Saída de medicamento reacende debate sobre tratamento integral da enxaqueca no Brasil
Menos opções terapêuticas significam mais desafios para milhões de pacientes
São Paulo – maio 2026 - A notícia de que o medicamento galcanezumabe, usado no tratamento preventivo da enxaqueca, será descontinuado no Brasil acendeu a preocupação de pacientes que utilizam o fármaco. Mas a discussão vai além da descontinuação e o caso também chama atenção para a forma como a enxaqueca ainda é compreendida e tratada no país. “No Brasil, ainda existe uma alternativa da mesma classe do galcanezumabe e, em alguns casos, ela pode ser até mais adequada. Mas a saída de uma opção terapêutica para o controle de uma doença extremamente prevalente e incapacitante é negativa, especialmente em um momento em que se discutia a possibilidade de incorporação desse tipo de tratamento ao Sistema Único de Saúde. A enxaqueca crônica é uma condição complexa e quanto mais alternativas temos, maior a possibilidade de individualizar o tratamento de acordo com o perfil e a resposta de cada paciente”, explica o Dr. Tiago de Paula, neurologista especialista em Cefaleia, membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC).
O galcanezumabe faz parte de uma classe de medicamentos que atua na via do CGRP, peptídeo envolvido nos mecanismos de dor e inflamação associados à enxaqueca. “Nos últimos anos, esses fármacos representaram um avanço importante no tratamento da condição, pois atuam de forma mais específica em uma das principais vias envolvidas na enxaqueca”, destaca o Dr. Tiago. Segundo ele, a saída de medicamentos desse tipo do mercado pode ser influenciada por uma combinação de diferentes fatores, incluindo prescrição, custo, adesão ao tratamento e percepção de benefício pelo paciente. “Um ponto central é que muitos profissionais ainda têm pouca familiaridade com o manejo adequado da enxaqueca. Quando o médico não conhece bem a doença, não sabe selecionar o paciente ideal ou não conduz corretamente o tratamento, a chance de uma resposta insatisfatória aumenta. E, quando o paciente não percebe melhora suficiente, especialmente em uma medicação de alto custo, a tendência é abandonar o tratamento”, diz.
O neurologista explica que um dos erros mais comuns no uso dessas medicações preventivas é não abordar, em conjunto, o uso excessivo de remédios para crise. “Muitos pacientes com enxaqueca usam medicações como analgésicos e anti-inflamatórios na tentativa de controlar as crises. Mas isso pode piorar o padrão de dor. E se o uso excessivo de medicações para crise não é abordado, a resposta a qualquer terapia preventiva pode ser prejudicada”, pontua o médico. Ou seja, a falta de resposta nem sempre significa que a medicação não funciona. Muitas vezes, o problema está no contexto em que ela é utilizada. “A enxaqueca é uma doença crônica e complexa. O tratamento envolve diagnóstico correto, identificação do padrão das crises, controle do uso excessivo de medicamentos, mudanças de hábitos e escolha adequada das terapias preventivas. Quando o tratamento é feito de forma fragmentada, sem essa visão, os resultados tendem a ser piores”, acrescenta
Quanto aos pacientes que fazem uso de galcanezumabe, que deixará de ser comercializado em junho, é fundamental não substituir o fármaco por conta própria. “A orientação é procurar o médico para avaliar alternativas disponíveis e definir a melhor conduta. Ainda existe opção no Brasil e novas classes também estão chegando. Por exemplo, os gepantes, recém-aprovados pela Anvisa, também atuam na via do CGRP e, além de serem usados no tratamento das crises, podem fazer parte de estratégias preventivas. E têm como vantagem o uso por via oral. Mas uma classe não substitui automaticamente a outra e cada caso deve ser avaliado individualmente”, destaca.
Para o Dr. Tiago de Paula, a saída da medicação do mercado brasileiro deve servir como alerta para ampliar a discussão sobre a condição, a oferta de terapias e a importância do acompanhamento individualizado especializado. “Ter menos alternativas é negativo, especialmente em uma doença tão frequente e incapacitante. Mas o ponto principal é que a enxaqueca precisa ser melhor abordada no país, pois ainda é muito banalizada. Muitos pacientes passam anos tratando apenas a dor, sem receber um plano adequado para controlar a doença. Qualquer terapia, por mais moderna que seja, funciona melhor dentro de uma estratégia bem conduzida. A medicação é uma ferramenta, mas o tratamento da enxaqueca vai muito além dela”, finaliza.
DR. TIAGO DE PAULA - Médico neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). Autor principal de estudo premiado como Melhor Pôster pelos participantes do Congresso Internacional de Cefaleia 2025, o médico tem especialização em Neurocefaleia pela EPM/UNIFESP, onde também realizou a graduação em Medicina e a residência médica em Neurologia. Atuou como preceptor dos ambulatórios de enxaqueca infantil, enxaqueca do adulto e migrânea vestibular da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e atualmente integra o corpo clínico do Headache Center Brasil, em São Paulo (SP). Pesquisador sobre dores de cabeça, o médico também é palestrante em congressos nacionais e internacionais e autor de artigos, capítulos, livros e publicações científicas. CRMSP 168999 | RQE 18111 | Instagram: @drtiagodepaula
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
A descontinuação do galcanezumabe no Brasil ultrapassa a questão comercial e expõe uma realidade ainda negligenciada: a enxaqueca continua a ser subestimada como doença incapacitante. O alerta feito pelo neurologista Dr. Tiago de Paula reforça a necessidade de ampliar o acesso à informação, ao diagnóstico correto e a terapias individualizadas. Num cenário onde muitos pacientes convivem durante anos apenas “apagando incêndios” com remédios para crise, o debate sobre prevenção, acompanhamento especializado e políticas públicas torna-se cada vez mais urgente.
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