A tecnologia desafia escolas a reinventar ensino, formação e aprendizagem
Proibir tecnologia sem alternativa é ensinar de costas para o futuro
Por: Paulo Cardoso
Country Manager da ViewSonic Brasil
Há décadas estamos vendo uma cena que se repete nas escolas brasileiras: o professor entra na sala de aula, pede para os alunos abrirem o livro didático na página da matéria, sintetiza os pontos-chave na lousa e os alunos copiam em seus cadernos. Tudo em silêncio e unidirecional.
É um rito que funcionou por muito tempo, mas que hoje convive com uma realidade completamente diferente do lado de fora da escola. Minha filha, que completa 18 anos neste ano, já vive uma educação muito mais dinâmica e conectada que a minha. E a diferença é brutal. E o que ela experimenta não é um desejo de poucos: é o que a maior parte dos jovens desta geração estão querendo.
A questão não é mais se a tecnologia deve entrar na sala de aula. Ela já está lá, no bolso de cada aluno, no fone de ouvido wireless, na tela consultada embaixo da carteira. A pesquisa TIC Educação divulgada no fim de 2025 revelou que 72% dos estudantes usavam canais de vídeo como YouTube e TikTok para pesquisas escolares. E mais, no ensino médio, sete em cada dez alunos já recorrem a ferramentas de inteligência artificial como ChatGPT e Gemini nas tarefas escolares.
A pergunta que precisamos responder, e que cabe especialmente a quem lidera escolas, é outra: como fazemos essa tecnologia trabalhar a favor do aprendizado?
O PNLD 2026 abriu uma porta importante nessa direção. Pela primeira vez, os Recursos Educacionais Digitais (os chamados RED) passam a ser componentes obrigatórios do processo de aprendizagem nas escolas públicas, especialmente nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, e não mais um apêndice opcional. Lousas digitais interativas, projetores laser de alta imersão, plataformas de colaboração com gamificação e inteligência artificial, e ferramentas de videoaula passam a fazer parte do cotidiano escolar, muitos deles por política pública.
Isso não é tendência passageira, mas uma transformação em curso que ainda é subestimada por muitas instituições educacionais, inclusive nas particulares. Mas equipar a escola não é o mesmo que transformar o ensino. E é aqui que a responsabilidade de gestores e educadores se torna central.
O primeiro passo concreto é garantir a infraestrutura que dá sustentação a tudo isso. O cenário evoluiu nos últimos anos, mas os desafios permanecem significativos. Segundo o Censo Escolar 2025, analisado pela MegaEdu, 93% das escolas públicas já têm acesso à internet, certamente um avanço expressivo em relação a anos anteriores. Porém, menos da metade delas (46%) conta com dispositivos em quantidade considerada adequada para uso educacional, e uma em cada três escolas declara não ter nenhum dispositivo para os alunos. Sem acesso e sem equipamentos adequados, as melhores ferramentas digitais do mundo não chegam ao aluno. É um fato. E restringir o uso de smartphones nas escolas sem oferecer uma contrapartida tecnológica pode apenas agravar essa lacuna.
Para diretores de escola, isso significa atuar ativamente junto às secretarias de educação e programas federais como a Estratégia Nacional de Escolas Conectadas, que já garantiu condições adequadas de uso pedagógico em 68% das escolas públicas brasileiras, segundo o balanço da MegaEdu.
O segundo passo é o mais transformador, e também o mais subestimado: a formação do professor. Ainda existe a percepção equivocada de que a tecnologia veio para substituir o educador. A realidade é oposta. O TIC Educação mostrou que 54% dos professores participaram de atividades de formação continuada com foco em tecnologias digitais nos 12 meses anteriores à pesquisa, mas na rede municipal esse número caiu de 62% para apenas 43% entre 2021 e 2024, revelando um retrocesso preocupante exatamente onde a demanda é maior.
Um professor que opera uma lousa digital interativa, que compartilha a tela com os dispositivos dos alunos e que usa dados de engajamento em tempo real não perde autoridade. Ele a reconquista. Reconquista a atenção de uma geração que foi treinada pelo algoritmo a só permanecer onde há estímulo, ritmo e relevância. E na velocidade que eles desejam.
Para gestores, isso significa criar espaço real na rotina escolar para formação continuada em tecnologia. Não como evento pontual, mas como prática permanente. Uma escola que investe na capacitação do seu corpo docente está investindo no único fator que nenhuma tecnologia substitui: o professor.
O terceiro passo é garantir que o conteúdo esteja à altura das ferramentas. Ainda nos dados do TIC Educação, apesar de 70% dos alunos do ensino médio já usarem inteligência artificial para estudar, apenas 32% desses alunos receberam alguma orientação nas escolas sobre como usar essa tecnologia de forma segura e responsável. Esse dado revela um risco real: a tecnologia sendo usada sem mediação pedagógica produz dependência de respostas prontas, e não pensamento crítico. O desafio do educador moderno não é proibir a tecnologia, mas ensinar a usá-la com intencionalidade.
O quarto passo é manter o acompanhamento do engajamento dos alunos com a tecnologia. É preciso usar o analytics a nosso favor para entender se os alunos estão de fato engajando, se há melhora na retenção e se os formatos adotados dialogam com os canais que eles mais utilizam. A sala de aula sempre foi uma troca, e essa troca precisa estar cada vez mais equilibrada. Usar esses dados para tomar decisões pedagógicas é uma das habilidades mais valiosas que um professor pode desenvolver hoje.
Há, nessa combinação de infraestrutura, formação e conteúdo, um caminho concreto para uma educação pública que finalmente converse com a década em que vivemos. Segundo a OCDE, trabalhadores com competências digitais têm 17% a mais de chances de serem contratados do que aqueles sem essas habilidades, e esse gap só tende a crescer. Cada escola que implementa tecnologia de forma estruturada não está apenas modernizando o ensino: está ampliando as possibilidades reais de futuro dos seus alunos.
Voltando à cena inicial: o professor, a lousa, o silêncio. Esse cenário não precisa desaparecer, mas precisa evoluir. A tecnologia já existe. O orçamento começa a existir. A política pública deu um passo concreto. E vemos o diálogo entre os diferentes atores do ecossistema escolar cada vez mais presente.
Educadores e gestores têm agora a oportunidade de assumir o protagonismo dessa transformação dentro das suas escolas, com planejamento, formação e olhar contínuo para as necessidades futuras. Porque os livros e apostilas didáticas impressas nunca foram o fim da educação, e sim um meio que, trabalhando em conjunto, preparam as gerações para o mundo. E estar alinhado com as expectativas do mundo que a minha filha está vivendo agora, assim como tantos outros jovens, é a única forma de evoluirmos.
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
A transformação digital na educação deixou de ser uma previsão futurista para se tornar uma exigência do presente. O desafio já não está apenas em colocar tecnologia dentro das escolas, mas em preparar professores, alunos e gestores para utilizá-la de forma inteligente, ética e produtiva. Entre lousas digitais, inteligência artificial e plataformas interativas, o grande risco talvez não seja o excesso de tecnologia, mas sim continuar a ensinar como se o mundo ainda fosse analógico.
A tecnologia desafia escolas a reinventar ensino, formação e aprendizagem
Redatora do luso-brasileiro Portal Splish Splash. VER PERFIL
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