Saúde mental no trabalho entra no centro do debate

Especialistas debatem no RJ os impactos da NR-1 e a crise de saúde mental no trabalho no Brasil, destacando riscos psicossociais e soluções estratégic
Debate sobre saúde mental no trabalho reúne especialistas no Rio de Janeiro

Evento no RJ discute impactos da NR-1 e crise emocional nas empresas

O Brasil deixou de ser o “país da alegria” nos bastidores corporativos

"Ignorar riscos psicossociais custa caro — e muito."
Alba Bittencourt

A psicóloga social e do trabalho Eliana Sorrini será uma das vozes centrais do debate “Para além da NR-1 – o desafio da saúde mental no trabalho”, que acontece no próximo dia 5 de maio, no Auditório do Fluzão, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. O encontro, promovido pela Fundação MUDES em parceria com a ACIJA, reúne especialistas para discutir uma questão urgente: o adoecimento mental no ambiente corporativo brasileiro.

Ao lado da psiquiatra Mariana Savedra, da consultora Joana Marques e da analista comportamental Nize Capasso, Sorrini propõe uma reflexão que vai além da obrigação legal. A atualização da NR-1, segundo ela, pode ser uma poderosa alavanca de transformação cultural dentro das empresas — desde que encarada com seriedade estratégica, e não apenas como mais uma exigência burocrática.

O ponto de partida é direto: o Brasil adoeceu — e o trabalho tem papel central nisso. Indicadores de absenteísmo, presenteísmo, rotatividade e queda de produtividade revelam um cenário preocupante. A nova NR-1 exige o mapeamento de riscos psicossociais, mas muitas organizações ainda não sabem por onde começar. A questão deixou de ser “se” devem agir e passou a ser “como” agir de forma eficaz.

Dados da Organização Mundial da Saúde e do Instituto de Psiquiatria da USP confirmam o alerta: o Brasil lidera o ranking global de ansiedade e é o país mais depressivo da América Latina. Um contraste gritante com a imagem histórica de nação alegre, resiliente e acolhedora.

Segundo Sorrini, o desafio atual exige uma mudança estrutural. “Não se trata apenas de cumprir uma norma, mas de construir um modelo de gestão que identifique, priorize e trate os riscos de forma contínua e integrada ao negócio”, explica. Isso implica fortalecer governança, dados e processos internos, além de elevar o nível de responsabilidade da alta liderança, que passa a responder diretamente pela eficácia das medidas adotadas.

A partir de 25 de maio de 2026, a NR-1 atualizada torna obrigatória a gestão de riscos psicossociais dentro do Programa de Gestão de Riscos (PGR). Fatores como estresse crônico, assédio moral, burnout e violência no ambiente de trabalho deixam de ser periféricos e passam a ocupar o centro das ações fiscalizatórias. Mais do que olhar para o indivíduo, será necessário analisar a própria organização do trabalho — jornadas, metas, sobrecarga e relações interpessoais.

O mito do “homem cordial” e a pressão por performance

Para compreender o cenário atual, é preciso revisitar as raízes culturais brasileiras. O historiador Sérgio Buarque de Holanda descreveu o brasileiro como o “homem cordial” — alguém guiado pelas emoções. No ambiente corporativo, essa característica muitas vezes dissolve as fronteiras entre o pessoal e o profissional.

Nos últimos anos, essa cultura emocional foi capturada por uma espécie de “tirania da positividade”. O trabalhador sente-se pressionado a demonstrar felicidade constante, mesmo diante de metas agressivas e hiperconectividade. O resultado é uma desconexão interna que drena energia e compromete a saúde mental.

Saúde mental como estratégia — não custo

Na prática, muitas empresas ainda tratam o tema de forma superficial, investindo em ações pontuais que pouco impactam a raiz do problema. Para Sorrini, iniciativas como “frutas no escritório” ou pausas pontuais não resolvem questões estruturais.

A verdadeira transformação passa pela identificação e gestão de fatores críticos, como liderança tóxica, excesso de cobrança e falta de autonomia. O impacto financeiro também é significativo: um afastamento por questões mentais pode custar, em média, três vezes o salário do colaborador. Trata-se de um prejuízo silencioso que afeta diretamente os resultados e o clima organizacional.

Empresas que priorizam a saúde mental tendem a ser mais sustentáveis, produtivas e lucrativas. A equação é clara: cuidar das pessoas não é apenas uma questão ética — é uma decisão estratégica.

Sobre Eliana Sorrini
Com mais de uma década de atuação como psicóloga social e do trabalho, Eliana Sorrini possui MBA em Gestão de Empresas e uma carreira executiva consolidada de mais de 20 anos no Brasil e na América Latina. Atualmente, atua como consultora estratégica, levando ao meio corporativo a discussão sobre saúde mental como ferramenta para melhoria de desempenho e resultados.

Especialista em ansiedade, depressão, transtornos de humor e burnout, Sorrini defende uma abordagem baseada na responsabilidade individual e na liderança consciente. “A solução não é forçar o brasileiro a sorrir, mas promover consciência e desenvolvimento real”, afirma.

O evento contará com café de networking das 9h às 10h e painel com especialistas das 10h às 12h, no Auditório do Fluzão, localizado na Avenida Ayrton Senna, 5250, Barra da Tijuca. As inscrições estão disponíveis online.
NOTA DO EDITOR - PORTAL SPLISH SPLASH
A discussão sobre saúde mental no trabalho deixou de ser tendência para se tornar urgência. O debate promovido pela Fundação MUDES reforça a necessidade de transformar cultura organizacional em vez de apenas cumprir normas, apontando caminhos concretos para empresas mais humanas e sustentáveis.
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