sobre levar ou não uma gestação adiante. A questão envolve educação sexual, acesso à saúde, transporte público, métodos contraceptivos seguros, condições dignas de trabalho, licença-maternidade e suporte estrutural para uma parentalidade consciente e segura.

Embora o debate tenha ganhado maior visibilidade nos últimos anos, a presença do tema nas artes visuais brasileiras ainda é limitada. Para Talita Trizoli e Renata Freitas, existe um histórico de silenciamento institucional e censura em torno da justiça reprodutiva, o que torna a exposição ainda mais necessária e provocadora.

O título da mostra dialoga diretamente com o célebre poema da escritora brasileira Angélica Freitas, “O útero é do tamanho de um punho”. A referência estabelece uma poderosa metáfora entre corpo, resistência e enfrentamento político. O útero surge, simultaneamente, como símbolo anatômico, emocional e social, carregando as ambiguidades da experiência feminina contemporânea.

Entre as obras em destaque está “Autonomia condicional”, da artista Guillermina Bustos, um jogo eletrônico interativo que coloca o público diante das tensões e escolhas relacionadas a uma gravidez indesejada. Já Natali Tubenchlak apresenta trabalhos que cruzam maternidade, animalidade e violência simbólica, enquanto Ludmilla Ramalho transforma a experiência da amamentação em uma potente videoperformance sobre objetificação do corpo materno.

A animalidade também aparece nas obras de Rikia Amaral, que utiliza referências biológicas e mitológicas para discutir sobrevivência, aborto espontâneo e feminilidade. Rosa Bunchaft, por sua vez, aborda violência institucional e maternidade neurodivergente através de trabalhos que questionam o sistema judiciário e as chamadas Varas de Família.

O aborto, espontâneo ou provocado, aparece tanto de forma explícita quanto metafórica em diferentes obras da exposição. Em “O alívio”, Raffaella Yacar cria uma instalação de atmosfera onírica que dialoga com perdas gestacionais e memória corporal. Já Mariana Feitosa apresenta aquarelas delicadas e inquietantes, nas quais corpos grávidos parecem desaparecer lentamente em manchas e vestígios.

A instalação “Licença poética”, de Renata Freitas, utiliza lençóis hospitalares para refletir sobre cuidado, controle e autonomia feminina. O trabalho remete aos milhões de mulheres que, em algum momento da vida, vivenciam consultas ginecológicas, partos ou experiências hospitalares marcadas por vulnerabilidade e exposição.

Outras obras exploram maternidades alternativas, relações homoafetivas e possibilidades não convencionais de construção familiar. A artista Leíner Hoki propõe novos olhares sobre maternagem e revisita obras clássicas da arte brasileira para questionar estruturas históricas de controle sobre o corpo feminino.

Mais do que uma exposição, “O útero também é um punho” transforma-se em espaço de escuta, denúncia e elaboração coletiva. Em tempos de retrocessos sociais e disputas políticas em torno dos direitos das mulheres, a mostra reafirma o papel da arte como território de resistência, memória e transformação social.

SERVIÇO:
Conversa on-line: “O útero também é um punho”
Data: 16 de maio, às 15h
Participação: Carolina Filippini e Fernanda Corrêa
Local da exposição: Apexart
Endereço: 291 Church St., NYC
Período da mostra: até 23 de maio de 2026
Funcionamento: terça a sábado, das 11h às 18h
Entrada: gratuita
Inscrições: Eventbrite - Talk with Carolina Filippini and Fernanda Corrêa da Silva
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
A exposição “O útero também é um punho” evidencia como a arte contemporânea pode atuar como ferramenta de enfrentamento político, reflexão social e afirmação de direitos. Ao reunir artistas de diferentes contextos e trajetórias, a mostra amplia vozes historicamente silenciadas e reafirma a urgência de debates sobre autonomia corporal, maternidade e justiça reprodutiva em escala global.
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